sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Desilusão


Desilusão

Podia ter pulado do alto de um prédio, podia ter tomado muitos comprimidos coloridos ou até veneno de rato, teve medo de cortar os pulsos, pois não suportava ver sangue. Na cidade não havia trem pra se deitar sobre os trilhos, de tão pequena tinha poucos carros, sem avenidas largas e movimentadas para que pudesse provocar seu atropelamento. Queria achar um rio e uma pedra bem grande pra amarrar ao próprio pé.

Não pôde alcançar as cercas de alta tensão, tão bem protegidas por grades e cadeados, nem soube onde encontrar uma aranha minúscula, porém detentora de um veneno mortal, tubarões assassinos, leões ferozes, ou qualquer outro animal tão agressivo quanto um desses, tão colérico a ponto de atacá-la e fazê-la em mil pedaços, de preferência pedaços sem vida.

Queria ter encontrado algum malfeitor pelo caminho, munido de um cano pesado ou barra de ferro, quem sabe uma madeira com pregos, e repleto de fúria nos olhos. Mas não o encontrou naquela noite fria e escura. Se por acaso houvesse uma forca na praça da cidade, certamente ela teria usado. Se pertencesse a outro tempo teria se entregue à santa inquisição dizendo-se feiticeira.

Mas nada disso aconteceu, não encontrou nenhuma maneira eficaz de acabar com o sofrimento que ardia rasgando-lhe o peito, teria que aprender a suportá-lo mesmo à contra-gosto. Tivera sua primeira decepção amorosa, aos 14 anos, mas pra ela era uma dor merecível de morte. Não sabia ainda que era só o começo, e que tantas e tantas outras paixões ainda lhe trariam sofrimento na vida.

E continuaria com medo de sangue.
[Mente Hiperativa]

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Isso também vai passar


Isso também vai passar

Não tenho nenhuma tatuagem, mas não tenho nada contra quem tem, e nem penso que um desenho na pele seja capaz de mudar a fé ou alterar o caráter da pessoa. Que pensamento mais retrógrado... Descartando certos exageros e absurdos, algumas pessoas até que ficam bem com uma tatuagem.

Eu até já pensei em fazer uma, mas nunca encontrei algo realmente representativo a ponto de marcar meu corpo pra sempre, precisaria ser algo importante pra mim como o nome de um filho ou uma mensagem importante. Sempre achei tão banal tatuar um dragão enorme, uma serpente ou sei lá, um ideograma chinês. Há pessoas que ficam bonitas, charmosas, mas eu certamente enjoaria rapidamente daquele desenho se não tivesse algum propósito de estar ali.

Foi então que recebi um email com a mensagem entitulada pro: "Isso também vai passar". Daria uma boa tatuagem, pensei de imediato.

"Isso também vai passar", poxa, me pareceu tão digna de se carregar todos os dias, de se ler todos os dias no próprio corpo, na própria pele, como um lema, uma ideologia, mais que isso, um Alerta!

Pensei que eu poderia acordar um dia de ressaca, depois de uma imensa decepção amorosa e ler essa mensagem tatuada em mim, seria um conforto. Ou depois de perder um ente querido, olhar-me no espelho e me deparar com essas quatro palavras.

E, por outro lado, num momento de bastante alegria e euforia, a tatuagem ia me lembrar de que as coisas boas também passam, dinheiro, fama, status, riqueza, conquistas, tudo isso passa e eu também seria lembrado que é preciso ser humilde diante da vitória.

"Isso também vai passar", afinal os grandes amores e dores passam, e tudo mais passa. É uma sábia filosofia, daria uma boa tatuagem.

[Mente Hiperativa]

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O que realmente importa?


O que realmente importa?

A menina entrou no ônibus e logo se acomodou num banco, queria sentar ao lado da janela, mas não tinha nenhum banco desse tipo vazio, então ficou no lado do corredor mesmo. O ônibus seguiu a viagem, sacolejando.

Ela tinha apenas seis anos, seus cabelos eram cacheados, loiros, e foram gentilmente presos dos dois lados da cabeça. Tinha ainda uma boca miúda, além de um par de olhos azuis enormes e bastante expressivos. Era linda, e por isso chamava a atenção.

