segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Perseguição



Perseguição

Terminar dói,
acabar destrói.
E quem não lida com a dor,
é mesmo um terror!

Na minha estante,
livros inacabados.
Dali em diante,
Vários iniciados.

Não acabo o namoro,
Não largo o emprego;
Sinto-me o tempo todo,
perseguido pelo medo.

Assim a vida vai passando,
e permaneço inacabado.
Enquanto ela estiver me caçando,
quedarei desanimado!

[Mente Hiperativa]

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Fechando a ferida


Fechando a ferida

Logo, logo, tudo isso vai acabar. Fecho os olhos e sinto o sangue quente corando meu rosto, percorrendo rapidamente meus vasos; enxergo ora vermelho-intenso, ora vermelho-suave, conforme o ritmo acelerado do meu coração. Nesse instante, sinto a raiva me consumindo e percorrendo todo meu corpo, ela cerra meus punhos e me causa um impulso destrutivo que luto pra conter. Procuro me acalmar, afinal sei que tudo vai passar.

Concentro-me na areia que escorre lentamente pela ampulheta e percebo que a maioria dela já atingiu a porção inferior, não nos resta muito tempo. Aos poucos minha raiva vai passando e cedendo lugar à tristeza, abro os olhos e eles estão completamente úmidos. Sinto vontade de chorar, mas me seguro pra não te dar esse prazer. Já basta sua incrível habilidade em me machucar com palavras e cutucar aquela ferida que resguardo num lugar onde apenas nós dois temos acesso.

Você faz da guerra uma arte e eu tento transformar em arte o meu sofrimento, mas não sou tão habilidoso quanto você. Respiro fundo, prendo as lágrimas e dirijo minha atenção à ampulheta: o tempo está passando e o que estamos construindo? Vejo entre nós dois um rio de mágoas no qual costumo me afogar. Da minha parte me empenho em construir uma nave enquanto você seleciona as pedras mais afiadas para me atingir. Depois que agride me aluga os ouvidos com discursos vazios que não me iludem mais, tampouco me enchem de esperança.

Sei que vou voar, logo, logo, vou voar. Sofro enquanto você senta na poltrona e lê o jornal como se nada estivesse acontecendo. Fecho os olhos e vejo que tudo está acabando. Sei que quando abri-los novamente tudo será diferente, cada qual terá o que cativou e de nós dois restará apenas o dito pelo não-dito, as dores bem guardadas e resolvidas por cada um a seu gosto. Quando enfim o dia chegar, irei embora aliviado levando na lembrança somente o pouco que te pedi - bem pouco - e deixarei contigo as angústias que não resolvemos. Faça delas o que você achar melhor.

[Mente Hiperativa]

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Medusas de Saturno


Medusas de Saturno 

Em Saturno o azul das águas se mistura com o azul do céu de modo que na região limítrofe entre eles se forma uma atmosfera desconhecida para nós humanos, uma espécie de matéria que não detemos em nossa dimensão. Não é um substrato líquido nem sólido, tampouco gasoso; ele se presta a intermediar os dois mundos que divide. Chamarei de fluox.

Nesse lugar os peixes passeiam em meio aos pássaros e ambos se confundem como numa ilustração do Escher, talvez ele próprio tenha visitado Saturno e lá tenha encontrado a inspiração para produzir tais gravuras. Também há inúmeras medusas que vagueiam desajeitadamente pelo fluox e às vezes até dão uma escapulida para o céu, mas voltam rápido à região limítrofe e mergulham na água igual fazem os golfinhos na superfície pra respirar. Voltam logo senão explodem no ar.

Coloco minhas mãos em meio ao fluox, sinto um calafrio percorrer a espinha como se uma pedra de gelo escorregasse por ela. Enquanto isso, as medusas passeiam por entre meus dedos, fazem cócegas na minha alma e eu rio. Sinto-as vagando pelos meus vasos, dando às minhas hemácias uma nova energia eletromagnética e, então, vejo-as sairem inertes à trama emaranhada de minhas plaquetas. Nada é capaz de prendê-las!

Queria poder trazer um pouco do fluox para minha casa, colocaria num aquário com medusas translúcidas, mas elas não suportariam viver aprisionadas sem movimentar a energia como fazem em Saturno. Até pouco tempo eu nem sabia, contudo elas têm uma importante função universal no que diz respeito à manutenção energética.

Descobri que as medusas nascem da medula dos Saturnianos, carregam consigo a energia da vida e a distribuem por todo o horizonte infinito - através do fluox - de onde seguem adiante até as dimensões mais longínquas. Em determinado momento as medusas cruzam o fluox e viajam até o céu onde se rompem liberando fluidos que se conectam às estrelas. Esses astros, então, atuam como difusores, irradiando as boas energias da vida até nós.

