quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Medusas de Saturno


Medusas de Saturno 

Em Saturno o azul das águas se mistura com o azul do céu de modo que na região limítrofe entre eles se forma uma atmosfera desconhecida para nós humanos, uma espécie de matéria que não detemos em nossa dimensão. Não é um substrato líquido nem sólido, tampouco gasoso; ele se presta a intermediar os dois mundos que divide. Chamarei de fluox.

Nesse lugar os peixes passeiam em meio aos pássaros e ambos se confundem como numa ilustração do Escher, talvez ele próprio tenha visitado Saturno e lá tenha encontrado a inspiração para produzir tais gravuras. Também há inúmeras medusas que vagueiam desajeitadamente pelo fluox e às vezes até dão uma escapulida para o céu, mas voltam rápido à região limítrofe e mergulham na água igual fazem os golfinhos na superfície pra respirar. Voltam logo senão explodem no ar.

Coloco minhas mãos em meio ao fluox, sinto um calafrio percorrer a espinha como se uma pedra de gelo escorregasse por ela. Enquanto isso, as medusas passeiam por entre meus dedos, fazem cócegas na minha alma e eu rio. Sinto-as vagando pelos meus vasos, dando às minhas hemácias uma nova energia eletromagnética e, então, vejo-as sairem inertes à trama emaranhada de minhas plaquetas. Nada é capaz de prendê-las!

Queria poder trazer um pouco do fluox para minha casa, colocaria num aquário com medusas translúcidas, mas elas não suportariam viver aprisionadas sem movimentar a energia como fazem em Saturno. Até pouco tempo eu nem sabia, contudo elas têm uma importante função universal no que diz respeito à manutenção energética.

Descobri que as medusas nascem da medula dos Saturnianos, carregam consigo a energia da vida e a distribuem por todo o horizonte infinito - através do fluox - de onde seguem adiante até as dimensões mais longínquas. Em determinado momento as medusas cruzam o fluox e viajam até o céu onde se rompem liberando fluidos que se conectam às estrelas. Esses astros, então, atuam como difusores, irradiando as boas energias da vida até nós.

Enquanto dormimos recebemos descargas de fluidos Saturnianos que provêm originalmente de suas medulas. O grande papel das medusas consiste na modificação e adequação da energia, tornando-a mais densa e perfeitamente absorvível pelo nosso organismo.

Graças a esse processo, à cada dia aqui na Terra acordamos revitalizados e prontos pra mais uma jornada de intensa batalha. Enquanto em Saturno as medusas passeiam pelo fluox condensando a essência da vida; nós admiramos as estrelas, demonstrando nossa eterna gratidão.

[Mente Hiperativa]

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Castelos de areia


Castelos de areia

Iluda-me!
Com falsas promessas,
belos sonhos,
planos inalcançáveis.

Quero as histórias mais bonitas
e desejar que se tornem realidade.
Preciso ouvir uma canção,
sentindo-a tocar minh'alma.

Conte-me o que será de nós,
diga-me onde posso chegar
e que seja bem alto, bem alto...

Encha meu coração de esperança,
meus olhos de brilho
e minhas mãos de trabalho.

Eu não suportaria viver sem ilusões,
me tornaria um desiludido.
Prefiro acreditar, pois tudo é possível.
Então, iluda-me!

[Mente Hiperativa]

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O amor no divã



O amor no divã 

Eu quis te dar aquilo que eu não tinha e você não aceitou que eu te desse aquilo que você queria, mesmo que eu não estivesse de fato te dando. Você não quis. E eu fiquei com aquilo que não tinha sem saber o que fazer mesmo sem tê-lo propriamente. Você continuou sem aquilo que eu não tinha, porque não quis que eu te desse, mas queria. E continuou a buscar alguém que não quisesse te dar aquilo que não tinha. Eis, então, seu desafio: fazer alguém acreditar que tem aquilo que você quer e persuadi-lo a te dar aquilo que você quer que ele tenha (mesmo sem ter).

Enquanto isso eu permaneço aqui sem ter, mas ainda assim querendo te dar. E você não quer. Todavia não serei mais besta, não cairei na tentação de procurar alguém que não queira o que eu não tenho para que então eu tenha que convencê-la de querer o que eu não tenho e assim o aceite. Esse desafio eu não quero pra minha vida. Agora quem quiser que me convença a dar o que eu não tenho e ainda finja que não quer pra que eu sinta vontade de dar.

[Mente Hiperativa]

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Um café, um fantasma e um bom papo



Um café, um fantasma e um bom papo

O passado às vezes gosta de fazer uma visita surpresa, chega num dia de semana no fim da tarde e sem avisar bate à nossa porta. Quando abrimos e nos deparamos com aquele velho conhecido é inevitável o choque. Falta ar, as pernas tremem e por um instante desejamos até que aquele momento tivesse sido evitado. Mas é melhor assim, sem escolha, pois muitas vezes fato de encarar o passado é uma ótima forma de reeditar as lembranças, tornando-as mais saudáveis.

Pensando bem não há porque temer o passado quando se está com a consciência limpa, quando se agiu com honestidade. E mesmo que algum erro tenha sido cometido, essa é a hora de provar humildade e se redimir. Um encontro com o fantasma é sempre uma boa oportunidade de 'colocar tudo em pratos limpos' e sobretudo subir alguns degraus em direção à paz de espírito. É importante aproveitar essa chance pra selar o caminho de ambos com bastante prosperidade.