Na mesma hora em que ela se sentou, o rapaz que estava noutro banco lendo um livro qualquer de capa vermelha desviou o olhar para ver aquela menina, que para sua surpresa estava encarando-o com seus olhos azuis enormes. Mas ela estava apenas curiosa pra saber que história ele lia, tão entretido, naquele livro.

Do outro lado havia uma moça bastante elegante e bonita que também observou a menina entrar no ônibus e não tirou mais o olhar sobre aquela loirinha. Ela sempre sonhou em ter uma filha e naquele momento imaginou que ela poderia ser tão linda quanto aquela menina que via ali quietinha sentada no ônibus, mais parecia uma boneca. E o ônibus seguiu seu rumo, chacoalhando.

A menina ficou atenta para o caso de esvaziar um lugar junto à janela, mas quando alguém se levantava logo outra pessoa ocupava o lugar da janela, sem que ela tivesse a menor chance de consegui-lo. Ela acabou se resignando a permanecer junto ao corredor.

Uma velhinha tão frágil se encantou com a menina, teria até acenado pra ela se tivesse força para fazê-lo, mas sorriu, um sorriso igualmente frágil. Um pedinte que passava pelo corredor pedindo moedas teve medo dos seus olhos tão azuis, nunca tinha visto dessa cor assim tão de perto e pensava até que não eram olhos de verdade. Quando se deu conta do ronco do motor o pedinte apressou o passo pra descer antes que o ônibus continuasse a viagem, sacudindo.

E as outras pessoas que subiam ao ônibus logo se deparavam com aquela menina tão formosa, de cabelos cacheados, loiros, boca miúda e olhos azuis enormes. Ela também observava a todos, com receio e timidez.

O ônibus andava veloz, o motorista parecia olhar a menina pelo retrovisor, e sua boca miúda, ele tinha pressa de entregá-la em casa, e dobrava à esquerda, à direita, freava, seguia, num caminho conturbado, balançando o veículo para um lado e para o outro.

Eis que num dado momento os olhos azuis enormes da bela menina olharam para o rapaz que lia um livro qualquer da capa vermelha, ele estava concentrado na história que parecia interessante. A moça elegante e bonita falava ao telefone, com entusiasmo, talvez com o namorado ou marido. A velhinha frágil cochilava, e as outras pessoas ouviam música, conversavam ou somente se distraiam observando a paisagem pela janela.

E quando seus olhos curiosos constataram que ninguém estava a observando ela repentinamente abriu a boca miúda, inclinou-se pra frente segurando com firmeza pra não cair e vomitou. Seu vômito era bastante espesso, de cor salmão e rapidamente escorreu pelo chão do ônibus atingindo boa parte do corredor. E quando parecia ter acabado, veio mais um jato, e outro.

Logo em seguida ela se acomodou novamente no banco com seus olhos enormes, mas agora nada curiosos, e sim, apreensivos. E pouco importava nesse momento se eram azuis, castanhos ou pretos.

Então todos olharam para aquela menina, outrora tão encantadora, mas agora capaz de lhes causar um enorme asco. Todos observavam seu vômito de cor salmão no corredor do ônibus, escorrendo, sujo, e seus olhares seguiam com nojo o vômito até chegar à boca miúda da menina, que permanecia apática.

O rapaz que lia um livro qualquer da capa vermelha logo o fechou - como quem perdia o prazer de continuar a leitura - e o guardou na mochila. A moça elegante e bonita despachou o namorado ou marido ao telefone, encerrando a ligação com um breve “até mais tarde”; e levantou-se depressa de onde estava pra seguir até o fundo do ônibus e fugir daquele terrível cheiro de vômito.

A senhora frágil, que sequer conseguira acenar para a menina, acordou-se por conta do burburinho que permeava o ônibus naquele momento. Ela demorou a entender o que as pessoas falavam baixinho, cochichando, e esboçou uma careta ao ver que o vômito havia salpicado na barra da sua saia e no seu pé. Olhou para a menina, mas teve pena de condená-la.

