sexta-feira, 28 de outubro de 2011

TOC


TOC

Acordou-se ao som dos despertadores, três deles, todos no mesmo horário. Levantou-se com o pé direito e foi ao toalete, com cuidado pra não pisar nas linhas do chão. Lavou as mãos e olhou-se no espelho, ajeitando os cabelos assanhados, escovou os dentes e ao fim da escovação alinhou a escova com o creme dental, com o fio dental e com a escova de cabelo, tudo paralelo. Lavou as mãos de novo.

Ainda de pijama sentou-se à mesa na cozinha, talher de um lado, copo na frente, com estampa virada, guardanapo dobrado, milimetricamente ao meio. Suco só de laranja, ou maracujá, pois são amarelos. Manga também podia ser, mas nunca acerola, uva, ou qualquer suco de outra cor.

Terminado o café da manhã, colocou a louça suja na pia, mas não de um jeito qualquer, pratos maiores embaixo, menores em cima, copos enfileirados, talheres paralelamente arranjados. E depois de toda essa arrumação, lavou novamente as mãos. A cozinha era toda ornamentada de verde, tampas dos potes, bainha dos panos de prato, utensílios quaisquer, verde, sempre verde. E nada noutra cor.

Correu até o quarto, em passos pares e aboletou-se na cama, com cuidado pra não desforrar o lençol estampado. Partiu para o ritual de espera, pois o dia só deveria começar às nove da manhã em ponto. E ainda era oito e quarenta e oito. Estava ansiosa pra lavar as mãos, mas precisava permanecer ali parada, estática, pois senão o dia não daria certo e alguma tragédia terrível poderia acontecer.

Era assim que ela exercia seu poder sobre os acontecimentos do dia. Ou pelo menos acreditava nisso.

[Mente Hiperativa]

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Misturas


Misturas

Desde garoto sempre gostou de misturar, misturava cores, sabores, verde com vermelho, doce com salgado, amarelo com amargo. Misturava música e leitura, romance e rock, sexo e carinho, números e prazer, goiabada e queijo prato, cerveja e calor. Sentia atração por traços orientais com cabelos ruivos, negritude e olhos verdes, pele clara e lábios grossos, sempre misturado, quase nunca puro.

Quando ia à praia notava que esta se misturava com as páginas de um livro, talvez revolucionário como os poemas de Maiakovski, ou musical como os versos de Cruz e Sousa. Os lençóis de areia, à noite, se confundiam com seu corpo suado, misturado com outro corpo de pele macia. Mas não misturava pecado e culpa.

Fechava os olhos e era capaz de sentir o cheiro verde do campo, enquanto o cinza da poluição urbana mimetizava o concreto de seus pensamentos igualmente sólidos. O canto aveludado das aves voava até seus ouvidos, e sentia falta, e sentia saudade, sentia também o cheiro cítrico das sabiás-laranjeiras pousadas nas árvores: mangueiras, abacateiros e mamoeiros.

Mais tarde aprendeu a mistura dor com prazer, vingança com perdão, e a morte inevitavelmente passou a permear a vida, as perdas misturaram-se com os ganhos e as derrotas com os bônus. Mas nunca compreendeu o sentido e a razão da morte.

Da sua janela vinha um tom musical que se confundia com uma fragrância aguda, sentia-a acariciando sua pele, reverberando pela noite fria e escura. O passado, como um presente, se confundia com o possível futuro. Talvez isso fosse grave, ou seu estado fosse grave, mas tudo lhe parecia assim, uma eterna mistura.

E de tanto misturar já não distinguia o que era belo e o que era Mozart, não separava o sofrimento do merecimento, o amor da agonia, a culpa da solidão, o sorriso amarelado do fracasso do olhar dourado da vitória, o medo de errar da sorte de vencer. Verdades picantes se confundiam com mentiras agridoces.

E o tempo jamais lhe trouxe o benefício da maturidade, continuou a misturar, a paixão e o sofrimento, a dor e o poema, a loucura e a razão, o amor e a prisão. A realidade misturada à imaginação.

[Mente Hiperativa]

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Eu não quero te querer


Eu não quero te querer

Eu não quero te querer. E naquele sábado de sol você me abandonou falando sozinho, com o copo de cerveja na mão, e foi embora, me deixando com a cara de bobo que eu tenho mas não gosto de usar. E antes disso, duas semanas antes, eu te deixei pra sempre, lembra que eu disse que ia te apagar da minha vida?

Você que não aceitou e veio atrás de mim novamente.