Por isso, logo que passou o susto convidei-o pra entrar, tomar um café e colocar o papo em dia. Por onde andou nesse tempo que esteve sumido? O que fez de bom? Conte-me sobre suas aventuras, tenho muito a dividir com você, caro fantasma, como nos bons e velhos tempos em que éramos parceiros.

[Mente Hiperativa]

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Vá se tratar, seu louco!


Vá se tratar, seu louco!


Lucila gosta de apreciar o cheiro de anjo que vez por outra “brota”, segundo ela, do teto de seu quarto e cai em sua cama como uma chuva de plumas. Andréa costuma passar o sábado à tarde conversando com seu avô e outras pessoas mortas enquanto toma café no terraço do antigo casarão da família. Os gêmeos Cláudio e Manoel mantêm seus objetos enfileirados e paralelos afim de evitar qualquer tipo de acidente ou situação de risco com os familiares; haviam descoberto logo na infância essa incrível capacidade de protegê-los. Quando uma abelha ou borboleta entra em seu apartamento, George se coloca em posição de meditação e repete o mantra sagrado da cabra-das-montanhas, pois acredita estar recebendo a visita da divindade em seu humilde lar.

Doutor Gregório não concebe que essas pessoas ajam de forma tão louca e permaneçam "soltas" por aí. Sua vontade é internar todos eles e submetê-los a um tratamento severo até pararem de fazer coisas estranhas. Particularmente, não estou bem certo quanto o diagnóstico... talvez seja loucura mesmo, ou apenas falta de imaginação e criatividade, mas de qualquer forma o Dr Gregório precisa se tratar com urgência!

[Mente Hiperativa]

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Emoções do (a)mar



Emoções do (a)mar 

São quatro da tarde na ilha da saudade, acabei de acordar sem a mínima coragem suficiente pra levantar e abrir as cortinas. Na verdade fujo do sol e de seus raios de felicidade que não conseguem me contagiar. Permaneço, então, no embalo da rede como uma criança a ser balançada nos braços da Mãe. Tento buscar alguma motivação que me leve a encarar o mundo lá fora; já se foram vinte minutos e não consegui mexer nem a pálpebra do olho. Por que você não está aqui ao meu lado pra me dar a força que preciso nesse momento? Depois de uma noite inteira de sonhos você sumiu e me deixou a ver navios... Fiquei de fato a sonhar.

Agora o sol já está bem longe, é inevitável, preciso abandonar o conforto e a segurança quase uterinos do meu quarto para encarar o mundo, arrisco passos inseguros em direção à porta de casa, observo o céu, azul como o mar, sinto o cheiro de maresia – tão seu – que me invade e bagunça minhas lembranças mais primitivas. Agora, sentado no batente da escada, contemplo a imensidão de água salgada e sinto o frio correr minha espinha, apesar do sol ainda não ter sumido completamente. O mar cheio de remorso e culpa vem se retratar a mim, fazendo do ir e vir de suas ondas um acalanto para tranquilizar minha alma calejada por seus duros golpes de outrora.

A essa altura suas águas já não me fazem qualquer convite, também não me assustam como antes; mesmo assim ainda tomo o devido cuidado de respeitar certa distância pra evitar que me façam mal. Logo abaixo encontro meu barco subindo e descendo ao sabor da maré, amarrado por uma corda grossa que o impede de se perder ou sair navegando sem rumo. 'Coragem', o nome dele. Ao vê-lo oscilando na superfície lembro-me das inúmeras aventuras que vivemos juntos, as boas e as ruins, mas todas bastante carregadas de emoção. Recordo que já naveguei muito por esse mar, entretanto hoje a coragem permanece presa à terra firme. E é assim que deve ser.

Já é quase noite e ao horizonte admiro inúmeros barcos navegando pelo oceano sem-fim, talvez sejam pescadores se lançando à sorte de retornarem com suas redes cheias. O meu barco permanece amarrado. As pessoas parecem divertir-se ao desafiar o lençol azul de água, certamente não têm noção do perigo, não imaginam o risco de serem engolidos e se afogarem... Quando dirijo meus olhos ao meu barquinho, frágil e repleto de remendos, de imediato me contagio com sua fraqueza e abandono. Então, penso logo: melhor assim, mantê-lo atracado é mais seguro, é mais prudente.

Desço a escada até a beira-mar, molho os pés na espuma das ondas e logo me escapa um subterfúgio: preciso fazer a barba! e volto pra casa rapidamente. Coloco uma música pra tocar, sirvo um cálice de vinho e busco abrigo no aconchego do meu quarto. Deito na rede e me balanço no embalo das ondas que vem e vão, afinal não preciso de 'Coragem' para viajar, a noite é longa e certamente me reserva um bom sonho de (a)mar.

LEIA TAMBÉM: Meu medo de (a)mar

                                      [Mente Hiperativa]

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Teu mal me fez Bem


Teu Mal me fez Bem

A maturidade me faz perceber que tudo que deveria ter sido ruim acabou de alguma forma se tornando bom, o universo me deu de presente boas pessoas que me acolheram com amor. Graças a ajuda delas consegui mudar o rumo da minha caminhada e escapar do destino infeliz que já era minha rotina. Não acredito que tenha sido sorte, mas oportunidades bem aproveitadas.