Os olhos azuis enormes da garota percorriam timidamente os bancos e percebiam as pessoas se levantando e indo embora, se afastando dela, como se tivessem subitamente perdido todo o encanto de seus olhos expressivos e longas madeixas loiras cacheadas que escorriam dos dois cantos da cabeça. Agora as pessoas sentiam nojo dela.

O motorista encarou a menina pelo retrovisor, dessa vez viu não somente a boca miúda, mas também os olhos azuis enormes. E lamentou não ter conseguido chegar logo na casa da menina da boca miúda, que de encantadora tornou-se horrenda.

Nota: Muitas vezes certas coisas tão banais nos atraem a atenção. E tantas outras igualmente banais nos causam um desencanto completamente desnecessário e evitável. E no fim das contas, o que realmente importa?

Como diria o pequeno príncipe "Só se escuta bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos".

[Mente Hiperativa]

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Mulheres são de Vênus


Mulheres são de Vênus

Mulheres são de Vênus, o amor também, a beleza e tudo mais que há de singelo e puro. Mas as mulheres não são somente pureza, são também sedução e dissimulação, e isso eu não sei se vem de Vênus ou de onde vem.

Só sei que as mulheres são capazes de tudo, são loucas e amáveis, cativantes e castradoras, tudo a seu tempo, ou tudo fora de tempo. São capazes de tudo! E você nunca vai entender com clareza o que se passa na cabeça dela; receio que nem elas mesmas se entendam.

Talvez em Vênus seja normal brigar de manhã cedo, arrumando uma inimiga mortal, e logo mais à tardinha descobrir uma afinidade que as transforma em melhores amiga de infância. Falsidade ou intuição? Nunca saberemos, nós homens. Talvez por lá seja comum aqueles ataques, aquelas cismas desmotivadas e sobretudo aquela intuição que (quase) nunca é à favor do homem.

Mulher é assim, cria inimizade sem-motivo ou simpatia sem ter porquê, de graça; tem sexto sentido; tem o coração de mãe, que só mãe tem e sabe como é. Mulher sente a dor que homem nenhum sente, e não falo aqui de dor do parto, essa é a menor que ela passa na vida com um filho, falo de dores maiores, espirituais, emocionais, que não se sente na carne.

E homem nenhum entende isso, e não é por maldade ou falta de esforço em entender, é somente porque não ocorre dessa forma no nosso universo, não faz parte da gente e por isso fica uma eterna interrogação que na maioria das vezes fugimos ou ignoramos. Não há como entender o ininteligível.

Mas as mulheres não foram feitas para serem compreendidas, e sim amadas. Elas nos compreendem, ou usam da dissimulação para que acreditamos que sim, afinal como já disse elas são capazes de tudo... Ah, mas que bobagem isso, são tão amáveis que acabamos cedendo aos seus caprichos e a amamos de uma forma ou de outra.

E por isso tenho certeza, o amor, seguramente, é de Vênus.

[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Whisky


Whisky

Foi uma paixão avassaladora, selvagem, do tipo que só se vê numa mega produção hollywoodiana. Ele era um jovem milionário e nunca havia sentido aquilo, um amor tão forte como aquele. À princípio todos foram contra sua história, mas ele abandonou tudo por aquela mulher, se intrigou da família, se afastou dos amigos, tudo por ela.

"Ela" era uma loira fenomenal que tinha apenas um metro e meio, mas dona de uma beleza e simpatia que logo conquistaram o coração daquele pobre e ingênuo rapaz. Namoraram dois meses e logo se casaram, três meses depois ela fugiu e lhe roubou toda a fortuna, deixando-o inconsolável e decepcionado.

Hoje ele afoga as mágoas num copo de whisky barato, talvez até falsificado, lembrando que os melhores perfumes vêm nos menores frascos. E os piores venenos também.

