quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Dia do "Grrr"


Dia do "Grrr"

No dia do "Grrr" a esposa traida resolveu se vingar do marido, e pôs laxante na sua sopa, servindo-o delicadamente na hora do jantar. As crianças não ouviam nem obedeciam os pais, abandonaram os estudos e só queriam saber de brincar. O cachorro, cheio de raiva, mordeu o dono, cansou de tanto ser maltratado.

Ao saber que era o dia do "Grrr" a empregada gritou com a patroa, chamou-a de perua e tudo mais, sentiu-se aliviada depois. A patroa por sua vez gritou com a filha, descarregando frustrações que nem sabia que tinha, pois a vida perua esvaziara aos poucos sua cabeça.

O rei, no dia do "Grrr", cansou de ser rei, cansou de ordenar o exército, de ter um nome a zelar, de ter inúmeros traíras à mesa, largou a coroa e foi passear; deixou o castelo, deixou a rainha, deixou as jóias e o prestígio, queria apenas relaxar.

No dia do "Grrr" o padre dançou, a freira se maquiou, e tudo parecia desandar. Cansados da vida que levavam todos resolveram mudar, colocando pra fora todo aquele incômodo. O nerd, no dia do "Grrr", queimou os livros e fez uma fogueira linda na porta de casa. O rico rendeu-se ao churrasco na lage e até se divertiu, coisa que há muito tempo não acontecia.

O céu se carregou de chuva, os rios trabalharam demais, se encheram, e no dia do "Grrr" transbordaram pela cidade. Os carros cansados de correr, se deixaram levar pelas águas. As árvores trocavam de lugar, aproveitavam o descuido do tempo, a confusão, e soltaram seu "Grrr" também.

Era o dia do "Grrr" e cada um se expressava de uma forma, colocando pra fora a raiva, o que estava guardado e fazia mal. Até mesmo as estátuas se alongavam, no meio da praça, como se fossem atletas se aquecendo para o treino. Era duro ficar parado tanto tempo na mesma posição.

Todos tiveram sua oportunidade, e a noite estava se aproximando, as nuvens correram com pressa. O sol se foi devagar, e a lua tomou seu lugar. O dia estava acabando, o dia do "Grrr". Amanhã tudo retornaria ao seu devido lugar, cada árvore, cada palavra dita, e toda a raiva e revolta seria guardada novamente, engolida e fechada, até outra oportunidade surgir. E tudo desandar novamente.

[Mente Hiperativa]

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Onde está Deus?


Onde está Deus?

Outro dia eu estava bastante perdido e então resolvi procurar a ajuda de Deus. Vi num carro o adesivo 'propriedade exclusiva do senhor' e fui falar com o motorista que pela lógica deveria ser o próprio Deus, ou no máximo alguém bastante próximo dele que tomou o veículo emprestado. Porém a abordagem foi bastante infeliz, o motorista nada amistoso me deu uma bronca e arrancou veloz, me deixou falando sozinho.

Noutro carro eu vi o símbolo de uma conhecida igreja, pensei que dessa vez eu teria mais sorte e fui falar com o proprietário. Eu ia perguntar a ele onde poderia me encontrar com Deus, diria ainda que preciso de sua ajuda. Quando me aproximei percebi que ele estava bastante ocupado discutindo no trânsito, havia ultrapassado o sinal vermelho e ainda assim usava palavras de baixo escalão e gestos obcenos contra um pedestre que atravessou na sua frente. E quando o guarda lhe abordou ele ofereceu propina. De repente desisti, achei que ele não saberia me dizer onde me encontrar com Deus.

Saí pelas ruas observando o alto, procurando Deus nas cruzes, crucifixos, encontrei pessoas que usavam terços, medalhinhas, camisas estampadas com Nossa Senhora, fotos de Jesus em cadernos, mas ninguém me ajudou. Recebi até um panfleto com a palavra de Deus e parei pra escutar o que essa pessoa tinha a me dizer, ele repetiu salmos e citações bíblicas, palavras bonitas, mas não me ajudou. Ele quis me converter, me cobrou privações, me cobrou contribuição financeira, me cobrou promessas, me pediu isso e aquilo, mas não ouviu os meus pedidos.

Lembrei de quando eu era menino e minha professora de religião dissera que a igreja era a casa de Deus, resolvi então procurá-lo diretamente em sua casa. Procurei algumas igrejas, assisti diversos cultos/missas, recebi abraços e apertos de mão, panfletos, ouvi belíssimas mensagens de solidariedade e amor ao próximo. E no fim vi passar cestinhas e caixinhas pedindo dinheiro. Embora eu não tenha falado diretamente com Deus, depois desses encontros eu me senti um pouco mais aliviado em meu sofrimento.