Hoje percebo que tua ausência deixou enormes espaços vazios e isso me fez correr atrás de algo pra me preencher. Sem saber você me deu uma ótima oportunidade de permitir o estreitamento com outras pessoas que se tornaram tão estimadas e importantes na minha vida.

As palavras rudes que você me dizia repercutiram em meus pensamentos, me fizeram sentir muita angústia e dor, mas apenas por um tempo. Depois a vida me ensinou a usar um escudo que me protegia das feridas que sua voz me causava. Daí em diante passei a perceber novos sons que antes eu não parava pra escutar, palavras doces e macias foram ofertadas a mim, vindas de outras bocas.

Hoje tuas atitudes não me atingem como antigamente, não me parecem mais socos e pontapés; são apenas suspiros que passam por mim como o vento. Apenas me arrepio, mas não me machuco; não sou mais vulnerável como já fui.

Mesmo sem querer me fazer mal, você fez. Entretanto, superei com maestria e hoje posso passar ao seu lado sem temer. Sou forte e construí uma muralha em torno de mim mesmo, formada por pessoas de mãos dadas que me amam e me amparam caso eu venha a cair. Não estou só nesse mundo e deixei de ser um alvo fácil. Desejo-te felicidade, pois cada um divide o que tem.

[Mente Hiperativa]

domingo, 12 de janeiro de 2014

Café e saudade


Café e saudade

Às vezes sinto muita saudade... mas luto contra a tentação de te procurar. Tomo uma xícara de café para aquecer a alma e me escoro na janela a pensar: será que você também pensa em mim?

[Mente Hiperativa]

sábado, 4 de janeiro de 2014

Reflexões de identidade no meio da madrugada


Reflexões de identidade no meio da madrugada

Nem só de crise vive o ser pensante, mas sobretudo de reflexões. E não há melhor horário do que a madrugada pra despertar os pensamentos mais abstratos e ilógicos possíveis, que no fim das contas nos conduzem por uma viagem de ideias e conexões entre a loucura e o verdadeiro sentido das coisas. Qualquer comentário pode parecer bobagem, mas cada gesto e figura representam um valor para aquele que o interpreta, afinal pra tudo há um sujeito oculto pelo nosso subconsciente.

E pensando na madrugada conclui que sou um cérebro o qual precisa de outros cérebros pra confabular ideias, sou tão coletivo quanto um bando de gnus atravessando a planície do Serengueti e tão inútil quanto um único neurônio isolado, incapaz de produzir qualquer sinapse. Sou unidade, sou amontoado que se perde na multidão e perde a individualidade sem perder a identidade.

Tenho um coração que busca a faca que o perfure sem dó nem piedade, preciso de lágrimas para mover meus sentimentos e fazer bater esse músculo esculpido em pedra sabão. Por isso, então, que quero sempre o fio da navalha a percorrer minha carne fazendo-a despejar o sangue vermelho, vivo, voraz, viajando vagarosamente pela minha alma. E se doer, suportarei até o fim a dor, pois ela me fará sentir vivo.

Lembro daquele dia que quis ficar sozinho, descobri que só não sou nada, senti-me um pedaço de vento sem poder correr, um aparelho de som flutuando no vácuo do universo, que grita mas não fala. Poderia ter nascido como um pedaço de grama no meio do gramado de um estádio de futebol, mas mesmo que tivesse nascido como um simples tufo ao lado de uma tampa de esgoto poderia ao menos tornar menos fétida a podridão que dela exala. E se eu fosse uma flor, que diferença faria adornar os cabelos de uma moça ou compor a coroa que presta uma homenagem póstuma num velório?

Sinto-me como uma vela a derreter sua cera quente, na missa ou no velório, na comunhão ou no aniversário. Sou o calor da vela, do corpo doente, em chamas, sou a vida transbordando do rio, da chaleira ou da sua paciência. Sou humano, sou um pouco disso tudo. Talvez eu não seja nada disso.

Fugi de casa pra não ter que dar satisfação a mim mesmo, talvez eu não queira me encontrar e me perca, mas posso me achar no primeiro bar da esquina, depois bater na igreja. E ainda assim eu não sei quem sou. Será que um dia vou saber? Aliás, será que preciso mesmo saber?

[Mente Hiperativa]

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Feliz amo novo


Feliz amo novo

Começou um novo ano, tempo de alimentar o combustível da vida que é o amor. Desejo a todos que tenham novas oportunidades de se reconciliar com pessoas que estão sem falar, que conheçam novos lugares apaixonantes, novas pessoas interessantes, sabores exóticos, paisagens, circunstâncias diversas. Continuem amando aqueles que já conquistaram um lugar em seu coração,  mas abram espaço pra mais gente. O amor é infinito e cabe numa palavra, num gesto, num olhar ou num toque. Quem ama nunca envelhece a alma e até nos momentos tristes reconhece um bom motivo pra sorrir. Que 2014 seja recheado de amor para todos nós. Amem.

[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Profundo como tudo que não tem fim


Profundo como tudo que não tem fim

Fizemos Nexo a noite inteira . Entre frases e beijos misturamos ideias com o cheiro da nossa pele, as palavras saíam de nossas bocas incorporadas em atitudes e até o gesto mais simples carregava um pouco de nossa essência ali exposta sem qualquer tipo de proteção. Estávamos nus, despidos de qualquer casca que pudesse proteger aquilo que carregávamos na alma. Éramos puro sentimento em conexão naquele instante.

