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domingo, 5 de junho de 2011

Ela tinha medo

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Ela tinha medo

Tinha medo de sair de casa, de ser assalta por um bandido, atropelada por um ônibus, ou atingida por uma bala perdida.

Em casa tinha medo de ficar só, mais medo ainda de ficar só com outra pessoa estranha, precisava ser alguém de sua confiança.

Nunca gostou de animais, tinha medo do veneno das cobras, das mordidas dos cães, dos chifres das vacas e das unhas dos gatos.

Bichos sempre lhe causavam medo, baratas, aranhas, escorpiões, ratos, abelhas e até lagartixas, ela não queria vê-los por perto.

Quando chovia tinha medo das árvores caírem, de faltar energia elétrica, de raios atingirem sua casa, de alagamentos ocorrerem na cidade.

Na adolescência não curtia balada, tinha medo de ser violentada, de que colocássem drogas na sua bebida, de não ser tirada pra dançar.

Não quis engravidar, tinha medo da dor do parto, de sofrer um aborto, de desmaiar na sala de cirurgia, de ter um filho especial.

Sempre evitou a altura com medo de cair, também lugares fechados com medo de lhe faltar ar, e tinha medo de passar mal em meio à multidão.

Numa madrugada qualquer ela levantou-se pra beber água, acendeu a luz com medo de tropeçar em algum móvel, e foi até a cozinha. Pegou o copo d'água, bebia vagarosamente quando se engasgou,

e ficou vermelha,

e ficou roxa,

e ficou azul....


E morreu.



De medo.


[Mente Hiperativa]

domingo, 8 de maio de 2011

Paranóia


Paranóia

A noite chegou e tudo estava calmo, calmo demais. Toda essa calmaria inquietou aquela senhora. Como podia estar tudo tão pacato se no noticiário ela viu toda aquela violência, balas perdidas, assassinatos, assaltos e agressões gratuitas?

E nos jornais, ela leu que o país estava passando por uma seca agressiva na região sul, e também enchentes, no outro extremo, no norte. Havia tsunamis devastando países inteiros, também terremotos e furacões. Calamidade pública. Talvez até o princípio do 'fim dos tempos'...
Na sua casa, no entanto, reinava a paz absoluta. E isso a deixava inquieta, desconfiada. Alguma coisa estava errada, só podia ser... Não havia outra explicação para tamanha incongruência.

Ela corre até a janela, espia pela brecha da cortina, nenhum assaltante à mão armada, nem sinal de alagamento ou arrastão. Muito estranho, pensa ela, calada e contemplativa. Ela estava sempre angustiada, com medo que a qualquer momento a violência batesse à porta.

Eis que de repente a campainha toca, ela dá um pulo de susto e vai correndo abrir a porta, quase enfarta achando que era a dona violência, aquela dos noticiários, mas era só o porteiro entregando a correspondência do dia.
Nota: O ministério da Mente Hiperativa adverte: assistir diariamente aos noticiários sem a devida dosagem crítica pode levar à paranóia.

[Mente Hiperativa]