quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Se(nti)r humano


Se(nti)r humano 

Saudade é o desejo de iludir-se,
de sentir novamente que tem
mesmo sem jamais ter tido.

[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O suficiente


O suficiente

   Só, apenas, somente,
       simplesmente
        o suficiente.

Basta a mim o que tenho
   Não preciso de mais.
          É demais!

        Pra que tanto,
        se o suficiente
        é tão eficiente?

   Às vezes me pergunto
    (e não me respondo)
  porque eu quero tanto?

[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Hora do recreio



Hora do recreio

Fui criança que corre descalço no chão de cimento, que caça lagartixa, pega lagarta com o graveto, faz armadilha pra passarinho, depois solta o prisioneiro. Consertei chinelo havaiana com prego, brinquei de caminhão, de carrinho, de bola de gude, peguei girino da rua que alagava quando chovia bastante. Mainha sempre descobria e jogava fora meus sapinhos recém formados. Empinei pipa, joguei peão, brinquei de cavaleiro com um cabo de vassoura, corri pelo quintal e fiz dele o meu reino.

Fiz cabana, acampei na sala, me escondi num túnel imaginário que ficava atrás da cadeira de balanço da minha vó. Dava susto nas galinhas, perseguia o peru, que de tanto medo se obrava todo. Fugi do cachorro brabo que na verdade só queria brincar, colei chiclete debaixo da mesa, dei muito susto nas babás que cuidavam de mim, me pendurei na janela, pulei da escada, fui alquimista, botânico, veterinário, biólogo, sempre tive essa alma de cientista. Passei trote pelo telefone, escapei de castigo, toquei a campainha da minha própria casa fingindo pedir esmola, subi em árvore, fui capitão, astronauta, viajei pra outros planetas numa nave espacial que era o balanço da minha bisavó no quintal de casa.

Andei de patins, adorava ir ao zoológico, construí castelos de areia na praia, brinquei nos parques e fiz muitas bolhas de sabão. Desenhei tudo que via no meu mundo, pintei tudo bem colorido, fiz chapéu de dobradura, barquinho, tomei banho em piscina de plástico que mal comportava os primos, mas sempre tinha espaço pra algum adulto que havia esquecido de crescer. Tomei banho de torneira também, e de bica, e de chuva. Dei muito tiro de pistola d'água, assustei minha vó com animais peçonhentos de plástico, me passei pelo meu irmão ao telefone, criei hamster escondido, pedi biscoito à vizinha através do muro usando um bicho de pelúcia como interlocutor, joguei pedra nas galinhas da vizinha, raspei a panela do bolo, 'roubei' o lanche da cozinha e saí correndo escondido, mas também já fui pego em flagrante em muitas das minhas traquinagens.

Fui criança, aproveitei bastante, me diverti nos momentos em que me foi permitido, corri pro quintal pra fugir da realidade, no meu mundo de fantasia. Fui feliz, na hora do recreio. Agora preciso ir, pois já tocou a sirene, o intervalo acabou. Voltemos à aula da vida.

[Mente Hiperativa]

sábado, 25 de outubro de 2014

A salvo da loucura



A salvo da loucura

Andava sempre atenta, olhando para os lados discretamente, parava num café e depois entrava numa loja, sem jamais repetir os lugares visitados. Procurava ser discreta nas atitudes e comentários, não queria chamar atenção, tampouco causar lembranças às pessoas. Reservava os óculos escuros apenas para os ambientes externos, pois aprendeu com o tempo que eles chamam atenção ao invés de cumprir seu propósito de disfarce.

Vivia perseguida pela sombra do medo, aterrorizada com a possibilidade de ser encontrada a qualquer instante. Colhia dados o tempo todo e os anotava pra criar sua nova história, retalhos de vivências alheias que via e ouvia pelo mundo a fora, precisava de uma identidade, de um passado ainda que fictício para usar nos diálogos essenciais e estritamente inevitáveis.

Em casa evitava olhar-se no espelho, não queria lembrar quem era de fato. A TV era sua companhia constante, até quando saía a mantinha ligada na opção mute. Silenciava o passado, construía lentamente um novo presente e não tinha qualquer certeza acerca do futuro.

Habitava a penumbra, andando cuidadosamente, pois qualquer pisada em falso poderia lhe custar a vida. Temia ser encontrada, caso o fosse teria que ajustar as contas com seu sórdido passado, aquele que evitava visitar até em pensamento.

Um belo dia foi dormir tarde da noite, exausta e pra sua surpresa e pânico acordou num hospício. Foi então que se deu conta de que seus últimos anos se passaram numa fuga de si mesma, presa numa clínica a enganar-se o tempo todo com artifícios torpes, disfarces tão loucos quanto a própria imagem de si mesma.

