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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Bomba-relógio


Bomba-relógio

Ela carrega uma bomba relógio
No peito
Ela sabe disso
O médico lhe disse
Foi uma revelação e tanto
Ela ficou em estado de choque
Achou que ia gritar, se debater, se acabar de chorar
Quiçá até se matar
E abreviar esse sofrimento
De andar com uma bomba relógio
Mas não
Ela não fez nada disso
Ficou estática, sem ação
Sem acreditar
E depois foi viver a vida
Ou o pouco de vida que lhe resta
E sequer sabe o quanto é esse pouco
Dez anos ?
Vinte ?
Cinco ?
Vinte e cinco ?
Ela não sabe
Ninguém sabe
O médico não sabe
É uma incógnita
E agora ?
Como viver ?
Como se fosse o último dia ?
De forma inconsequente ?
Intensa ?
Se entrega ao amor ?
E deixa alguém sofrendo por ela
Quando se for ?
Ou se privar do amor
E da dor ?
Viver pensando na morte
Que está a lhe espreitar ?
Ou morrer pensando na vida
Que poderia ter sido e não foi?
Ela carrega uma bomba relógio
No peito
E agora,
O que fazer da vida ?

[Mente Hiperativa]

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Como dizer a um paciente que "Não há mais o que fazer" ?


Como dizer a um paciente que "Não há mais o que fazer" ?

Essa é a dúvida que todo estudante de medicina tem, e talvez muitos médicos ainda tenham.

Outro dia reencontrei um amigo que não via há muito tempo, conversamos sobre vários assuntos e de repente ele me diz que o seu pai morrera há dois dias. À princípio estranhei a sua apatia diante de tal notícia, ele não parecia tão abalado quanto alguém que perde o pai. Então ele me explicou que o médico havia dito À FAMÍLIA que ele estava com um câncer de pâncreas (um dos piores) em estágio avançado, de forma que não havia tratamento satisfatório que pudesse salvá-lo. O médico deu-lhe dois meses de vida, que de certa forma "preparou" a família pra tamanha perda. O seu pai, embora não soubesse do tal prazo de vida, suspeitava que estava morrendo, à cada dia sentia-se mais fraco, até o dia em que dormiu e não acordou mais. A morte acabou sendo o alívio pra um intenso sofrimento.

Alguns dias depois numa aula de saúde da mulher o 'médico-professor' levou um grupo de estudantes à enfermaria de ginecologia onde estavam internadas algumas mulheres com os mais diversos tipos de enfermidade. De repente nós entramos num dos quartos e ele nos fala na frente da paciente:
"Essa paciente tem um câncer que vai do púbis ao apêndice xifóide, portanto enorme. Não há mais nada o que fazer com ela, então mandaremos ela pra casa amanhã. Ela já sabe da sua situação."
Sua situação significa que ela vai pra casa morrer; o médico dizia aquilo com tanta naturalidade, falava como se a paciente nem estivesse ali no ambiente, ou como se ela fosse ir pra casa e viver mais 40 anos. E não era o caso, ela estava com os dias contados. Eu até entendo que realmente ele não podia tratá-la ou curá-la, mas soa estranho falar da morte assim como se fosse uma gripe. Ou será que essa é a melhor forma de encará-la, como uma coisa natural ? Eu não sabia nem como agir naquela hora diante da paciente, se com pena ou compaixão, se dizia algo ou se ficava calado.

E quando for a minha vez de dar tal veredicto ? Quando chegar um paciente no meu consultório com um diagnóstico sem tratamento, à espera da morte, como eu vou dizer isso a ele ? Como dizer que alguém que ele está Literalmente com os dias contados ?
Nota: Uma vez meu colega Otávio, futuro geriatra, perguntou a mim se eu conhecia algum livro que ensinasse como comunicar tal notícia ao paciente. E eu lhe respondi "não conheço, acho que não tem, porque você não escreve um pra ajudar os futuros estudantes e profissionais ?". Poisé Otávio, estamos aguardando ansiosos.

[Mente Hiperativa]