quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Saber usar o dinheiro


Saber usar o dinheiro

Assim como a água que bebemos todos os dias e logo a devolvemos à sua origem, o dinheiro também paira nas nossas mãos e tão logo se dissipa no mundo. E o que resta de água? E o que resta de dinheiro?

Diante desse entra-e-sai acabamos do mesmo jeito que começamos, com as mesmas quantidades de água e dinheiro, parecendo até inútil esse fluxo constante que nos mantém no mesmo saldo e na mesma busca/eliminação. Poderíamos pensar como seria bom se tivéssemos uma determinada reserva deles e não precisássemos de suas entradas e saídas. Porém, ambos são determinantes para facilitar diversos processos que sem eles seriam impossíveis. Sendo assim, fica fácil observar que a importância deles não reside no fato de acumulá-los, tampouco na quantidade que entra ou sai. É importante notar que eles têm importantes MEIOS, e não FINS.

A água é fundamental à diversas reações que nos mantém vivos; o dinheiro também. A água, por força da sábia natureza, conhece intuitivamente o seu papel no organismo de modo que ela própria age conforme nossas necessidades sem que precisemos conduzi-la. O dinheiro, no entanto, depende de nós pra ser empregado, podendo ser usado pra o bem ou pra o mal, pra nos garantir luxo e ostentação ou solidariedade e crescimento. Como você tem empregado seu dinheiro e aproveitado seus MEIOS para que justifiquem seus FINS?

[Mente Hiperativa]

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O mendigo, a sociedade e o processo de desumanização



O mendigo, a sociedade e o processo de desumanização

Vestia roupas sujas e maltrapilhas que lhe conferiam uma camuflagem de causar inveja até ao exército Americano, confundia-se facilmente com a calçada, com os muros e qualquer outro tipo de edificação própria da selva de pedra. Sua capacidade de se misturar à paisagem era tão grande que causava a impressão de ser parte do cenário, uma espécie de objeto colocado sobre o chão, encostado num poste ou esquecido à beira de uma lixeira. Quem passava pela calçada não se incomodava com a sua presença, a maioria sequer o notava ali, imóvel e silencioso. Ainda assim, os poucos que o percebiam desviavam o caminho e faziam pouco caso com seu estado mórbido e miserável.

Aquele cidadão carecia de saúde e isso ficava evidente ao observá-lo com atenção. Ostentava uma aparência nada apreciável, sujo e desleixado, usava ainda uma barba espessa e acinzentada que diante do escurecer típico do fim de tarde poderia ser facilmente confundida com um arbusto. Mas apesar do estilo despojado, ele não era hippie, tampouco adepto de uma nova corrente de moda alternativa ou estilo transgressor, apenas perdera qualquer interesse no que diz respeito ao auto-cuidado; e pensando bem, quem chega ao estágio em que ele se encontra não deve se preocupar se sua barba parece um arbusto selvagem. Viveu tantos anos marginalizado nas ruas que foi progressivamente se entregando a um estado de total apatia e falta de amor-próprio, não se preocupava mais com a limpeza e higiene, perdera a vaidade e qualquer tipo de preocupação com o que os outros podiam pensar a seu respeito. Afinal o que ele representava para os outros? Absolutamente nada! A cada dia ficava mais claro que havia sido incorporado à paisagem local, aos olhos da sociedade deixara de ser gente pra se transformar numa coisa qualquer, inválida. Sendo assim, porque deveria se preocupar com o que poderiam pensar a seu respeito? Sentia-se invisível diante das pessoas, e talvez realmente fosse.

Diante desse processo de coisificação da pessoa, aliado à total falta de perspectiva, o pobre senhor se mantinha sentado no chão, estático, como um monte de lixo aguardando o caminhão passar e os garis o recolherem. Olhei pra ele por alguns segundos e foi o suficiente pra constatar sua situação de pleno abandono, sendo bastante triste perceber que uma pessoa tenha sido relegada a esse estágio, igualada a lixo. Rapidamente constatei que ninguém sequer o olhava, não tinha valor algum, nem parecia ser humano como nós; apenas alguns transeuntes o percebiam devido ao seu cheiro forte e desagradável, que lhes causava asco e incômodo. Notei que seus olhos não se mexiam, pareciam fixos em algum ponto do infinito, seus membros também não esboçavam qualquer movimento, jazia ali na calçada como um corpo sem vida. Talvez ele tenha sangue correndo nas veias, talvez seu pulmão se encha e se esvazie de ar várias vezes por minuto, mas será que isso é o suficiente pra garantir que esteja vivo?