Não quero parecer bobo, apesar de saber que eu sou, não quero te querer novamente, e minha cara de bobo pretendo esconder do mundo. Talvez eu encontre outra faceta mais interessante no meu arsenal, posso usá-la quem sabe numa sexta-feira à noite, ou num sábado. Eu posso sair pra caçar em alguma boate movimentada ou em no mais novo boteco da cidade, recém-inaugurado... Ok, nós dois sabemos que eu não faço o tipo de quem sai à caça. Mas mesmo assim, prefiro não te querer mais.

Então se você foi embora, se resolveu me deixar com cara de bobo e copo de cerveja na mão, peço que não volte nunca mais. Eu vou tratar de mandar embora a cara de bobo junto com o copo pra um lugar bem longe. E espero que vocês três se encontrem e não voltem mais para atanazar a minha vida.

Eu não queria que fosse assim, mas você me obriga a não te querer, eu não te quero mais... Até que você resolva me querer. E quando voltar, por favor, traga a cerveja (e a cara de bobo). Obrigado.

[Mente Hiperativa]

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Famílias terrivelmente felizes


Famílias terrivelmente felizes
Postagem sobre o livro de mesmo nome.

A capa desse livro me chamou a atenção diante de tantos livros na livraria, não somente por ser vermelha, mas pela ilustração assim indefinida, assim inexpressiva. Seria um verme? Uma tripa retorcida? O que danado é isso? - eu pensei. Até agora eu não tenho certeza do que seja, mas mexeu comigo, revirou muita coisa aqui dentro do estômago e coração, assim como fizeram os contos que o livro traz. O título também achei uma grande idéia, me soou sarcástico aos ouvidos, quando li imaginei logo que ele estava disposto a contar todos os segredos e incômodos que as famílias 'aparentemente felizes' escondem debaixo do tapete.

Confesso que a capa pitoresca foi o que me atraiu à princípio, mas logo folheei o livro e encarei as ilustrações disformes, indefinidas, mas cheias de sentido que, só mais tarde ao ler boa parte do livro, pude perceber como dialogavam tão bem com a natureza dos contos. São figuras de vermes, ratos mortos, telhados, penas e asas e tantas coisas mais que eu não sei ainda o que significam. São figuras encaradas como nojentas, sujas, imundas, diria até repugnantes. E o livro trata de assuntos assim, tristes, lamentáveis, trágicos, não espere ler um conto de fadas, não são histórias de príncipes e princesas encantados com finais felizes. É a realidade.

Mas ao contrário da impressão - errônea - que posso ter causado no parágrafo anterior, as histórias do livro não carregam uma áurea pesada, não são fatalistas ou tenebrosas, muito ao contrário, e é esse o diferencial do autor: ele consegue tornar o "feio" atrativo. O Marçal consegue tornar interessante fatos simples e aparentemente repulsivos, como um casamento desgastado, desencontros amorosos, assassinatos, brigas e fracassos em geral.

A realidade que ele se propõe a tratar é suja e imperfeita, mas é real, e ele conta com uma imensa riqueza de detalhes, harmoniosamente arranjados de modo que os contos se tornam leves e fluem suavemente apesar dos assuntos serem de difícil digestão. Além do mais as histórias são sempre surpreendentes, fugindo do lugar-comum dos romances e personagens estereotipados, expondo a realidade dura de uma forma suportável. O Marçal Aquino nos faz rir do que não tem graça, mas não é um riso de alegria, é de conforto à alma.

No primeiro conto, por exemplo, ele trata da morte de um homem que viveu a vida enclausurado num hospício. Isso por si só já é triste e depressivo, mas pela forma que ele conta, pelo ângulo que ele vê, se torna bastante interessante; ele resolve contar em terceira pessoa a vida que poderia ter sido e não foi. E quem nunca se perguntou a vida que poderia ter tido e não teve?

Assim é 'famílias terrivelmente felizes', é uma leitura agradável sobre o desagradável, é tão divertido que por hora esqueçemos que o conto é trágico, pois ele se torna belo e tão palpável que é digno de aplausos, e jamais de lágrimas.

[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Eu matei o amor – relatos de um assassino


Eu matei o amor – relatos de um assassino

Sempre achei que amar fosse a maior de todas as loucuras do ser humano. Tentei me manter ‘normal’ e lutei contra essa loucura por bastante tempo, até que me aceitei louco, e nunca mais tive paz na vida.

