A alternativa
Há algumas semanas apresentava sintomas persistentes, depois de alguns exames
alterados descobriu-se grave enfermidade que poderia tirar-lhe a vida em curto
prazo de tempo, caso não fosse medicada corretamente. Internou-se, portanto, para
tratamento em caráter de urgência. Desde então sua rotina jamais foi a mesma, o
sono passou a ser curto e entrecortado, seu organismo sofreu enorme desgaste e
profundas olheiras de sofrimento passaram a tingir seu rosto. Além disso, os
remédios fortes que tomava e o intenso cansaço lhe aguçavam ainda mais tal
desconforto, as acomodações hospitalares também não eram nada acolhedoras. O
clima frio tomava conta não só do quarto, mas de sua alma, e isso tornou seu
prognóstico pouco animador.
Ao mesmo tempo em que tentava aceitar sua condição, observava com desgosto os tubos
que lhe conduziam ar às narinas, lembrando-se que até o mês passado conseguia
respirar enquanto agora se sentia incapaz até de fazer isso. Remédios eram
oferecidos em intervalos rigorosamente cronometrados e provocavam reações
adversas insuportáveis: dor de cabeça, de estômago, náuseas e mal-estar, entre
outros. Os apitos constantes das máquinas já não incomodavam, havia se
acostumado com toda aquela barulheira do mesmo jeito que também não se
assustava tanto ao passar a mão na cabeça e se dar conta de que não havia
cabelo, somente uma lanugem áspera a espetar a palma de sua mão.
Sua aparência não era das melhores, estava muito abatida e por isso evitava ao
máximo se olhar no espelho, perdera a vitalidade e com ela a vaidade que tinha
anteriormente. Estava muito magra, magra e desidratada, pois de vômito em vômito
perdia líquido em demasia, apesar do soro que ingressava pelas suas veias. E como
não bastassem as agulhadas quase diárias de coleta de sangue, a cada três dias
trocavam o acesso venoso furando-lhe novamente noutro ponto do braço ou até
mesmo da mão. Com o passar das semanas ficou parecendo uma peneira cheia de
furos.
Seguiu essa nova rotina, dia após dia, sempre aguardando uma melhora que nunca se
mostrava. E assim um novo esquema era implantado, uma nova fase, novos
remédios, porém a cura nunca se fazia plena. Parecia até uma tortura medieval,
mas os médicos asseguravam que era um “mal” necessário, o “único” caminho para
assegurar sua saúde. Não lhe restava escolha senão esperar e se submeter à
terapêutica convencional.
Às vezes tinha vontade de fugir dali, mas não tinha como fazer isso, não tinha
nem forças. Queria desistir, queria ficar boa, queria... Queria que tivesse
sido diferente. E a cada garfada de arroz branco e grudento com purê de batata sem
gosto tentava esquecer tal realidade, comia com esforço, apenas esperava que
aquilo acabasse logo e pudesse retornar à sua rotina boba de muito trabalho e
pouco tempo livre. Pensou em se cuidar mais quando saísse dali, mas logo
lembrou que teria muito trabalho acumulado e não poderia se dar ao luxo de
deixá-lo em segundo plano.
Suportou até onde deu, sofreu com os remédios, se desiludiu com a falta de
perspectivas e implorou por alguma outra saída para seu sofrimento. Sentia sua
mente esgotar-se diante daquela rotina dolorosa, estava morrendo aos poucos
apesar de tanto aparato à sua volta, de tantos cuidados e drogas. Diante disso,
tomou uma importante decisão: iria voltar pra casa e aguardar pelo fim.
Levantou-se da cama arrancando os aparelhos de seu corpo como quem tomava posse
de si novamente, mas ao colocar o primeiro pé no chão em direção à liberdade
levou um enorme tombo e caiu num surto de fraqueza e tontura. Acordou na mesma cama,
mas dessa vez acompanhada por uma enfermeira ao seu lado, segurando sua mão. A
ela contou sua decisão de sair dali e aguardar o fim dos seus dias em casa,
longe de aparelhos, injeções e pessoas vestidas impecavelmente de branco. Foi
um choque pra toda a equipe de saúde, ninguém concordava com tamanha loucura de
recusar-se à quimioterapia, seria um suicídio, um absurdo! No entanto nada podiam fazer além de argumentar contra a escolha daquela mulher insana que queria
a todo custo morrer em sua residência. E como ninguém podia prendê-la, deixaram
que ela fosse.
