domingo, 24 de julho de 2016

A morte: fatalidade ou escolha?


A morte: fatalidade ou escolha?

E se a morte não existisse e cada um determinasse o instante do seu fim? Em que momento você ia querer parar? Aliás, você ia querer parar? Teria que ter coragem ou motivo suficiente pra encerrar a vida, já que por conta própria ela jamais acabaria. Parece surreal, mas será que não é assim que ocorre?

A morte é o grande mistério da vida, será que temos o poder de determinar nossa causa mortis ainda que sem ter plena consciência disso? Através das nossas experiências, consumos, modo de vida, exposições e circunstâncias?

O tabagista que morre de câncer, o imprudente que morre no trânsito, o glutão que morre de infarto, o relapso que morre por descontrole de sua enfermidade, o irresponsável que morre no acidente de trânsito, o bandido que morre pelo crime.

Será que no fundo a vida não quer acabar e cada um de nós que a provoca e a deixa sem saída? No final das contas parece que o suicídio não é algo tão incomum, ao menos partindo do pressuposto de que ele pode ser longo e calmamente arquitetado durante toda uma existência. Não é preciso morrer rápido pra concluir que se matou, nos matamos no dia a dia, à cada cigarro tragado, à cada discussão de trânsito, à cada raiva guardada, matamos um pouco de nossa vida à cada traição, mentira ou extravagância alimentar.

A vida vai se acabando, se arrastando, e o último golpe será sempre considerado o culpado. Mas na verdade tivemos tempo suficiente de planejar o crime perfeito, muitas vezes o primeiro e último de toda uma vida.

[Mente Hiperativa]

domingo, 5 de junho de 2016

Aquele vazio não era fome


Aquele vazio não era fome 

Quem é você que nunca sentiu o estômago gelar por alguém? Você que nunca teve medo de quebrar a cara. E quebrou bonito.

Você que nunca se jogou de olhos fechados no escuro desconhecido. Nunca se entregou na primeira vez como se já fosse a milésima.

Se você nunca arriscou pra petiscar, se nunca sentiu indigestão após se banquetear, você não sabe o que é passar fome de amor.

[Mente Hiperativa]

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Tempo de pipa


Tempo de pipa

Em céus de pipa não voam mais crianças como antigamente. O sol brilha como sempre, mas agora os papagaios não procuram mais as crianças pra brincar. As bolas de gude rolam para dentro de formigueiros em busca de diversão. Peões rodam e rodam, tontos, em busca do que é belo e vulgar. Vivemos o tempo da preguiça.

O sol, o algodão doce e as bolhas de sabão desfilam no céu, mas as pipas não se encontram mais com as crianças. Um dia quem sabe as coisas voltem a fazer sentido, talvez as pipas voltem a puxar as crianças pelo cordão e então o mundo volte ao normal. Um dia, quem sabe...

[Mente Hiperativa]

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Se(nti)r humano


Se(nti)r humano 

Saudade é o desejo de iludir-se,
de sentir novamente que tem
mesmo sem jamais ter tido.

[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O suficiente


O suficiente

   Só, apenas, somente,
       simplesmente
        o suficiente.

Basta a mim o que tenho
   Não preciso de mais.
          É demais!

        Pra que tanto,
        se o suficiente
        é tão eficiente?

   Às vezes me pergunto
    (e não me respondo)
  porque eu quero tanto?

[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Hora do recreio



Hora do recreio

Fui criança que corre descalço no chão de cimento, que caça lagartixa, pega lagarta com o graveto, faz armadilha pra passarinho, depois solta o prisioneiro. Consertei chinelo havaiana com prego, brinquei de caminhão, de carrinho, de bola de gude, peguei girino da rua que alagava quando chovia bastante. Mainha sempre descobria e jogava fora meus sapinhos recém formados. Empinei pipa, joguei peão, brinquei de cavaleiro com um cabo de vassoura, corri pelo quintal e fiz dele o meu reino.

Fiz cabana, acampei na sala, me escondi num túnel imaginário que ficava atrás da cadeira de balanço da minha vó. Dava susto nas galinhas, perseguia o peru, que de tanto medo se obrava todo. Fugi do cachorro brabo que na verdade só queria brincar, colei chiclete debaixo da mesa, dei muito susto nas babás que cuidavam de mim, me pendurei na janela, pulei da escada, fui alquimista, botânico, veterinário, biólogo, sempre tive essa alma de cientista. Passei trote pelo telefone, escapei de castigo, toquei a campainha da minha própria casa fingindo pedir esmola, subi em árvore, fui capitão, astronauta, viajei pra outros planetas numa nave espacial que era o balanço da minha bisavó no quintal de casa.