Foi longo aquele encontro, parecia coisa de outra vida, vi seus sonhos expostos diante de minhas retinas fatigadas, expus os meus da forma sincera que uma criança faria, sem medo nem resguardo. E eles cresceram sem que precisássemos fazer nada. Senti o suor pingando e já não sabia mais se era meu ou seu tamanha era a comunhão de carne e pensamentos que vivenciávamos naquele momento.

Tão intensa foi a entrega que criamos uma ponte entre nossas mentes por onde fluiam banalidades e seriedades. Cheguei a me esquecer que éramos de carne e osso, alimentei-me de tuas emoções as quais fluiam constantemente a ponto de quase inundar o quarto. Ofereci em troca o meu calor.

Senti-me tão à vontade como poucas vezes me ocorreram na vida, só podia ter sido um arranjo celestial, universal, cosmicamente confabulado. E foram muitos os sorrisos e beijos - afagos na alma - amostras de afeto gerados em meio a um oceano de hormônios que borbulhavam em nós. Esqueci do tempo, esqueci do que me esperava lá fora. Restava apenas a certeza de que nada faria nexo depois daquele breve e eterno mergulho que demos juntos em nossa alma aquele dia.

[Mente Hiperativa]

domingo, 22 de dezembro de 2013

Inatingível perfeição


Inatingível perfeição

Por muito tempo você me exigiu a perfeição e eu, inocente, passei a persegui-la a todo custo até entender que não era a Minha perfeição que eu buscava, mas aquela que Você idealizou pra mim. Um dia me dei conta de que estava perdendo meu tempo e pior, a minha identidade, a minha auto-estima, o meu amor-próprio. E isso tudo apenas para agradar e obter o amor de uma pessoa que não cuidava de mim.

De tanto você falar e me cobrar eu acabei acreditando que precisaria ser perfeito, então tomei tal objetivo como meta de vida. O resultado aqui está: um indivíduo cheio de feridas, mágoas, dores, baixa auto-estima e sobretudo cheio de defeitos, aqueles que você adora me relembrar e tantos outros que eu mesmo crio sozinho.

Mas o tempo passou e eu amadureci, me questionei, sofri bastante e acabei descobrindo que não preciso do seu amor tampouco preciso atingir a perfeição idealizada por Você. Não foi fácil encontrar essa verdade e aceitá-la, mas foi um alívio imenso. Hoje eu sou livre, me sinto forte e poderoso, pois sei que mesmo cheio de defeitos eu sou perfeitamente aceito pelas pessoas que verdadeiramente me amam.

Desisti da missão que você me colocou, abortei o plano de atingir Seu ideal de perfeição, jogo seu conceito no lixo e desobedeço suas súplicas chantagistas de alcançar esse ideal. Desisto até do seu amor. Agora eu empenho minhas energias em cuidar das minhas feridas, remediar minhas mágoas e dores, cuido da minha auto-estima abalada e da minha fragilidade emocional. E sou amado.

Sinto-me um prisioneiro recém-saído do cárcere, a luz da liberdade  ofusca minha visão mas isso me causa imenso prazer. Não sei ainda pra onde vou, mas tenho convicção de que serei feliz onde for. Para o seu desalento ainda carrego em mim todas aquelas características que você julgava como defeito e agora mais uma que me fez afastar de ti e viver Minha vida: amor-próprio.

[Mente Hiperativa]

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Desatando o nós


Desatando o nós

Eu e você,
de laço frouxo
viramos nó cego.

Não dá mais,
não sei separar:
Emendamos!

E eu me perdi...
atado, unido
às suas cordas.

Ah, vou cortar
esse fio apertado
que nos une.

Quero ser
apenas eu só.
E não um nó!

[Mente Hiperativa]

sábado, 9 de novembro de 2013

Éramos felizes...



Éramos felizes...

Éramos tão felizes em nossos sonhos...
Em nossos mundinhos construídos e protegidos
Onde tudo funcionava perfeitamente bem
À nossa maneira

Até que a realidade brotou no meio de nós
Sufocando nossas idealizações bobas e lúdicas
Subjugando cruelmente nossos pobres desejos
A um mundo seco onde a fantasia é renegada

Eis que me pergunto, então:
O que restará de NÓS em meio a isso tudo?


[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Aproxi(a)mando



Aproxi(a)mando 

Mais uma vez ouvi tua voz
me convidando a te encontrar
Arrumei as malas bem veloz,
e saí pelo mundo a te buscar

Na bagagem, sentimentos puros
carrego somente pra te ofertar
Pra trás deixo aqueles mais duros,
na esperança de não ter que usar

Não sei o que em ti me encanta
você me deixa leve, flutuando no ar
Apareça e acabe com minha agonia
estou ávido por poder te tocar

Vaguei pela vastidão do infinito
e pra casa fui obrigado a voltar
Não encontrei esse amor tão bonito
porém jamais cansarei de procurar

Durmo esperando sua aparição
não vejo a hora de você me dar
Pistas para que o seu coração
eu possa finalmente alcançar

[Mente Hiperativa]

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Perca tempo!


Perca tempo! 

Desde muito cedo aprendi que na vida não podemos perder tempo, me ensinaram que o mais importante é estudar e trabalhar pra ter uma vida boa e que o resto é pura bobagem. Cresci vendo pessoas se esforçarem diariamente para alcançarem a estabilidade financeira num futuro próximo. Acreditei nessa história e pulei de cabeça nos estudos, levei o conselho tão a sério que demorei a me questionar sobre o que fazia da vida além de construir minha carreira profissional. E me assustei com a conclusão a que cheguei.