Conheci o amor aos vinte e um anos, antes disso ele não existia nem nos meus sonhos, nem nos meus pais. Encontrei-o numa livraria grande da cidade, e depois de comer tapioca no alto da Sé e conversar bastante com ele eu senti o primeiro frio na barriga. Primeiro de toda a vida.

No dia seguinte eu senti medo. E era apenas o começo. Tive medo de ser abandonado, medo de expor minhas fraquezas, medo de ser apunhalado pelas costas, tantos medos eu senti, mas não foram suficientes para me fazer desistir do amor. E diferente do que eu esperava, ele foi bastante bonzinho comigo nesse primeiro contato, realmente não tenho do que reclamar.

No começo foi tudo bem, mas logo – e eu disse: logo – o amor me deixou bastante confuso, sem saber o que fazer, pois eu não tinha referências de amor, esse sentimento era pra mim um completo desconhecido e eu não sabia como lidar com ele. Eu tinha certeza de tê-lo encontrado, mas não soube o que fazer, como agir, o que pensar.

Não durou muito até que eu o matei.

Claro que me senti mal depois, era a primeira vez que eu o matava, senti sua falta nos meses seguintes, me arrependi do que fiz, mas já era tarde, ele havia morrido. Passei muito tempo cultuando aquele amor-defunto até que um dia, depois de muito sofrer, tive a idéia nada original de jamais me apaixonar novamente. E não é imprevisível dizer que pouco depois eu trai minha promessa, e voltei a me apaixonar.

Mas que fique bem claro, os outros amores nunca foram como o primeiro.

Eu passei a procurar em diversos rostos e corpos aquele amor que havia matado, vivi outros tantos amores (ou pseudo-amores), todos me machucaram e me deixaram confuso, todos eu acabei matando. No fim eu me encontrava com a alma calejada pelos amores vividos, cheio de pedras no sapato, afiadas, e o coração esquartejado. O amor também me fez suar frio, me deixou ansioso, triste, deprimido e, quem diria, até feliz. Mas esse último ocorreu apenas na minoria das vezes, e por um curto espaço de tempo.

Por esses motivos, e tantos outros que não cabem aqui, eu resolvi matar o amor dentro de mim, tornei-me um assassino em série. Passei a exterminá-lo friamente diante do menor perigo, qualquer passo em falso e eu sou capaz de dar um tiro na sua testa. E não sofro mais no dia seguinte, afinal isso é coisa pra iniciante, já sou profissional.

Mas apesar de eu ser um réu confesso, quero que fique bem claro que não tenho essa prática como um hobbie, não me dá prazer assassinar pobres amores incipientes e nem faço isso pra saciar qualquer desejo mórbido, faço porque não vejo outro caminho. Eu queria que o amor fosse pra mim uma companhia agradável, que me fizesse bem, mas ele me agride e eu não sei me defender de sua agressão de outra forma que não seja acabando com ele.

Acho que não aprendi a amar, não aprendi a ser amado.

O amor me obriga a matá-lo dentro de mim. E quando tento matá-lo sinto uma dor no peito que me lembra: ele é uma parte de mim. Ou seja, ao matá-lo eu mato um pouco de mim também, e justamente por isso eu sofro bastante.

Um dia, cansado de sofrer e de matar, eu tentei fazer do amor um sentimento tolerável, torneio-o platônico. Mas foi bobagem minha, pois logo descobri que até mesmo amores platônicos nos fazem sofrer. E como fazem... Fui ingênuo ao pensar que alimentando o amor diariamente, com boas doses de fantasia, ele se manteria nos confins da minha mente, quietinho, sem me incomodar, e quem sabe num dia distante se tornaria real e saudável. Mas esse dia nunca chegou, e ele acabou me ferindo como todo os outros amores "não-platônicos".

Foram muitos amores. Matei diversas vezes. E ressuscitei tantas outras.

Hoje eu cansei de amar, cansei de ser um assassino também. Por isso decidi que não vou mais matar o amor, apenas vou colocar uma pedra enorme e pesada em cima dele. E deixar que o tempo execute o resto do trabalho sujo. Eu desisto do amor, e nada me tira da cabeça que esse sentimento antes de tudo é masoquista, dói, e mesmo assim ainda insistimos em cultivá-lo.

[Mente Hiperativa]

domingo, 23 de outubro de 2011

SATURNO


SATURNO

Eu ouvi dizer que em saturno é sempre dia, e que não há escuridão, nem dor, nem tristeza. Lá as pessoas são simpáticas, felizes, elas são gentis com os recém-chegados e por lá ainda não se inventaram a bomba atômica, a gordura trans, nem a violência ou a guerra.