[Mente Hiperativa]

domingo, 16 de outubro de 2011

No meio do caminho tinha o amor


No meio do caminho tinha o amor

No meio do caminho tinha o amor. Eu andava rápido e quase tropecei nele. O amor no meio do caminho me fez cair e tombar no chão. Machuquei o joelho, doeu, mas o amor me ajudou a levantar, me deu o apoio e o carinho que eu precisava. Minhas feridas sararam rápido e deixaram cicatrizes que o amor não permite que eu veja, tudo parece tão bonito desde que encontrei-o no meu caminho. Às vezes me lembro de como andava apressado e desatento, quase não percebi o amor no meio do caminho, imagine se eu tivesse passado sem vê-lo. Será que cruzaria novamente o meu caminho? Ou jamais o encontraria?

Nunca vou saber. Só sei que no meio do caminho tinha o amor.

[Mente Hiperativa]

sábado, 15 de outubro de 2011

DESavanços de um mundo moderno


DESavanços de um mundo moderno

Tenho uma amiga que estuda ciências da computação e vive cantando pra mim as maravilhas da vida moderna, cibernética, além de todos os recursos que a tecnologia nos traz nesses tempos modernos. Certo dia ela me falou -como se isso fosse a melhor coisa do mundo- que não precisava sair de casa pra comprar nada, "faço tudo pela Internet". Confesso que hesitei em contrariá-la, eu ia ficar calado sem concordar nem discordar, mas logo ensaiei mentalmente em dizer o quão terrível isso me parecia.

Eu disse o que eu pensava a respeito das compras online, mas a verdade é que diante dela eu me sinto um daqueles fósseis recém-desenterrados do período triássico ou talvez um mamute congelado, perdido no tempo, cujo DNA remonta a era das cavernas.

Tentei convencê-la a enfrentar o mundo real, tentei arrancá-la daquele quarto frio e solitário, daquela cápsula na qual ela vive 24hs por dia atrás de uma tela led touch screen 32", mas nada do que eu disse a convenceu de abandonar seu computador e encarar o mundo inóspito lá fora. Depois que eu gastei meu latim ela me olhou com cara de desdém, riu, e disse simpaticamente que eu era muito louco.

Louco? Eu? Por sair de casa pra fazer compras? Louco não seria quem se esconde do mundo real?

Quem quiser que discorde de mim, mas eu não gosto de fazer compras pela internet, qual a graça de ter o mundo ao alcance de um toque? Acho tão curto o espaço percorrido pelo meu dedo, queria ter que usar as pernas, o corpo todo, me mexer, andar, suar... Por isso mesmo que eu gosto de fazer minhas compras na rua, gosto de ir ao centro da cidade e lá eu encontro todo o tipo de produto, tudo ao alcance do meu dedo, também.

Eu sei que a cidade faz calor, é desconfortável e anti-prático, mas eu tomo um banho antes de sair (cuja refrescância nem dura muito tempo) e calço um bom tênis e isso me ajuda a suportar essa empreitada. O sol incomoda, mas eu sigo pelas sombras das escassas árvores e marquises, e nas minhas compras reais eu posso pegar o produto, olhar, testar, analisar, coisa que (ainda) não se pode fazer na internet.

Mas tem coisa que nunca vamos poder fazer online, como enfrentar o empurra-empurra do comércio, ouvir vendedores gritando e anunciando suas promoções relâmpago, e o povo correndo, se aglomerando, às vezes até trocando cotoveladas para poder pegar o produto de melhor preço.

O melhor de tudo é chegar em casa cheio de sacolas e abrir as compras, que graça tem comprar e ficar esperando uma eternidade para que cheguem pelos correios? Quem aguenta esperar? Vivemos a era do imediatismo!

Eu não consigo me acostumar com tanta comodidade, compras online, sem sair de casa...

Outra coisa que eu nunca poderei fazer ao comprar pela internet é ver gente. Claro, quando saio na rua eu vejo gente, eu lido com gente, falo com gente, estabeleço relações, gosto de olhar os tipos humanos, observar seu comportamento. E na internet quem faz isso? No máximo você lida com um programa de computador. Só posso pensar que pessoas cybernéticas, que só fazem compras online e se recusam a sair para o mundo, tem medo de gente. Desconfio que eles nem abrem a porta de casa quando lhe batem. Devem ter fobia de gente. Que povo louco...

[Mente Hiperativa]