Aproximei-me dele com receio e cumprimentei-o com um boa noite. Diante de seu silêncio eu repeti o "boa noite", ele apenas mexeu os olhos, mas manteve a boca cerrada. Depois perguntei se tinha fome, ofereci um lanche, ele me ignorou completamente. Talvez estivesse achando estranho alguém falar com ele, não parecia ser algo corriqueiro. Além disso, provavelmente ele se encontrava desiludido com toda a espécie humana, e não lhe tiro a razão quanto a isso; mas também é possível que estivesse com algum problema neurológico secundário à desnutrição e carência de nutrientes. Ele não demonstrava qualquer interesse em interagir comigo, tentei estabelecer algum tipo de comunicação, mas foi em vão. Em seguida, procurei um lugar próximo pra comprar comida, mas não havia. Fui embora com remorso por não ter ajudado aquele pobre senhor de rua, recordei as vezes que ajudei tantos outros. Fiquei pensando na sua situação em específico e desconfio que a sociedade obteve êxito em sua coisificação, tornaram-no parte da paisagem, um mero objeto sem função ou valor. Receio que o pobre senhor infelizmente tenha acreditado nisso e tomado como verdade, integrando-se ao ambiente e rendendo-se ao processo de desumanização.

[Mente Hiperativa]

sábado, 26 de janeiro de 2013

Não me faça chorar



Não me faça chorar

Pediu-me pra não falar na chuva
sobre o amor.
Mas sempre canto na chuva,
canções de amor.
É triste a chuva, ela pensa.
Acho triste o amor.
Talvez por isso casem tão bem,
a chuva e o amor.

[Mente Hiperativa]

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

As horas


As horas 

Levantou pra ver as horas, ou simplesmente constatar a passagem do tempo. Procurou o canto dos pássaros, afinal já havia amanhecido, mas apenas ouvia as vozes da sua cabeça. Bateu ela repetidas vezes contra a parede como quem busca certo alívio, que não vinha. Deitou novamente e repousou um sono incansável. Queria ouvir o canto dos sabiás e bem-te-vis, quem sabe até sentir um deles empoleirado em seu dedo indicador. Queria poder voar pra longe... Mas não havia espaço suficiente no cômodo em que vivia, também não tinha janelas e a porta era mantida sempre trancada. No silêncio contrariado adormeceu, sem ao menos saber as horas. Antes de deitar-se pôde constatar que o relógio havia parado no tempo.

[Mente Hiperativa]

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O meu silêncio fala. E até mata.



O meu silêncio fala. E até mata.

Às vezes ouço tantos absurdos que me calo diante deles. São inúmeras as palavras agressivas tentando me ferir, além de calúnias falaciosas e todo tipo de abuso gratuito dirigido à mim. Depois de tantos episódios semelhantes aprendi que não adianta discutir certas coisas com determinadas pessoas; falar é alimentar a sua ira desmedida e permitir que tal ciclo vicioso permaneça vivo. Diante disso eu calo, não digo nada, nem que sim, nem que não, e espero que meu silêncio transmita minha profunda indiferença em relação às palavras que não pude evitar de ouvir. Se não posso matar a pessoa que fala tamanhos absurdos, posso ao menos sufocar suas verdades absolutas e fazer com que engula o próprio veneno que a matará mais tarde. Não mato ninguém, jamais o faria, porém quem tenta fazer mal a outrem e não consegue acaba por se intoxicar dia após dia, traçando seu próprio destino, inevitável.

