segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Abrindo espaço para o novo chegar


Abrindo espaço para o novo chegar

Tinha uma vida organizada e conturbada, tinha tudo e não tinha nada, vivia uma vida sem sentido, com muita dor e muito conflito. Ele sabia que precisava dar um passo pra trás, mas hesitava, achava que só devia andar pra frente.

Certa vez lhe disseram que só caranguejo andava pra trás, e que um homem não voltava na sua palavra nem no seu caminho. Disseram também que numa determinada altura da vida o indivíduo não devia mais mexer em nada, pois nada mais teria jeito, não haveria mais perspectiva para aquele indivíduo de certa idade. Por muito tempo ele acreditou nisso, até o dia em que resolveu se desfazer do que tinha e procurar o que realmente merecia, queria uma vida nova, prazerosa e feliz. Sendo assim, deixou tudo pra trás, praticou o desapego, e seguiu, rumo ao desconhecido.

Deixou uma relação amorosa intempestiva, pra que pudesse vir o verdadeiro amor.
Deixou o emprego exaustivo que lhe sugava, pra que outras oportunidades batessem à porta.
Deixou o filho morar sozinho, para amadurer e tomar conta da própria vida.
Deixou a casa em que se criou, para poder construir novas lembranças.
Deixou as roupas velhas, para criar um novo estilo.
Deixou pra trás tudo que tinha de antigo, para que o novo encontrasse seu espaço.

E assim praticou o desapego, não foi nada fácil, mas foi uma etapa importante e necessária em sua vida. Agora ele enxerga o novo que vem vindo, com aquele cheirinho de que nunca foi usado, com aquele sabor de estréia... E ele, tal qual uma criança diante de um presente novinho, está animado em saber como se usa, o que faz, mas ao mesmo tempo ainda tem um pouco de medo e insegurança diante dessa situação, além de saudade dos brinquedos velhos. Mas sua mãe sempre lhe dizia que se a gente não se desfaz dos brinquedos velhos, os novos não encontrarão o seu espaço.

Por muito tempo insistiu em só andar pra frente, um dia cansou de ouvir o que lhe diziam, percebeu que aqueles que lhe falavam que somente caranguejo andava pra trás eram pessoas acomodadas, infelizes e fracassadas. Por isso decidiu que não seria mais um deles a seguir e propagar tal lição, mesmo diante do medo ele deu um passo pra trás, pra poder dar mais dois a frente, e assim viver sua nova vida, uma vida nova e sobretudo feliz.

[Mente Hiperativa]

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Céu azul


Céu azul


De repente ele acordou e ao abrir a janela percebeu o céu mais azul.

Será que o tempo se abriu ou somente agora ele se deu conta do azul do céu?


O azul canta a felicidade... E a chama pra perto da infinitude do céu.


[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Você gosta do fácil? Eu gosto é do difícil!


Você gosta do fácil? Eu gosto é do difícil!

Eu gosto dos caminhos difíceis, tortuosos
Gosto de amores difíceis, complicados
Comigo os amores fáceis não duram

Amigos difíceis me atiçam a curiosidade
Me atrai o sujeito hermético, nebuloso, distante
Pois eu tenho prazer em desvendar as pessoas

Por isso eu gosto do difícil
Quero sentir a insegurança, o medo
Preciso me superar, crescer, aprender

E que graça tem se tudo vem muito fácil?
Se tudo vem pronto o que eu vou fazer, então?
Como vou me divertir assim?

Eu gosto é dos caminhos difíceis
Adoro ser desafiado, jogar com o poder
Eu quero é que venha a dificuldade!

[Mente Hiperativa]

domingo, 21 de agosto de 2011

Refém da própria vida


Refém da própria vida

Desde sempre soube que não tinha nascido pra isso, torradas quentinhas recém-saídas da torradeira, crianças assistindo desenho animado na sala, fazendo bagunça, sua esposa preparando ovos fritos, que estalavam na frigideira... E sua cara apática, gélida, pálida, seu olhar fixo no relógio, seguindo os ponteiros, tentando em vão rebubiná-los, cada segundo que passava, um segundo a menos, e os ovos a fritar, e a esposa a cantarolar, uma felicidade que chegava a irritá-lo, e as crianças gritando na sala... Que vontade de gritar!!! Vontade de gritar, de pular, de explodir, de... Sei lá, de botar pra fora toda essa energia acumulada por anos e anos.