Em saturno as pessoas trocariam palavras cordiais, se fosse necessário falar. É que lá o pensamento é a forma de comunicação, são mensagens telepáticas que carregam não só um significado, mas também um sentimento. Não há barreiras em saturno, nem segredos, todos os pensamentos são compartilhados, tudo é de todo mundo. E ninguém se importa com isso.

Penso que se eu estivesse em saturno agora eu poderia andar descalço, e pisar no chão macio de saturno. Não sei de que ele é feito, só sei que não fere os pés, e não é de grama, nem areia, é de um material que só mesmo em saturno se encontra. Lá eu não precisaria de tênis, meias, nem nada disso. Não sentiria frio, nem faria calos. O chão de saturno é sem-igual.

E se eu sentisse fome poderia fechar os olhos e pensar nas delícias que a minha vó me fazia, como o pensamento é a comunicação logo ela me traria tudo que um bom neto gosta. E ela viria de onde estivesse, pois em saturno não há barreiras nem limites. E eu mataria minhas eternas saudades.

Em saturno as pessoas não morrem de fome, nem de desgosto, nem de câncer. Lá as pessoas não morrem, pois não há vida, há uma forma de existir tão ímpar que nós não temos palavras para designá-la. As pessoas existem, mas não vivem nem morrem, compartilham a existência, as experiências, os pensamentos, invadem uns os outros, e se confundem, se misturam, sem jamais perderem a identidade.

Eu tentei medir a distância daqui pra saturno, mas não há como, não há meios, nem aparelhos, tudo se perde em saturno, tudo ganha um novo arranjo, e as réguas passam a ser linhas, que se enroscam, e as linhas entram na mente e amarram idéias, que voam de volta à minha cabeça.

Saturno é assim, uma mistura de essências, que de tanto eu tentar entender eu aprendi que preciso sentir. Sentir, fechar os olhos e deixar saturno tomar conta de mim, não preciso publicar trabalhos científicos sobre saturno, nem tentar explicá-lo cartesianamente. Eu não conseguiria, ninguém conseguiria. Saturno foi feito pra se sentir!

Às vezes eu passo a noite conversando com saturno, gostaria de ir lá conhecê-lo pessoalmente, queria poder sentir meus pés descalços naquele chão macio que só em saturno se observa. Queria poder existir sem viver nem morrer, sem saber nem o porquê nem o nome de como é ser assim. Queria poder confundir e explicar o que não entendo e me animar a aprender o que talvez jamais poderei conhecer. Só queria ser... Em saturno.

[Mente Hiperativa]

sábado, 22 de outubro de 2011

No meu sofá velho cor de mostarda


No meu sofá velho cor de mostarda

Hoje eu decidi acreditar em destino, somente hoje. Eu que nunca botei fé nessa história, mas hoje resolvi lhe dar uma chance de provar sua veracidade, vou deixar as coisas acontecerem, vou andar sem escolher caminhos, sem me preocupar com nada, vou deixar que o destino me carregue pelos braços.

Sinceramente não sei nem onde vou parar, talvez no alto do pódio ou num beco repleto de bandidos drogados. Mas é só um dia, só pra atestar que o destino (realmente) não existe. Eu que nunca acreditei em destino, hoje resolvi lhe dar uma chance, mas ele não me levou a lugar algum, permaneci no sofá o dia todo.

Que planos o "destino" terá pra mim? Será que debaixo do sofá há uma passagem secreta que não fui capaz de descobrir? Ou ela não foi capaz de me absorver e me levar em direção aos meus desígnios?

Será que meu destino é vegetar num sofá velho e rabugento cor de mostarda? Que destino mais infeliz... Será que esqueceram de escrever meu destino? Ou o sujeito era analfabeto? Pode desenhar, se for o caso, eu aceito, pode ser uma bela paisagem bucólica, um lago, uma floresta, ou quem sabe um arranha-céu no meio do deserto. Desde que seja com vista para o oásis mais próximo eu não me queixo. Afinal não é só de secura que vive um deserto.

E não é só de esperar que vive o destino. Se eu ficar nesse sofá esperando o destino me levar a algum lugar no máximo vou conseguir uma dor de coluna.

O dia acabou, e a chance do destino me provar que existe também acabou. Agora retornar aos meus planos, minhas metas, vou usar meu livre-arbítrio que é o melhor que posso fazer. E se destino for tudo o que eu conquistar com meu suor e empenho, que seja bem-vindo o 'destino' então. Porque de esperar ele não me trouxe nada.

[Mente Hiperativa]