Tudo parecia caminhar bem até acabar o culto/missa. Lá fora inevitavelmente sempre havia pessoas humildes na calçada, pedindo ajuda, e me partiu o coração ver os fiéis deixarem a igreja direto para seus carrões importados, negando o pão a quem tem fome, negando o cobertor a quem tem frio. E então eu me perguntei: de que adianta frequentar o culto/missa se não colocarmos em prática os ensinamentos de Deus ali ensinados?

O dia chegava ao fim e eu não tivera êxito no meu encontro com Deus, nem mesmo em sua casa eu pude senti-lo plenamente e já estava conformado que não iria encontrá-lo. Passei diante de uma banca de revista e li a seguinte frase numa de suas paredes: 'o Senhor é meu pastor e nada me faltará'. Esse sim me pareceu verdadeiramente íntimo de Deus, fui falar com ele, que estava fechando a banca, e quando eu disse que não ia comprar nada, que só queria um conforto, ele me despachou e disse que não tinha tempo pra conversa fiada. Olhei novamente para a frase da parede: faltou amor ao próximo, altruísmo, solidariedade.

Esse dia vivi uma experiência reveladora, aprendi que não basta frequentar e conhecer a religião, é preciso colocar em prática suas lições, aprendi também que adesivos, mensagens e imagens não significam absolutamente nada, não querem dizer que a pessoa seja mais cristã que a outra, mais devota ou religiosa do que outra que não estampa em si as palavras ou imagem de Deus.

Sem ter conseguido encontrar Deus na minha incessante busca eu fui à praia, já era noite e ela me recebeu de braços abertos. O vento acariciou o meu rosto, a areia massageou os meus pés. E a água lavou minha alma. Nesse momento fechei os olhos e reconheci que Deus não estava preso num pedaço de madeira, nem impresso numa frase qualquer, não estava na igreja, nem dirigindo um carro, Deus não estava longe, Deus estava o tempo todo dentro de mim, tão perto, e eu perdendo tempo em procurá-lo tão longe.

Assim, eu que estava perdido, acabei me encontrando com Deus.

[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Psicologia


Psicologia

Há sempre dois caminhos:

Ou você encara de frente os seus problemas
E sofre,
E aprende,
E amadurece

Ou cria mecanismos para driblar os desafios
E foge,
E pára,
E não cresce

A vida é sinônimo de sofrer
E se for pra sofrer
Que sofra pra aprender
E evoluir
E não repetir
Os mesmos erros

Não crie mecanismos


[Mente Hiperativa]

domingo, 6 de novembro de 2011

Inércia


Inércia

Café sem cafeína
Cerveja sem álcool
Casamento sem amor
Filhos sem cumplicidade
Natal sem Cristianismo
Presente sem afeto
Dinheiro sem boa-causa

Vivemos por inércia
Sem acreditar nas coisas
Mantendo apenas a tradição
Criamos algumas fantasias
E dissociamos da realidade
Traimos nossas convicções
Em nome da comodidade

[Mente Hiperativa]

sábado, 5 de novembro de 2011

Como tudo começou


Como tudo começou

Os olhos se olharam
Tristonhos
Sorriram
E piscaram
Se abraçaram

Os braços correram
Os corpos
Se cruzaram
Se encontraram
Cansados

As bocas molhadas
Falavam
E beijavam
Comiam
E grunhiam

Os corpos sedentos
Se amavam
Se entregavam
Suados
Sofridos

[Mente Hiperativa]

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Já se foi o tempo das Amélias


Já se foi o tempo das Amélias

Já se foi o tempo das Amélias...

Que Cuidavam com zelo da casa e da família
Levavam o marido embora até a porta
E se arrumavam pra ficar bonitas só pra ele

Já se foi o tempo das Amélias...

Que esperavam o marido chegar do trabalho
Abriam o portão para ele entrar com o carro
E lhe serviam uma comida quentinha à mesa

Já se foi o tempo das Amélias...

Que educavam tão bem os próprios filhos
Acompanhando-os todos os dias, o dia todo
Sem precisar de babá ou psicóloga

Já se foi o tempo das Amélias...

Que não precisavam usar microondas
Nem comida pré-pronta ou disk-entrega
A comida era caseira, temperada com amor

Já se foi o tempo das Amélias...

Que tinham tempo para seu marido e filhos
Não usavam mil cremes, entretanto eram lindas
O amor era verdadeiro e superava tudo

Sorte teve o meu avô!

Nota: Quem me conhece e/ou me segue aqui no MH sabe que não sou chauvinista, o tom que quis dar ao texto foi de nostalgia e jamais de machismo. Espero que eu tenha conseguido passar a impressão correta, e caso isso não tenha acontecido espero que me entendam.

[Mente Hiperativa]

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Casual



Casual

Foi um lance de pele
De carne e de osso
Dominado pela lascívia
Corpo e corpo

Foi uma pegada
Um forte desejo
Atração incontrolável
Coito e coito

Tinha visgo
Tinha suor
Salgado
Molhado

Sede
Tinha libido
Tinha hormônio
Efêmero
Intenso

Hálito


[Mente Hiperativa]