Mas permanecia ali sentado, estático, sem ação, faltava-lhe a centelha que insistia em não vir. 'Amor, os ovos fritos vão esfriar, coma logo' - dizia ela, de forma tão amável- 'o que você tem hoje? Parece tão pensativo'.

Ele permaneceu calado, encheu a boca de ovo frito e torradas. Depois foi trabalhar.

Ele era mais um refém da própria vida, vivia o dia-a-dia sobre pressão, com vontade de fugir, mas fugir de que? De quem? Da própria vida?

E por que não foge, então? O que lhe prende?

Sentia-se um claustrofóbico emocional.

Assim ia vivendo, angústia, sofrimento, pseudo-felicidade, orgulho da família, da própria vida, mentiras, fingimento. Suas escolhas fizeram dele algoz e vítima ao mesmo tempo, ele tem a chave que lhe tranca, mas hesita em fugir pois ele é o sequestrador e o sequestrado- ao mesmo tempo - é ele que toma conta pra ele não fugir do cárcere.

Hoje é mais um dia de domingo, dia de sair com a família, que tal ir ao shopping? Sua esposa adora essa programação dominical, adora mais ainda gastar o seu dinheiro com coisas fúteis, bolsas, sapatos que nunca vai usar, só se acumulam no closet, afinal eles quase não saem à noite desde que tiveram filhos. E por falar em filhos, eles também adoram ir ao shopping, sobretudo ao playstation e às lojas de game.

E ele? Será que ele gostava de ir ao shopping aos domingos? Será que alguém lhe perguntava isso? Ah, quem se importava com sua opinião... Além do mais precisavam de um motorista e de uma conta bancária generosa. E o que podia fazer? Ele era o chefe da família, ir ao shopping aos domingos eram os ossos do ofício...

De fato ele tinha avida que tinha porque optou por ela, mas sempre soube que não nascera pra isso, shopping aos domingos, assistir à novela, depois jantar, somenta uma luz a iluminar a todos na mesa. Ainda tinha a sogra que ligava cinquenta vezes por dia e o cachorro que ele precisava levar pra passear. Ovos fritos, crianças, shopping, cachorro, sogra, decididamente isso não era vida, não era vida pra ele.

A rotina lhe causava náuseas, olheiras, barriga proeminente, que crescia, e crescia, de tanto que comia, ovos fritos, canja de galinha, feita com amor, e cerveja, cerveja todo fim de semana, pra anestesiar, pra esquecer o que poderia ter sido e não foi, pra desencorajar a vontade que minguava mas se mantia ali presente, vontade de voltar no tempo e fazer diferente, vontade de largar tudo e fazer a diferença, agora.

Mas não tinha coragem de fugir, ele tinha a chave, é verdade, mas ele estava ali de vigília para que não deixasse ele mesmo fugir. Sendo assim só lhe restava lavar o carro, era domingo e essa poderia ser uma ótima oportunidade de esquecer da sua vida, e de todo o resto... Um bom programa de domingo, lavar o carro enquanto a esposa toma chá com as amigas (mera desculpa pra fofocar) e as crianças jogam game na casa dos colegas vizinhos. Aliás, não sabem fazer outra coisa. E assim não deixava a solidão lhe fazer companhia, preferia a companhia do seu carro, ensopado, que ele secava, limpinho, brilhando, bonito, bacana.

Foi isso que ele fez da vida? Foi isso que a vida fez dele?

Mas ele sempre soube que aquela não era vida pra ele...

[Mente Hiperativa]

sábado, 20 de agosto de 2011

Melhor morrer de vodca, que de tédio


Melhor morrer de vodca, que de tédio

Poeta é gente que vive, intensamente, que sente a vida correr pelos dedos, que transpira cada momento bom, compartilha suas alegrias explicitamente na ludicidade de suas palavras.

Poeta é gente que morre, um pouco à cada dia, de tuberculose, tristeza e depressão, de amores incompreendidos, por vezes até platônicos e deixa tudo claro nas entrelinhas de seus escritos.

