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terça-feira, 17 de maio de 2011

Reunião secreta


Reunião secreta

Todas chegaram pontualmente ao local combinado, cada qual portando sua respectiva bolsa enorme e cara cheia de coisas inúteis dentro, só pra servir de disfarce. Pra poder entrar na reunião elas se identificam através do número de inscrição que fica no estojo de maquiagem ou no batom; afinal a maquiagem ainda continua sendo o principal pretexto pra se ausentar de junto do namorado por alguns minutos.

Ultrapassada a enorme fila e toda a parte burocrática - afinal o negócio é organizado - elas se sentam numa enorme mesa de reunião e colocam todo tipo de assunto na pauta do dia, desde o novo corte de cabelo da Rihanna até a reportagem do fantástico afirmando que comer chocolate diariamente (em quantidades mínimas) faz bem ao coração. É impressionante como nenhuma delas reparou no momento em que o apresentador falou 'em quantidades mínimas' e talvez por isso omitiram tal observação.

Depois de discutirem assuntos aleatórios elas chegam no tópico-chave da noite "o caso Fernando", namorado da Amandinha, suspeito de traí-la com sua secretária, uma sirigaita, loira, de seios fartos e corpo escultural, mas muito sem graça segundo as amigas da Amanda. A líder do SSIF - Serviço Secreto de Inteligência Feminina - apresenta o dossiê com as devidas provas contra o infeliz e o restante do mulherio procede com o julgamento do meliante, cada uma dando seu pitaco e metendo o dedo na relação alheia. No final elas decidem conjuntamente o trágico fim que o coitado deve receber: "Melhor veneno ou arma branca?", "Asfixia ou paulada na cabeça?", elas dizem aos gritos."Não precisa matá-lo, basta uma castração rápida", conclui uma delas.

Depois de alguns minutos a reunião acaba pois um encontro demorado poderia chamar a atenção da raça masculina, precisavam manter a discrição absoluta. Sendo assim depois de muita (eu disse MUITA) gritaria, gargalhadas e comentários devidamente abafados pela estrutura de isolamento acústico, a reunião que mais parecia uma briga, uma torre de Babel, um burburinho, uma confusão, acaba silenciosamente. E o pior de tudo é que elas de fato nem chegam a retocar a maquiagem (que foi o pretexto que usaram pra chegar na sala de reunião). Mas isso não é motivo pra se preocupar, afinal de contas eles nunca reparam na maquiagem delas, além disso nunca desconfiam de que não passa de uma mera desculpa esfarrapada pra sumir por uns instantes e se reunirem no banheiro do bar ou restaurante.

Sendo assim cada uma volta pra sua mesa sentando-se ao lado do respectivo namorado, tranquilamente, como se nada tivesse acontecido, como se não tivessem acabado de sair de uma reunião ultra-secreta onde debateram temas muito importantes para o futuro da humanidade, ou pelo menos da parte feminina da humanidade.

- Amor, por que você demorou tanto no banheiro?

- Ah, Nando, a fila estava enorme e eu precisava retocar a maquiagem que estava péssima.

(Note que a culpada sempre é a fila. Porque os banheiros masculinos não tem fila? Já se perguntou isso? OK, talvez porque não abriguem salas de reunião secreta.)

- Outra coisa que não entendo é o porquê de vocês mulheres só irem ao banheiro em bando?

Elas trocam olhares dissimulados entre si, algumas fuzilam o pobre Fernando pois não podiam matar a vontade que tinham de esfregar na cara dele o veredicto da reunião. O Fernando, coitado, nem desconfiava que hoje receberia uma severa punição pela pulada de cerca.

- É pra uma ajudar a maquiar a outra e não demorar tanto pra não ter que ouvir esses tipos de comentário - responde Amanda, já abusada e dando início ao plano de retaliação traçado minutos antes, no fim da reunião.

Fernando, e os outros namorados, acreditam inocentemente na resposta da amanda, aliás nós homens sempre acreditamos em nossas mulheres. Então ele pede mais uma cerveja gelada, feliz por estar com os amigos, sem saber que até o fim da noite conhecerá a ira de uma mulher traída amparada e assistida por uma ampla cobertura feminina, e que uma SIMPLES ida ao banheiro na verdade pode esconder uma reunião secreta decisiva pra o desfecho de sua noite. E quem sabe de toda sua vida. Tudo isso fruto de uma "simples" ida ao banheiro.