Andei de patins, adorava ir ao zoológico, construí castelos de areia na praia, brinquei nos parques e fiz muitas bolhas de sabão. Desenhei tudo que via no meu mundo, pintei tudo bem colorido, fiz chapéu de dobradura, barquinho, tomei banho em piscina de plástico que mal comportava os primos, mas sempre tinha espaço pra algum adulto que havia esquecido de crescer. Tomei banho de torneira também, e de bica, e de chuva. Dei muito tiro de pistola d'água, assustei minha vó com animais peçonhentos de plástico, me passei pelo meu irmão ao telefone, criei hamster escondido, pedi biscoito à vizinha através do muro usando um bicho de pelúcia como interlocutor, joguei pedra nas galinhas da vizinha, raspei a panela do bolo, 'roubei' o lanche da cozinha e saí correndo escondido, mas também já fui pego em flagrante em muitas das minhas traquinagens.

Fui criança, aproveitei bastante, me diverti nos momentos em que me foi permitido, corri pro quintal pra fugir da realidade, no meu mundo de fantasia. Fui feliz, na hora do recreio. Agora preciso ir, pois já tocou a sirene, o intervalo acabou. Voltemos à aula da vida.

[Mente Hiperativa]

sábado, 25 de outubro de 2014

A salvo da loucura



A salvo da loucura

Andava sempre atenta, olhando para os lados discretamente, parava num café e depois entrava numa loja, sem jamais repetir os lugares visitados. Procurava ser discreta nas atitudes e comentários, não queria chamar atenção, tampouco causar lembranças às pessoas. Reservava os óculos escuros apenas para os ambientes externos, pois aprendeu com o tempo que eles chamam atenção ao invés de cumprir seu propósito de disfarce.

Vivia perseguida pela sombra do medo, aterrorizada com a possibilidade de ser encontrada a qualquer instante. Colhia dados o tempo todo e os anotava pra criar sua nova história, retalhos de vivências alheias que via e ouvia pelo mundo a fora, precisava de uma identidade, de um passado ainda que fictício para usar nos diálogos essenciais e estritamente inevitáveis.

Em casa evitava olhar-se no espelho, não queria lembrar quem era de fato. A TV era sua companhia constante, até quando saía a mantinha ligada na opção mute. Silenciava o passado, construía lentamente um novo presente e não tinha qualquer certeza acerca do futuro.

Habitava a penumbra, andando cuidadosamente, pois qualquer pisada em falso poderia lhe custar a vida. Temia ser encontrada, caso o fosse teria que ajustar as contas com seu sórdido passado, aquele que evitava visitar até em pensamento.

Um belo dia foi dormir tarde da noite, exausta e pra sua surpresa e pânico acordou num hospício. Foi então que se deu conta de que seus últimos anos se passaram numa fuga de si mesma, presa numa clínica a enganar-se o tempo todo com artifícios torpes, disfarces tão loucos quanto a própria imagem de si mesma.

Descobriu de imediato, como quem encontra uma caixa antiga de fotos e se reconhece, que estava vivendo um incrível conto de fadas, com personagens, lugares e histórias que se repetiam diariamente, porém com outros nomes dados por ela. A lucidez, ainda que tardiamente, caiu em seu colo como uma bomba prestes a explodir.

E agora, o que faria da vida? Sem família, sem casa, sem trabalho, sem renda e COM lucidez? De que adiantava situar-se na realidade se nem ao menos poderia usufruir desse mundo feito apenas para os outros? Foi então que logo após melhorar da loucura entrou numa profunda depressão. E seus personagens, disfarces, fugas e fantasias caíram todos por terra, tornando-a uma pessoa apática, sedimentada numa cama como o velho leito de um rio.

Passou a não mais pronunciar as loucuras de antes, deixou de lado as perucas e lenços, os batons e óculos escuros. A vida trocou a fantasia pela morbidez de uma triste realidade, agora jaz numa cama olhando infinitamente para o teto branco e mofado daquele quarto nos fundos da clínica psiquiátrica. Sente saudade do tempo em que a loucura coloria sua vida com alguma esperança e, porque não dizer, felicidade. Mas não comenta isso com ninguém, não quer parecer uma louca.

[Mente Hiperativa]