A vida de poeta é extrema, exagerada, boêmia, alguns se matam em vida, outros através de seus personagens. Goethe, por exemplo, matou-se através do jovem Werther; Maiakoviski foi mais visceral, suicidou-se logo após concluir sua obra 'A plenos pulmões'. Sarcasmo?

Wladimyr Maiakovski sintetizou a "vida poeta" com a seguinte frase: 'Melhor morrer de vodca, que de tédio'.

A vida poeta é uma vida de dor e sofrimento, mas também de alegrias fantasiosas e muita criatividade. Na vida poeta não existe espaço para o tédio, tudo é intenso, não cabe escolhas, tudo é pra ser vivido: o que há de bom e o que há de ruim.

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Trecho final de 'A PLENOS PULMÕES'


Camarada vida,
vamos,
para diante,
galopemos
pelo quinqüênio afora.
Os versos
para mim
não deram rublos,
nem mobílias
de madeiras caras.
Uma camisa
lavada e clara,
e basta, —
para mim é tudo.
Ao
Comitê Central
do futuro
ofuscante,
sobre a malta
dos vates
velhacos e falsários
apresento
em lugar
do registro partidário
todos
os cem tomos
dos meus livros militantes.


Dezembro, 1929 / janeiro, 1930

(Tradução: Haroldo de Campos)

[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O príncipe e o seu palácio


O príncipe e seu palácio

Texto de HB Brayan: http://hbrayan.blogspot.com/2011/06/o-principe-e-seu-palacio.html

Nas notas do anoitecer
A essência o toca
O desperta.. o move... O desloca.

Uma nova canção
Chama-lhe pra dançar
Uma bela emoção
De demasiado falar

Em um branco palácio
Vives a desvanecer
A sonhar... a esperar... A poder

Um passo adiante
E dois pra trás
No ritmo inconstante
O príncipe se desfaz

Nos timbres melódicos
Teu coração o esmorece
O delira... o cega.. O enlouquece

Procuras uma sinfonia
A harmonia em dueto
Exiges sentimentos
Negas qualquer soneto

Em cada amanhecer
Sentes a frustação
A dor... a tristeza ...A solidão

Teu compasso valsar
Torna-lhe aprisionado
Sabes como amar
Jamais saberás ser amado

NOTA: O texto é do Brayan, mas a história do príncipe bem que se parece com a minha, e como parece!

[Mente Hiperativa]

domingo, 14 de agosto de 2011

Arte grávida


Arte grávida

Pintura de Christabel Annie Cockerell, 'Morning play'.

A arte estava pejada, prenhe de sonhos, guardou-os por meses em seu ventre, em sua cabeça, em seus pensamentos bagunçados, ora perdidos, ora achados, misturados, porém sempre repletos de muita criatividade. Não sabia como organizar tantas informações, nunca estivera grávida antes, nunca havia pensado nessa possibilidade de Gerar, por isso pra ela tudo era novo, surpreendente e excitante.

Era uma nova e incrível experiência em sua vida, tentou planejar tantas idéias, catalogá-las, desenvolvê-las, foi um processo de amadurecimento, uma longa gestação que um dia teve seu fim. Chegou o grande dia, o tão esperado dia, sua arte precisava nascer, tinha que sair de dentro dela, precisava ver o sol, sentir a brisa tocar-lhe o rosto, queria conhecer o mundo de perto.

Assim ela nasceu, brotou, deu à luz os seus devaneios, belos devaneios, com dois olhos atentos ao mundo, uma boca que grita e clama atenção, chora e ri, trouxe ao mundo sua arte, iluminou-o com suas idéias, pinturas, desenhos, poemas, escritos, com seu filho, sua criação, seu rebento, sua prole, sua obra-prima, seus frutos, concebeu e gerou sua arte.

Até hoje não sabe ainda como conseguiu, não sabe ao certo como isso ocorreu, como 'aquilo' saiu de dentro de si, mas sabe que foi uma bela criação sua. Ela não seguiu fórmulas nem planos, não fez força, nem sentiu dor, na hora de nascer (e essa foi a hora mais fácil) apenas abriu as pernas, não sabia parir, mas a dor do parto tratou de ensiná-la, não sabia pintar, escrever, compor, desenhar ou criar, mas o talento ensina.

[Mente Hipertiva]