Percebi que vivo imerso num ciclo de estudo e trabalho tão intenso que muitas vezes nem me dou conta de que há vida além da carreira profissional. Quando criei coragem de sair e conhecer o mundo lá fora constatei que não sou o único a perseguir obsessivamente minhas metas; muitos estão cegos para a vida e ainda não se deram conta disso. Pessoas assim, que vivem para o estudo e trabalho, precisam reconhecer que há outras atividades igualmente enriquecedoras, que nos fazem crescer, garantem bem-estar, liberdade, prazer e outros valores necessários ao estabelecimento do nosso equilíbrio. É necessário nutrir a alma para que o indivíduo não padeça!

Depois dessa auto-análise profunda entendi que me ensinaram a lição errada, tratei então de ressignificar a “perda de tempo” em minha vida. Descobri que além de permitido é também recomendável perder tempo de vez em quando, é essencial à saúde mental e à manutenção do bem-estar. E por falar nisso, já chegou diante da janela pra observar como está o dia lá fora? Pare e repare no mundo que grita e te convida a vivê-lo. A todo instante as coisas estão acontecendo, porém passamos o dia inteiro atolados em um milhão de serviços atrasados e inadiáveis enquanto deixamos de contemplar as sutilezas da vida, o milagre de cada novo dia.

Pare alguns minutos e observe ao seu redor, veja o sol brilhando no céu, sinta a brisa da noite, contemple os pombos que voam e colhem migalhas de comida no chão, as crianças correndo pra lugar algum, feche os olhos e ouça os sons do ambiente, decifre-os, deleite-se com as sensações as quais não tem tempo de curtir quando está preso no trabalho e na rotina cansativa do dia a dia. Perca tempo, é a dica que lhe dou, pare tudo agora e “faça nada” por alguns instantes. Esqueça tudo que lhe disseram sobre “não se pode perder tempo na vida”, perca sim.

Por várias vezes me vi completamente desconcentrado em meus estudos, me senti perdido e fracassado, cheguei a imaginar que possuía algum déficit cognitivo ou distúrbio, mas na verdade tudo não passava de uma necessidade mal interpretada a qual exigia da minha mente algum descanso. Quase caí na besteira de recorrer a medicamentos ou de me entregar à onda de pensamentos derrotistas, várias vezes não me senti capaz de manter o ritmo frenético e exigente a que nos submetemos quase sem perceber. Eu só precisava parar um pouco, perder tempo.

Numa dessas ocasiões resolvi largar na mesa os meus livros e deixar um pouco de lado minhas metas, fui passear sem rumo. Esqueci propositadamente o relógio na gaveta da cômoda, calcei um par de tênis velhos e fui correr no parque carregando no rosto um sorriso de esperança - misto de alívio e satisfação. Deixei em casa todos os meus compromissos e naquele momento me senti leve, permiti que essa sensação tomasse conta de mim e me desobriguei a carregar por algumas horas o peso da responsabilidade e de minhas próprias cobranças. Fugi do caminho trivial e optei pelos mais longos, quis mudar os ares, vi pessoas que jamais havia encontrado e que provavelmente moram no mesmo quarteirão que eu, senti cada árvore do caminho, deitei na grama do parque, me lambuzei ao comer um picolé como fazia quando era criança. Pensei na vida, na morte da cabrita, no coelhinho da páscoa, na viagem que quero fazer nas próximas férias, sonhei, esvaziei a mente, relaxei como há muito tempo não fazia. Perdi muito tempo até voltar pra casa, exausto. Liguei o rádio, preparei um jantar caprichado, tomei um banho morno e depois li alguns poemas antes de dormir, deixando assim todo o trabalho para o dia seguinte. Foi uma enorme perda de tempo na minha vida, mas depois disso minha alma estava renovada e minha mente extremamente acalmada.

Em seguida, a semana se comportou de maneira diferente, pareceu mais leve, tudo era motivo de riso. Os colegas de trabalho não conseguiam entender porque eu estava tão bem humorado diante de tantas metas complicadas e compromissos estressantes, trabalho acumulado, afazeres, listas de problemas; a maioria estava desesperada à beira de um ataque de nervos, como tantas vezes já fiquei. Agora não fico mais, pois aprendi a reservar um espaço na minha agenda pra “perder tempo”.

Hoje não me permito mais sufocar com a rotina, de vez em quando largo tudo e sumo, perco tempo da vida aproveitando-a intensamente, não ligo quando me dizem que é besteira ler um livro que nada tem a ver com minha profissão ou quando passo horas sentado na areia da praia a contemplar a lua cheia e me acham louco por conta disso. Tolos são os que acreditam ganhar tempo ao acumular trabalho; me desculpem, mas perder tempo é fundamental!

[Mente Hiperativa]

terça-feira, 2 de julho de 2013

Uni-versos




Uni-versos

Joguei meu corpo celeste no colosso imaterial do espaço, em meio a cometas, meteoros, poeira cósmica. Vago pela imensidão desconhecida de puro vácuo e escuro sem fim, mas sigo firme a procura de outra dimensão infinita que me caiba por inteiro. E se consentirem as estrelas, posso até me mudar para o seu universo em expansão. Dependerá apenas de Marte, se Vênus assim quiser.