[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Confissões de um extraterrestre



Confissões de um extraterrestre

Sinto-me perdido nesse mundo hostil de pessoas rudes e incompreensíveis, que julgam antes de estender a mão, que olham atravessado ao invés de estabelecer uma simples conversa. Não consigo me adaptar, não me sinto em casa, não crio laços fortes, nem ambições humanas demais.

Tenho vontade de me transportar pra outra dimensão bem distante, pra minha verdadeira casa, pra uma gruta isolada no meio de uma floresta virgem. Queria poder sumir daqui e não ter que ver ninguém, nem ouvir voz alguma por pelo menos algumas semanas, ou quem sabe alguns meses ou anos. Preciso de férias da humanidade!

Mas sei que não é possível, tenho consciência de que estou aqui pra travar contato com esses seres, preciso aprender a lidar com eles e trabalhar minha inabilidade em expressar minhas vontades e pensamentos com palavras e atitudes, já que eles não podem escutar o que se passa dentro de mim sem que eu assim me expresse.

Preciso aprender a me fazer entender, pois difícil seria explicar a eles o modo peculiar que sei me comunicar: sem palavras, sem sons, apenas com o olhar e a intuição. É difícil demais lidar com os humanos, muito difícil, mas a cada dia junto forças não sei de onde pra prosseguir com essa dura tarefa. Vamos lá...


[Mente Hiperativa]

sábado, 12 de janeiro de 2013

Sexo: uma perda de tempo inevitável!



Sexo: uma perda de tempo inevitável!

O sexo é um grande atrapalho na vida, antes mesmo de praticá-lo já nos vemos às voltas com o nosso corpo, encontramos mil defeitos, nos envergonhamos dele e evitamos expô-lo desnecessariamente. Desde o principio sentimos medo da rejeição, tememos que o outro não nos aprove e nos deixe por conta disso.

Depois dessa fase começa a busca incessante por outra pessoa, queremos não apenas conquistá-la, mas também ser desejado, elogiado, saciado em nossas vontades primitivas e desejos proibidos. Procuramos alguém que nos agrade, mas é difícil encontrá-la uma vez que aquela pessoa bonita parece muito arrogante, a simpática é muito baixinha e desengonçada, a que tem um belo corpo é feia de rosto; a única que nos atrai em todos os sentidos é comprometida ou não sente atração por nós. Mas continuamos a busca.

Enfim, depois de ter perdido boa parte da vida procurando, um dia conhecemos alguém que nos completa e nos dá o amor que tanto esperamos. Então não demora muito até passar ao nosso lado um par de coxas atraentes, donas de um olhar sedutor, e jogamos tudo pra cima em troca de algumas horas de prazer. Assim, logo colocamos tudo a perder. E não é que o amor tenha fraquejado nesse momento de infidelidade, ele se mantém forte como antes, mas o desejo falou mais alto e nos revelou alguma insatisfação até então escondida. Depois dessa escapada, se não conseguimos contornar o conflito gerado, voltamos à estaca zero e toda busca se inicia novamente.

Caso tenhamos superado a fase de aventuras paralelas, seja por omissão ou próprio enfrentamento da questão junto ao outro, inevitavelmente com o passar dos anos a relação acaba por entrar numa fase de estagnação na qual o desejo esfria e torna o sexo menos intenso e aproveitável. É chegado o outono da vida, momento em que a relação se torna mais sedenta por companheirismo do que noites regadas a fantasias sexuais condenáveis e libidinosas. Assim, o sexo se enfraquece.

Desse modo, o sexo nos faz perder boa parte do tempo à procura de migalhas de prazer. Muitas vezes largamos tudo que foi construído pelo amor em troca de uma noite ardente, e no dia seguinte sofremos um remorso absurdo devido a tamanha loucura que foi cometida. O sexo é bom, muito bom, mas a maior parte da vida adulta envolve rejeição, música triste e pornografia ruim; somos movidos pelo sexo, mas ele não nos leva a lugar algum. Às vezes é sensato concluir que seria melhor não sentir o prazer sexual, mas o que fazer se o desejo insiste em correr nas nossas veias e pulsar no nosso corpo? Como não se entregar a ele?

Não adianta lutar contra, o sexo é uma perda de tempo inevitável!

[Mente Hiperativa]