Enquanto dormimos recebemos descargas de fluidos Saturnianos que provêm originalmente de suas medulas. O grande papel das medusas consiste na modificação e adequação da energia, tornando-a mais densa e perfeitamente absorvível pelo nosso organismo.

Graças a esse processo, à cada dia aqui na Terra acordamos revitalizados e prontos pra mais uma jornada de intensa batalha. Enquanto em Saturno as medusas passeiam pelo fluox condensando a essência da vida; nós admiramos as estrelas, demonstrando nossa eterna gratidão.

[Mente Hiperativa]

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Castelos de areia


Castelos de areia

Iluda-me!
Com falsas promessas,
belos sonhos,
planos inalcançáveis.

Quero as histórias mais bonitas
e desejar que se tornem realidade.
Preciso ouvir uma canção,
sentindo-a tocar minh'alma.

Conte-me o que será de nós,
diga-me onde posso chegar
e que seja bem alto, bem alto...

Encha meu coração de esperança,
meus olhos de brilho
e minhas mãos de trabalho.

Eu não suportaria viver sem ilusões,
me tornaria um desiludido.
Prefiro acreditar, pois tudo é possível.
Então, iluda-me!

[Mente Hiperativa]

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O amor no divã



O amor no divã 

Eu quis te dar aquilo que eu não tinha e você não aceitou que eu te desse aquilo que você queria, mesmo que eu não estivesse de fato te dando. Você não quis. E eu fiquei com aquilo que não tinha sem saber o que fazer mesmo sem tê-lo propriamente. Você continuou sem aquilo que eu não tinha, porque não quis que eu te desse, mas queria. E continuou a buscar alguém que não quisesse te dar aquilo que não tinha. Eis, então, seu desafio: fazer alguém acreditar que tem aquilo que você quer e persuadi-lo a te dar aquilo que você quer que ele tenha (mesmo sem ter).

Enquanto isso eu permaneço aqui sem ter, mas ainda assim querendo te dar. E você não quer. Todavia não serei mais besta, não cairei na tentação de procurar alguém que não queira o que eu não tenho para que então eu tenha que convencê-la de querer o que eu não tenho e assim o aceite. Esse desafio eu não quero pra minha vida. Agora quem quiser que me convença a dar o que eu não tenho e ainda finja que não quer pra que eu sinta vontade de dar.

[Mente Hiperativa]

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Um café, um fantasma e um bom papo



Um café, um fantasma e um bom papo

O passado às vezes gosta de fazer uma visita surpresa, chega num dia de semana no fim da tarde e sem avisar bate à nossa porta. Quando abrimos e nos deparamos com aquele velho conhecido é inevitável o choque. Falta ar, as pernas tremem e por um instante desejamos até que aquele momento tivesse sido evitado. Mas é melhor assim, sem escolha, pois muitas vezes fato de encarar o passado é uma ótima forma de reeditar as lembranças, tornando-as mais saudáveis.

Pensando bem não há porque temer o passado quando se está com a consciência limpa, quando se agiu com honestidade. E mesmo que algum erro tenha sido cometido, essa é a hora de provar humildade e se redimir. Um encontro com o fantasma é sempre uma boa oportunidade de 'colocar tudo em pratos limpos' e sobretudo subir alguns degraus em direção à paz de espírito. É importante aproveitar essa chance pra selar o caminho de ambos com bastante prosperidade.

Por isso, logo que passou o susto convidei-o pra entrar, tomar um café e colocar o papo em dia. Por onde andou nesse tempo que esteve sumido? O que fez de bom? Conte-me sobre suas aventuras, tenho muito a dividir com você, caro fantasma, como nos bons e velhos tempos em que éramos parceiros.

[Mente Hiperativa]

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Vá se tratar, seu louco!


Vá se tratar, seu louco!


Lucila gosta de apreciar o cheiro de anjo que vez por outra “brota”, segundo ela, do teto de seu quarto e cai em sua cama como uma chuva de plumas. Andréa costuma passar o sábado à tarde conversando com seu avô e outras pessoas mortas enquanto toma café no terraço do antigo casarão da família. Os gêmeos Cláudio e Manoel mantêm seus objetos enfileirados e paralelos afim de evitar qualquer tipo de acidente ou situação de risco com os familiares; haviam descoberto logo na infância essa incrível capacidade de protegê-los. Quando uma abelha ou borboleta entra em seu apartamento, George se coloca em posição de meditação e repete o mantra sagrado da cabra-das-montanhas, pois acredita estar recebendo a visita da divindade em seu humilde lar.

Doutor Gregório não concebe que essas pessoas ajam de forma tão louca e permaneçam "soltas" por aí. Sua vontade é internar todos eles e submetê-los a um tratamento severo até pararem de fazer coisas estranhas. Particularmente, não estou bem certo quanto o diagnóstico... talvez seja loucura mesmo, ou apenas falta de imaginação e criatividade, mas de qualquer forma o Dr Gregório precisa se tratar com urgência!

[Mente Hiperativa]