Farei minha galáxia Índigo fundir-se à tua, Fúscia, num choque perfeitamente inelástico. Criaremos assim uma cor inédita, cheia de luz-própria, união de nossas essências. E te provarei que a teoria dos universos paralelos é pura balela científica. Cruzaremos nossas dimensões numa equação de solução X, sendo tal incógnita o incontável conjunto de números reais: racionais ou irracionais - assim como eu e você. Afinal somos tão primitivos em se tratando de algarismos. E sentimentos ímpares.

Então, logo que transpusermos a barreira do tempo e do espaço, seremos uma sintonia transbordante de ignorância e amor, desconhecedores de qualquer lei (humana) da física clássica ou moderna. Despidos de qualquer consciência matemática navegaremos além do mar cartesiano de certezas pragmáticas e prepotência humana. Não precisamos disso, afinal o amor desconhece e não se submete a quaisquer regras numéricas.

Assim será, quando meu corpo largado encontrar o teu  no vácuo das idéias, onde somente a luz poderá nos conduzir, perdidos, um ao outro. E quanto às partículas subatômicas que por ventura o nosso enlace possa arrancar, falta alguma farão ao espaço sideral. Até mesmo ele sobreviverá à nossa sede de engolir inteiro um ao outro, como faria um buraco negro a um organismo espacial qualquer. Somente o amor é verdadeiramente infinito.

[Mente Hiperativa]

sábado, 29 de junho de 2013

A alternativa


A alternativa


Há algumas semanas apresentava sintomas persistentes, depois de alguns exames alterados descobriu-se grave enfermidade que poderia tirar-lhe a vida em curto prazo de tempo, caso não fosse medicada corretamente. Internou-se, portanto, para tratamento em caráter de urgência. Desde então sua rotina jamais foi a mesma, o sono passou a ser curto e entrecortado, seu organismo sofreu enorme desgaste e profundas olheiras de sofrimento passaram a tingir seu rosto. Além disso, os remédios fortes que tomava e o intenso cansaço lhe aguçavam ainda mais tal desconforto, as acomodações hospitalares também não eram nada acolhedoras. O clima frio tomava conta não só do quarto, mas de sua alma, e isso tornou seu prognóstico pouco animador.

Ao mesmo tempo em que tentava aceitar sua condição, observava com desgosto os tubos que lhe conduziam ar às narinas, lembrando-se que até o mês passado conseguia respirar enquanto agora se sentia incapaz até de fazer isso. Remédios eram oferecidos em intervalos rigorosamente cronometrados e provocavam reações adversas insuportáveis: dor de cabeça, de estômago, náuseas e mal-estar, entre outros. Os apitos constantes das máquinas já não incomodavam, havia se acostumado com toda aquela barulheira do mesmo jeito que também não se assustava tanto ao passar a mão na cabeça e se dar conta de que não havia cabelo, somente uma lanugem áspera a espetar a palma de sua mão.

Sua aparência não era das melhores, estava muito abatida e por isso evitava ao máximo se olhar no espelho, perdera a vitalidade e com ela a vaidade que tinha anteriormente. Estava muito magra, magra e desidratada, pois de vômito em vômito perdia líquido em demasia, apesar do soro que ingressava pelas suas veias. E como não bastassem as agulhadas quase diárias de coleta de sangue, a cada três dias trocavam o acesso venoso furando-lhe novamente noutro ponto do braço ou até mesmo da mão. Com o passar das semanas ficou parecendo uma peneira cheia de furos.

Seguiu essa nova rotina, dia após dia, sempre aguardando uma melhora que nunca se mostrava. E assim um novo esquema era implantado, uma nova fase, novos remédios, porém a cura nunca se fazia plena. Parecia até uma tortura medieval, mas os médicos asseguravam que era um “mal” necessário, o “único” caminho para assegurar sua saúde. Não lhe restava escolha senão esperar e se submeter à terapêutica convencional.

Às vezes tinha vontade de fugir dali, mas não tinha como fazer isso, não tinha nem forças. Queria desistir, queria ficar boa, queria... Queria que tivesse sido diferente. E a cada garfada de arroz branco e grudento com purê de batata sem gosto tentava esquecer tal realidade, comia com esforço, apenas esperava que aquilo acabasse logo e pudesse retornar à sua rotina boba de muito trabalho e pouco tempo livre. Pensou em se cuidar mais quando saísse dali, mas logo lembrou que teria muito trabalho acumulado e não poderia se dar ao luxo de deixá-lo em segundo plano.

Suportou até onde deu, sofreu com os remédios, se desiludiu com a falta de perspectivas e implorou por alguma outra saída para seu sofrimento. Sentia sua mente esgotar-se diante daquela rotina dolorosa, estava morrendo aos poucos apesar de tanto aparato à sua volta, de tantos cuidados e drogas. Diante disso, tomou uma importante decisão: iria voltar pra casa e aguardar pelo fim.