[Mente Hiperativa]

sábado, 7 de maio de 2011

A mulher dando o troco


A mulher dando o troco

Ela queria dar o troco à toda aquela sociedade machista que reprimiu as mulheres por tantos séculos. Ela queria mostrar que agora podia, que agora era livre. Vestiu o short mais curto que tinha deixando à mostra as belas coxas grossas, colocou um decote generoso e foi pra 'night' dançar e provocar todos os homens que conseguisse.

Ficou com vários naquela noite.

Chegou em casa contente, sentindo-se vingada de tanto machismo. No outro dia acordou-se sozinha, de ressaca. Seu telefone, que parou na mão de vários, não tocou. Ninguém mandou flores ou a convidou pra jantar. Ninguém estava preocupado em saber como ela estava.

Sentiu o gosto da solidão e repensou o seu valor de liberdade.

Afinal, o que seria uma mulher livre na sociedade contemporânea ?


[Mente Hiperativa]

sexta-feira, 29 de abril de 2011

A aliança


A aliança

Mais uma do livro "As mentiras que os homens contam", de Luís Fernando Veríssimo. Essa trata de um tema que a ciência Jamais conseguiu desvendar, a mente feminina.


Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualquer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira, o apartheid, a situação na América Central ou no Oriente Médio ou a grande aventura do homem sobre a Terra. Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro.

Ele estava voltando para casa como fazia, com fidelidade rotineira, todos os dias à mesma hora. Um homem dos seus 40 anos, naquela idade em que já sabe que nunca será o dono de um cassino em Samarkand, com diamantes nos dentes, mas ainda pode esperar algumas surpresas da vida, como ganhar na loto ou furar-lhe um pneu. Furou-lhe um pneu. Com dificuldade ele encostou o carro no meio-fio e preparou-se para a batalha contra o macaco, não um dos grandes macacos que o desafiavam no jângal dos seus sonhos de infância, mas o macaco do seu carro tamanho médio, que provavelmente não funcionaria, resignação e reticências...

Conseguiu fazer o macaco funcionar, ergueu o carro, trocou o pneu e já estava fechando o porta-malas quando a sua aliança escorregou pelo dedo sujo de óleo e caiu no chão. Ele deu um passo para pegar a aliança do asfalto, mas sem querer a chutou. A aliança bateu na roda de um carro que passava e voou para um bueiro. Onde desapareceu diante dos seus olhos, nos quais ele custou a acreditar. Limpou as mãos o melhor que pôde, entrou no carro e seguiu para casa. Começou a pensar no que diria para a mulher. Imaginou a cena. Ele entrando em casa e respondendo às perguntas da mulher antes de ela fazê-las.
— Você não sabe o que me aconteceu!
— O quê?
— Uma coisa incrível.
— O quê?
— Contando ninguém acredita.
— Conta!
— Você não nota nada de diferente em mim? Não está faltando nada?
— Não.
— Olhe.
E ele mostraria o dedo da aliança, sem a aliança.
— O que aconteceu?
E ele contaria. Tudo, exatamente como acontecera. O macaco. O óleo. A aliança no asfalto. O chute involuntário. E a aliança voando para o bueiro e desaparecendo.
— Que coisa - diria a mulher, calmamente.
— Não é difícil de acreditar?
— Não. É perfeitamente possível.
— Pois é. Eu...
— SEU CRETINO!
— Meu bem...
— Está me achando com cara de boba? De palhaça? Eu sei o que aconteceu com essa aliança.
Você tirou do dedo para namorar. É ou não é? Para fazer um programa. Chega em casa a esta hora e ainda tem a cara-de-pau de inventar uma história em que só um imbecil acreditaria.
— Mas, meu bem...
— Eu sei onde está essa aliança. Perdida no tapete felpudo de algum motel. Dentro do ralo de alguma banheira redonda. Seu sem-vergonha!
E ela sairia de casa, com as crianças, sem querer ouvir explicações. Ele chegou em casa sem dizer nada. Por que o atraso? Muito trânsito. Por que essa cara? Nada, nada. E, finalmente:
— Que fim levou a sua aliança? E ele disse:
— Tirei para namorar. Para fazer um programa. E perdi no motel. Pronto. Não tenho desculpas. Se você quiser encerrar nosso casamento agora, eu compreenderei.
Ela fez cara de choro. Depois correu para o quarto e bateu com a porta. Dez minutos depois reapareceu. Disse que aquilo significava uma crise no casamento deles, mas que eles, com bom-senso, a venceriam.
O mais importante é que você não mentiu pra mim.
E foi tratar do jantar.

Nota: Quem entende as mulheres? QUEM???

[Mente Hiperativa]