Após recuperar parcialmente sua vitalidade ela saiu do hospital e mudou-se para
um sítio pouco afastado da cidade em que vivia, alugou por uma temporada uma
bela e confortável casa onde se instalou por tempo indeterminado. Sabia que
mais cedo ou mais tarde a doença a levaria embora, mas recusou-se a passar o
fim dos seus dias vivendo artificialmente como quem luta com a divindade e sua
imensa sabedoria. Levou alguns remédios, tirou uma boa quantia de dinheiro no banco e
enfiou-se no meio do mato pra curtir o pouco tempo que ainda lhe restava de vida.
A nova vizinhança quase nada sabia a seu respeito, tampouco suspeitava que
carregasse dentro de si uma bomba pronta pra explodir a qualquer instante - seis
meses, segundo arriscaram alguns médicos mais pretensiosos. Preferiu que os
vizinhos não soubessem de nada, não queria receber olhares de pena ou
julgamento. O povoado que agora habitava era bastante receptivo de modo que ela
logo fez amizade com a maioria deles, promovendo festas animadas em sua casa,
com fartura de comida e boa música, ao vivo. Dançou muito, fez da vida uma eterna
comemoração e experimentou cada dia como se fosse verdadeiramente o último. Aos
fins de semana recebia parte de sua pequena família, o que fazia a festa dentro
do seu coração ser ainda maior que o habitual.
Pouco mais de dois anos se passaram e a vida no campo parecia lhe fazer muito
bem. Desde que saiu do hospital e se mudou ela adquiriu novos hábitos, mais
saudáveis, passou a acordar bem cedo com o canto do Galo, se alimentava melhor,
sorria bem mais do que na cidade. Todas as manhãs, ainda de camisola, ela ia
até a sacada do quarto pra contemplar o nascer do sol e ouvir também o canto
dos sabiás, bem-te-vis e outros pássaros cujos nomes desconhecia. Gostava de
fechar os olhos e respirar pausadamente o ar puro enquanto o som das aves
penetrava doce em seus ouvidos. Essa simples atitude fazia sentir-se viva a
cada manhã, tão viva que às vezes até esquecia que dentro de si crescia uma
massa maligna de nome impronunciável.
Depois de um banho morno de banheira e um café da manhã reforçado, descia até a
horta pra cuidar de suas ervas, criava também galinhas de capoeira, patos e
cabras. Não queria se ocupar com porcos, cavalos ou outros animais maiores,
evitava qualquer trabalho pesado. Passava o dia executando pequenas atividades
e apesar da doença levava uma vida normal. Entre uma tarefa e outra o dia
acabava logo, mas não sem oferecer-lhe uma sensação intensa de prazer em estar
viva. Esse passou a ser o seu tratamento alternativo.
Todos os dias ao cair da tarde ela sentava no balanço do jardim como quem
realizava um pequeno ritual, tirava as botas e o chapéu jogando-os na grama,
balançava ritmicamente enquanto admirava as flores cultivadas com tanto amor e carinho.
A essa altura o sol estava alaranjado e pintava o horizonte em despedida, era a
hora de agradecer por mais um dia de vida. Desejava fortemente que mais uma
manhã pudesse vir logo adiante, lembrava de quando estava no hospital cercada
por máquinas e canos invasivos, mas agora tinha o conforto da natureza ao seu
lado. Contava com a cumplicidade da vida no campo pra perpetuar os instantes
que ainda podia desfrutar.
Depois de sua reflexão diária se recolhia em casa e já vestida com seu pijama
arrumava-se pra dormir, nunca tinha certeza se acordaria ou não, mas por via das dúvidas preferia dormir sempre bem penteada e bonita. O dia
seguinte seria festa e os vizinhos já sabiam que encontrariam muita alegria na
casa daquela jovem senhora, tão feliz que ela era. Parte da comida já estava
pronta na cozinha, as roupas haviam ficado penduradas no varal lá fora pra que
o vento da noite as secasse. Algumas flores recém-colhidas adornavam os vasos da
sala e perfumavam o ambiente. Ela soprou firmemente as velas, fez o sinal da
cruz e se cobriu em mais uma noite fria. O som dos grilos e das rãs quebrava o
silêncio. Ela cruzou as mãos em cima do peito e fechou os olhos, apagando na
imensidão escura da noite.
[Mente Hiperativa]