Levantou-se da cama arrancando os aparelhos de seu corpo como quem tomava posse de si novamente, mas ao colocar o primeiro pé no chão em direção à liberdade levou um enorme tombo e caiu num surto de fraqueza e tontura. Acordou na mesma cama, mas dessa vez acompanhada por uma enfermeira ao seu lado, segurando sua mão. A ela contou sua decisão de sair dali e aguardar o fim dos seus dias em casa, longe de aparelhos, injeções e pessoas vestidas impecavelmente de branco. Foi um choque pra toda a equipe de saúde, ninguém concordava com tamanha loucura de recusar-se à quimioterapia, seria um suicídio, um absurdo! No entanto nada podiam fazer além de argumentar contra a escolha daquela mulher insana que queria a todo custo morrer em sua residência. E como ninguém podia prendê-la, deixaram que ela fosse.

Após recuperar parcialmente sua vitalidade ela saiu do hospital e mudou-se para um sítio pouco afastado da cidade em que vivia, alugou por uma temporada uma bela e confortável casa onde se instalou por tempo indeterminado. Sabia que mais cedo ou mais tarde a doença a levaria embora, mas recusou-se a passar o fim dos seus dias vivendo artificialmente como quem luta com a divindade e sua imensa sabedoria. Levou alguns remédios, tirou uma boa quantia de dinheiro no banco e enfiou-se no meio do mato pra curtir o pouco tempo que ainda lhe restava de vida.

A nova vizinhança quase nada sabia a seu respeito, tampouco suspeitava que carregasse dentro de si uma bomba pronta pra explodir a qualquer instante - seis meses, segundo arriscaram alguns médicos mais pretensiosos. Preferiu que os vizinhos não soubessem de nada, não queria receber olhares de pena ou julgamento. O povoado que agora habitava era bastante receptivo de modo que ela logo fez amizade com a maioria deles, promovendo festas animadas em sua casa, com fartura de comida e boa música, ao vivo. Dançou muito, fez da vida uma eterna comemoração e experimentou cada dia como se fosse verdadeiramente o último. Aos fins de semana recebia parte de sua pequena família, o que fazia a festa dentro do seu coração ser ainda maior que o habitual.

Pouco mais de dois anos se passaram e a vida no campo parecia lhe fazer muito bem. Desde que saiu do hospital e se mudou ela adquiriu novos hábitos, mais saudáveis, passou a acordar bem cedo com o canto do Galo, se alimentava melhor, sorria bem mais do que na cidade. Todas as manhãs, ainda de camisola, ela ia até a sacada do quarto pra contemplar o nascer do sol e ouvir também o canto dos sabiás, bem-te-vis e outros pássaros cujos nomes desconhecia. Gostava de fechar os olhos e respirar pausadamente o ar puro enquanto o som das aves penetrava doce em seus ouvidos. Essa simples atitude fazia sentir-se viva a cada manhã, tão viva que às vezes até esquecia que dentro de si crescia uma massa maligna de nome impronunciável.

Depois de um banho morno de banheira e um café da manhã reforçado, descia até a horta pra cuidar de suas ervas, criava também galinhas de capoeira, patos e cabras. Não queria se ocupar com porcos, cavalos ou outros animais maiores, evitava qualquer trabalho pesado. Passava o dia executando pequenas atividades e apesar da doença levava uma vida normal. Entre uma tarefa e outra o dia acabava logo, mas não sem oferecer-lhe uma sensação intensa de prazer em estar viva. Esse passou a ser o seu tratamento alternativo.

Todos os dias ao cair da tarde ela sentava no balanço do jardim como quem realizava um pequeno ritual, tirava as botas e o chapéu jogando-os na grama, balançava ritmicamente enquanto admirava as flores cultivadas com tanto amor e carinho. A essa altura o sol estava alaranjado e pintava o horizonte em despedida, era a hora de agradecer por mais um dia de vida. Desejava fortemente que mais uma manhã pudesse vir logo adiante, lembrava de quando estava no hospital cercada por máquinas e canos invasivos, mas agora tinha o conforto da natureza ao seu lado. Contava com a cumplicidade da vida no campo pra perpetuar os instantes que ainda podia desfrutar.

Depois de sua reflexão diária se recolhia em casa e já vestida com seu pijama arrumava-se pra dormir, nunca tinha certeza se acordaria ou não, mas por via das dúvidas preferia dormir sempre bem penteada e bonita. O dia seguinte seria festa e os vizinhos já sabiam que encontrariam muita alegria na casa daquela jovem senhora, tão feliz que ela era. Parte da comida já estava pronta na cozinha, as roupas haviam ficado penduradas no varal lá fora pra que o vento da noite as secasse. Algumas flores recém-colhidas adornavam os vasos da sala e perfumavam o ambiente. Ela soprou firmemente as velas, fez o sinal da cruz e se cobriu em mais uma noite fria. O som dos grilos e das rãs quebrava o silêncio. Ela cruzou as mãos em cima do peito e fechou os olhos, apagando na imensidão escura da noite.

[Mente Hiperativa]

terça-feira, 25 de junho de 2013

Re-encontro



Re-encontro

Depois de quase três anos o destino nos colocou outra vez cara a cara, dando-nos assim uma chance de reforçar laços já enfraquecidos pelo tempo. Ao revisitar teu apartamento enxerguei-me marcado em cada uma de suas paredes, como se por acaso pedaços de mim tivessem ficado ali, impregnados nos lençóis do teu quarto, em meio às garrafas vazias que sobraram de nossas farras. Eram os destroços sobreviventes da nossa relação a qual ainda guardo como boa lembrança daquele tempo.