Descobriu de imediato, como quem encontra uma caixa antiga de fotos e se reconhece, que estava vivendo um incrível conto de fadas, com personagens, lugares e histórias que se repetiam diariamente, porém com outros nomes dados por ela. A lucidez, ainda que tardiamente, caiu em seu colo como uma bomba prestes a explodir.

E agora, o que faria da vida? Sem família, sem casa, sem trabalho, sem renda e COM lucidez? De que adiantava situar-se na realidade se nem ao menos poderia usufruir desse mundo feito apenas para os outros? Foi então que logo após melhorar da loucura entrou numa profunda depressão. E seus personagens, disfarces, fugas e fantasias caíram todos por terra, tornando-a uma pessoa apática, sedimentada numa cama como o velho leito de um rio.

Passou a não mais pronunciar as loucuras de antes, deixou de lado as perucas e lenços, os batons e óculos escuros. A vida trocou a fantasia pela morbidez de uma triste realidade, agora jaz numa cama olhando infinitamente para o teto branco e mofado daquele quarto nos fundos da clínica psiquiátrica. Sente saudade do tempo em que a loucura coloria sua vida com alguma esperança e, porque não dizer, felicidade. Mas não comenta isso com ninguém, não quer parecer uma louca.

[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Isso de amar ainda vai acabar ferindo alguém


Isso de amar ainda vai acabar ferindo alguém

Inventou-se que a felicidade só existe a dois e assim acabaram com meu doce culto à melancolia e solidão. Fui arrancado do hábito da leitura e convocado a buscar esse tal amor sob a promessa de que ele me conduziria à eterna felicidade.

Em seguida, me disseram que não poderia ficar parado esperando o amor cair do céu, teria que sair de casa e ir à caça, ainda por cima me arranjaram esse trabalho. Bem que podia ser mais simples, mas aceitei e fui comprar pão. Com sorte poderia encontrá-lo na fila do caixa ou na prateleira de produtos em promoção.

Segui a risca o que me foi dito, corri atrás e depois de meia maratona acabei encontrando pelo caminho diversos sentimentos, desilusões, vivi relacionamentos, simbioses e até mentiras, colecionei troféus e derrotas. Por fim, vencido pelas circunstâncias, acabei voltando para a segurança dos livros.

No fim das contas sempre soube que essa história de amor acabaria me ferindo. De volta à solidão literária, agora repouso na cômoda posição de quem não precisa lidar com o mundo lá fora. Quanto à eterna felicidade, deixo aos que encontraram o amor; estes que embora feridos, sentem-se completos.

[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Prisão



Prisão 

Eu te amo como quem ama um passarinho morto e com cuidado te manipulo, como se por acaso fosse capaz de te machucar. Mas como machucaria algo que está morto e que talvez nunca tenha tido vida?

Toda vez que quero saber como você está eu te alcanço naquela caixa de ossos lá no alto, te desembrulho com cuidado e te acaricio. Sei que é mórbido, sei que é absurdo, mas conforta-me o fato de você estar ali, morto.

Às vezes sinto vontade de abrir a caixa e te ver voando pra bem longe, carregando contigo esse meu prazer doentio e me libertando dessa penitência diária. Mas você não passa de um passarinho morto, tão morto que nem pode voar.

Por isso, estaremos eternamente presos um ao outro.

[Mente Hiperativa]

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Pedido de ajuda



Pedido de ajuda 

A dor castiga o corpo; o remorso faz doer a alma. E de repente aquele ato impensado, impulsivo, torna-se a desculpa perfeita pra nutrir o sofrimento que já não reconhece motivos, apenas se mantém por inércia. A soma de incalculáveis deslizes permite à dor multiplicar-se diariamente, consumindo pouco a pouco a carne, degenerando as ideias pra que estas alimentem o sofrimento.

Nesse ciclo vicioso o ser vai afundando em uma lástima de vida, sem luz, sem cores, jogando-se nos braços da derrota e assimilando toda a negatividade que o cerca. Sem amor o triunfo lhe parece um calvário inglório, sem ajuda a luta torna-se um desafio insustentável. E é nesse momento que um olhar sensível e treinado é capaz de provocar uma verdadeira mudança interior.

Por isso, preste atenção à miséria humana mascarada de apatia, ouça os gritos ao seu redor, reconheça o desamparo e a dor ocultos nas aparências ou mesmo escancarados aos olhos de quem quiser ver. Quem se entrega à dor pode não estar enxergando oportunidade de sair dela, muitas vezes não se trata de uma escolha. Estenda sua mão poderosa ao invés de julgar, lembre-se: você também erra...

[Mente Hiperativa]