quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Só mais uma


Só mais uma

No cassino do amor era aquele jogador habilidoso que sabia quando e onde apostar suas fichas, distribuía as apostas com perspicácia e quase sempre ganhava o prêmio. Com um olho no jogo e o outro nos concorrentes, dificilmente algo lhe escapava. Podia sentir o clima da partida pela respiração dos concorrentes, os olhares trocados revelavam suas angústias e desejos inutilmente disfarçados. Preparava-se, então, para o momento certo que o levaria a mais um desfecho brilhante, especulava a melhor jogada e pá, vitória certa!

Com seu talento notável conquistou várias partidas, mas como todo bom jogador nunca soube a hora de parar. Jogava compulsivamente e à cada aposta sentia prazer ao saber que era tudo ou nada, que poderia perder toda sua conquista, mas era justamente esse risco que alimentava-lhe a alma. A cada vitória era tomado pelo desejo de vivenciar novamente aquela sensação e à cada derrota a dor o fazia jurar que jogaria só mais uma.

E como um vício que jamais tem fim ele virava as noites nos cassinos da cidade colecionando prêmios cobiçados e perdendo tudo em seguida, sempre voltando à mesa pra vingar seu orgulho ferido. O ciclo de prazer e dor se mantinha vivo e o motivava nesse jogo de roleta, cartas e amor. Eram fichas e mais fichas, o coração ia a mil em apenas um segundo, quase saía pela boca, mas mantinha-se vivo por pura vontade de vencer, só mais uma.

[Mente Hiperativa]

domingo, 24 de julho de 2016

A morte: fatalidade ou escolha?


A morte: fatalidade ou escolha?

E se a morte não existisse e cada um determinasse o instante do seu fim? Em que momento você ia querer parar? Aliás, você ia querer parar? Teria que ter coragem ou motivo suficiente pra encerrar a vida, já que por conta própria ela jamais acabaria. Parece surreal, mas será que não é assim que ocorre?

A morte é o grande mistério da vida, será que temos o poder de determinar nossa causa mortis ainda que sem ter plena consciência disso? Através das nossas experiências, consumos, modo de vida, exposições e circunstâncias?

O tabagista que morre de câncer, o imprudente que morre no trânsito, o glutão que morre de infarto, o relapso que morre por descontrole de sua enfermidade, o irresponsável que morre no acidente de trânsito, o bandido que morre pelo crime.

Será que no fundo a vida não quer acabar e cada um de nós que a provoca e a deixa sem saída? No final das contas parece que o suicídio não é algo tão incomum, ao menos partindo do pressuposto de que ele pode ser longo e calmamente arquitetado durante toda uma existência. Não é preciso morrer rápido pra concluir que se matou, nos matamos no dia a dia, à cada cigarro tragado, à cada discussão de trânsito, à cada raiva guardada, matamos um pouco de nossa vida à cada traição, mentira ou extravagância alimentar.

A vida vai se acabando, se arrastando, e o último golpe será sempre considerado o culpado. Mas na verdade tivemos tempo suficiente de planejar o crime perfeito, muitas vezes o primeiro e último de toda uma vida.

[Mente Hiperativa]

domingo, 5 de junho de 2016

Aquele vazio não era fome


Aquele vazio não era fome 

Quem é você que nunca sentiu o estômago gelar por alguém? Você que nunca teve medo de quebrar a cara. E quebrou bonito.

Você que nunca se jogou de olhos fechados no escuro desconhecido. Nunca se entregou na primeira vez como se já fosse a milésima.

Se você nunca arriscou pra petiscar, se nunca sentiu indigestão após se banquetear, você não sabe o que é passar fome de amor.

[Mente Hiperativa]

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Tempo de pipa


Tempo de pipa

Em céus de pipa não voam mais crianças como antigamente. O sol brilha como sempre, mas agora os papagaios não procuram maia as crianças pra brincar. As bolas de gude rolam para dentro de formigueiros em busca de diversão. Peões rodam e rodam, tontos, em busca do que é belo e vulgar. Vivemos o tempo da preguiça.

O sol, o algodão doce e as bolhas de sabão desfilam no céu, mas as pipas não se encontram mais com as crianças. Um dia quem sabe as coisas voltem a fazer sentido, talvez as pipas voltem a puxar as crianças pelo cordão e então o mundo volte ao normal. Um dia, quem sabe...

[Mente Hiperativa]

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Se(nti)r humano


Se(nti)r humano 

Saudade é o desejo de iludir-se,
de sentir novamente que tem
mesmo sem jamais ter tido.

[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O suficiente


O suficiente

   Só, apenas, somente,
       simplesmente
        o suficiente.

Basta a mim o que tenho
   Não preciso de mais.
          É demais!

        Pra que tanto,
        se o suficiente
        é tão eficiente?

   Às vezes me pergunto
    (e não me respondo)
  porque eu quero tanto?

[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Hora do recreio



Hora do recreio

Fui criança que corre descalço no chão de cimento, que caça lagartixa, pega lagarta com o graveto, faz armadilha pra passarinho, depois solta o prisioneiro. Consertei chinelo havaiana com prego, brinquei de caminhão, de carrinho, de bola de gude, peguei girino da rua que alagava quando chovia bastante. Mainha sempre descobria e jogava fora meus sapinhos recém formados. Empinei pipa, joguei peão, brinquei de cavaleiro com um cabo de vassoura, corri pelo quintal e fiz dele o meu reino.

Fiz cabana, acampei na sala, me escondi num túnel imaginário que ficava atrás da cadeira de balanço da minha vó. Dava susto nas galinhas, perseguia o peru, que de tanto medo se obrava todo. Fugi do cachorro brabo que na verdade só queria brincar, colei chiclete debaixo da mesa, dei muito susto nas babás que cuidavam de mim, me pendurei na janela, pulei da escada, fui alquimista, botânico, veterinário, biólogo, sempre tive essa alma de cientista. Passei trote pelo telefone, escapei de castigo, toquei a campainha da minha própria casa fingindo pedir esmola, subi em árvore, fui capitão, astronauta, viajei pra outros planetas numa nave espacial que era o balanço da minha bisavó no quintal de casa.

Andei de patins, adorava ir ao zoológico, construí castelos de areia na praia, brinquei nos parques e fiz muitas bolhas de sabão. Desenhei tudo que via no meu mundo, pintei tudo bem colorido, fiz chapéu de dobradura, barquinho, tomei banho em piscina de plástico que mal comportava os primos, mas sempre tinha espaço pra algum adulto que havia esquecido de crescer. Tomei banho de torneira também, e de bica, e de chuva. Dei muito tiro de pistola d'água, assustei minha vó com animais peçonhentos de plástico, me passei pelo meu irmão ao telefone, criei hamster escondido, pedi biscoito à vizinha através do muro usando um bicho de pelúcia como interlocutor, joguei pedra nas galinhas da vizinha, raspei a panela do bolo, 'roubei' o lanche da cozinha e saí correndo escondido, mas também já fui pego em flagrante em muitas das minhas traquinagens.

Fui criança, aproveitei bastante, me diverti nos momentos em que me foi permitido, corri pro quintal pra fugir da realidade, no meu mundo de fantasia. Fui feliz, na hora do recreio. Agora preciso ir, pois já tocou a sirene, o intervalo acabou. Voltemos à aula da vida.

[Mente Hiperativa]