Ao adentrar novamente no seu lar – e na sua vida – observei atentamente cada centímetro quadrado e constatei que pouca coisa mudou desde a última vez que estive ali: os quadros são os mesmos e permanecem na mesma posição, as esculturas no chão e nas mesas, origamis pendurados por cordões de lã, xilogravuras, quase nada foi mexido de lugar, até as fotografias ainda são as mesmas. Apenas um jacaré de cerâmica ‘habita’, agora, um canto da sala. E fico a imaginar que tipo de amigo te deu essa peça nova. À minha inspeção não escapou teu rosto, que sustenta o mesmo sorriso lindo de antes, apenas um ou outro cabelo branco pareceu-me novidade e ainda assim te conferiu um ar mais maduro, um charme adicional. Teu corpo também não ficou devendo nada ao tempo, está em plena forma.

Deitamos no sofá pra conversar, o mesmo sofá que nos aconchegou tantas e tantas vezes. Ah, se ele falasse teria muitas histórias boas pra contar, pois assunto nunca nos faltou. Não pude deixar de notar de imediato seu novo revestimento estampado de pássaros voando em direção aos galhos de uma árvore. Mas felizmente continuava sem poder contar nossos segredos. Repousamos, então, em seus galhos esperando que os pássaros viessem dar asas às nossas mentes. Assim, viajamos mais uma vez em longas e intermináveis conversas.

A tarde correu e em meio a um assunto e outro nos acomodávamos como podíamos naquele sofá pequeno, tu se aninhava em meu peito pedindo proteção e eu achava aquilo bom demais. Fiz carinho no teu cabelo ao mesmo tempo em que varri o ambiente com meus olhos, afinal precisava me certificar de tudo que mudou, ou ter certeza de que estava tudo como deixei. Notei a velha bagunça de sempre na mesa da sala, os papéis espalhados, as pilhas de CDs e os marcadores de livros, um prato com uma generosa fatia de pé de moleque e uma empada de camarão estavam cobertos por um vidro. O computador, pequenas estátuas e um catálogo de moda pareciam esquecidos no chão, mas eu sabia que era mania sua deixá-los ali.

Enquanto você se remexia e se acomodava nos meus braços eu continuava minha exploração visual pela cozinha: azeites, pimentas, castanhas-do-Pará, geléias e vodkas. Tantos outros ingredientes que um desavisado pensaria que és chef, mas a mim você não engana, te conheço e sei que mal sabes cozinhar. Um cheiro forte de canela vinha da cozinha e incensava a sala enquanto o vento corria de janela a janela e nós conversávamos coisas sérias ou bobagens.

Em meio ao papo perguntei disfarçadamente quem havia te presenteado com aquele jacaré e você disse que tinha comprado numa feira de artesanato na ilha de Marajó. Preferi acreditar a imaginar outras coisas, mas você conhece meu jeito desconfiado e na tentativa de dissimulá-lo sugeri que colocasse uma de suas playlists pra tocar. De imediato você foi ao quarto atender meu pedido e logo me chamou, mordendo a isca em cheio. Quando abri a porta senti o vento frio do ar-condicionado a nos esperar, a cama baixa nos atraía enquanto o edredom reforçava tal convite. Vi tuas roupas espalhadas pelo chão, amassadas dentro de uma mala entreaberta e jogadas no cabide. Pensei por um instante que eu tão organizado jamais me adequaria à sua imensa capacidade de bagunçar tudo; tinha medo, inclusive, que acabasse bagunçando minha vida. Tratei de apagar a luz pra esquecer tudo o redor, passei a te enxergar somente com as mãos, ao som da playlist #Tropicália.

Depois de inúmeras faixas de Rita Lee, Gil e Caetano, chegamos naquele momento em que tudo se esvazia dentro de si, procurando algum sentido que não faz qualquer sentido. A razão logo cedeu lugar ao prazer e a cama ficou pequena demais pra caber tanto sentimento, até que ao fim de tudo nossos corpos se reorganizaram no universo e se reencontraram no tempo e no espaço. E depois de tomar consciência da realidade, fiquei calado, de olhos fechados, apenas sentindo meu coração acelerado, a respiração profunda, tua pele ardendo junto à minha e aquela sensação de formigamento na Alma. Fechei os olhos, contemplei o instante, abri os olhos e vi o teto branco, depois vi você com um belo sorriso me esperando voltar do transe. Dormimos abraçados.

O dia amanheceu e eu precisava ir embora, logo mais você também ia levantar pra trabalhar, mas por enquanto fingia dormir pra não ter que me ver partir. Sinto que meu cheiro ficou impregnado nos teus lençóis. Escovo os dentes na pia do banheiro ao mesmo tempo em que massageio os pés no tapete colorido que você trouxe do Agreste. Me aproximo de ti e te dou um beijo, você não abre os olhos nem se mexe, mas sei que é porque odeias despedidas. Saio do quarto deixando nas paredes pedaços de mim e você sorri sem perceber que te espio do lado de fora, pela fresta da porta. Vou embora com saudade, não sei se volto amanhã, em uma semana ou se o destino nos afastará novamente por mais três anos. Só sei que guardo boas lembranças de ti, deixo também qualquer coisa boa em teu coração.

[Mente Hiperativa]

sábado, 15 de junho de 2013

Sítio solidão


Sítio solidão

Assisto o céu lá fora
desabar em chuva;
aqui dentro, confuso
emaranhado de ideias.

O ponteiro do relógio
marca segunda-feira.
E não sobrou amor
para o café da manhã.

[Mente Hiperativa]