
Apologia à chuva
Apologia à chuva
Gosto do cheiro que a chuva traz quando encharca o solo, aquele cheiro de terra molhada, cheia de vida, de brotos e cogumelos, de seres que saem do chão e se multiplicam revelando a fecundidade latente que há na terra. Como é bom poder admirar a chuva e perceber a vida que ela mantém, só na chuva a vida se manifesta de forma plena.
Quando começa a chover eu abro as janelas de casa, deito no sofá e fecho os olhos. Fico apenas contemplando aquele odor que gentilmente é trazido às minhas narinas e remete à minha infância, à casa da minha amada vó. Foi lá que desde pequeno eu aprendi a gostar desse cheiro, lembro que a chuva molhava a terra do jardim-de-inverno e incensava toda a casa com aquele perfume gostoso.
Nessas horas, deitado no sofá, eu imagino toda aquela vida entrando pelo meu nariz, atingindo meus alvéolos e penetrando na minha corrente sanguínea. Assim eu trago toda a vida contida na chuva pra dentro de mim, me renovo, me fortaleço com a força da natureza pulsando dentro de mim.
Também gosto de ouvir o barulho da chuva gotejando sobre as folhas das árvores, se jogando das calhas em um jato único e suicida, depois se chocando contra o chão duro e cimentado. É um som tranquilizante, que acalma minha alma perturbada, eu me rendo, nem durmo, só relaxo ao som da chuva caindo dos céus. Preste atenção, todos os pássaros se calam diante da chuva, as cigarras e os cachorros, todos silenciam pra ouvir a chuva, ela acalma os ânimos.
Além de tudo a chuva ainda lava as ruas, limpa e purifica todos os lugares por onde passa, nos pede licença e procede com sua limpeza geral. Ela carrega o que há de ruim, deixa apenas o que for forte, firme, o que fez por merecer ficar, o resto é levado embora. E quem não gosta de tomar um banho de chuva não sabe o que está perdendo, a diversão, a liberdade, a conjugação a própria natureza, a limpeza que ela proporciona.
Chuva, sua linda, venha cá.
[Mente Hiperativa]