quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Amor que faz doer



Amor que faz doer

Amor que machuca, que castiga e pune. Depois acaricia e beija as feridas que ele mesmo causou. Amor que maltrata, pisa e depois abraça com ternura por medo de perder. Há quem diga que isso não é amor, há quem desista facilmente de pessoas assim, sem querer investir mais um dia sequer. O amor é quase sempre bom, mas às vezes faz doer.

São poucos os que se submetem às atrocidades dessa estranha forma de amar. Quase ninguém aguenta por muito tempo se submeter às provas dolorosas que esse tipo amor exige. É realmente difícil ter que lidar com o lado mais cruel da pessoa amada, algumas parecem exigir que suportemos isso para poder ter certeza de que a amamos na sua integridade. Sem aceitar o seu lado mais sombrio e indesejado, o amor não seria pleno.

Pode parecer loucura ou absurdo da minha parte, mas o amor não é todo romantismo, nem é sempre doce como relatam nos livros. Por isso que muitos têm medo de amar, na verdade têm medo de sofrer por amor. Não tenho a menor certeza de que seja possível amar sem sofrer, tampouco acredito ser concebível viver uma relação repleta somente de felicidade. E no momento em que o amor mostrar sua face mais perversa, não saberei o que fazer.

A maioria das histórias de amor terminam diante do primeiro percalço, muitos largam tudo de positivo que foi construído por conta de meia dúzia de palavras duras, ou mesmo abandonam e desistem da relação por uma soma de momentos difíceis. Às vezes o amor se acaba -ou é friamente assassinado- diante da impossibilidade de se viver "felizes para sempre". Algumas pessoas, no entanto, resistem a essas provas e com o tempo não sentem mais tanta dor diante das atrocidades cometidas em nome do amor; suas almas se tornam calejadas diante de tanto sofrimento e é isso que as permite seguir adiante.

Será esse o caminho do amor pleno?

[Mente Hiperativa]

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O sexo e o resgate do amor pleno da infância



O sexo e o resgate do amor pleno da infância


O sexo é a tentativa de retorno às vivências da infância, fase na qual somos apresentados bem de perto ao amor incondicional e à aceitação plena.

Durante a infância temos a certeza de que somos amados - e muito amados - pelas pessoas que nos cercam; essa é provavelmente a fase mais feliz na vida de uma pessoa. Note que ninguém tem receio de tocar uma criança, ao contrário, elas despertam em nós um desejo irresistível de enchê-las de beijos, abraços, carícias e cuidados. Não temos nojo de suas secreções nem do seu cheiro, pois nada nela parece sujo ou proibido, tocamos sua pele e colocamo-la em contato direto com a nossa, ela anda nua pela casa sem problema algum. E não importa se a criança é negra, branca, gorda ou magra, todas sem exceção são lindas e impecavelmente perfeitas.

A criança é amplamente aceita pelo simples fato de existir e tudo que ela faça é motivo para boas gargalhadas, basta ela sorrir, gritar ou sacudir um objeto qualquer no chão. Tudo que ela faz é lindo, puro, e inspira um amor infinito. Nenhuma parte do seu corpo é proibida nem nada que ela faça é condenável, até que ela cresça.

Sendo assim, como passar do tempo a criança vai deixando de despertar risos frouxos por qualquer motivo banal, seu desempenho passa a ser continuamente avaliado através de provas, notas, medalhas e resultados. O seu corpo precisa agora ser escondido, primeiro as partes genitais, depois a barriga, os seios, as pernas e tudo mais. O carinho e os beijos se restringem ao rosto, às vezes nem tocam mais as bochechas, sendo apenas algo simbólico. Os apertos de mão e as palavras muitas vezes cedem lugar ao contato de pele a pele. E cadê aquele amor todo que faz uma falta imensa?

Eis então que descobrimos o sexo, e esse parece ser o caminho de resgate daquele amor da infância, da aceitação do nosso corpo do jeito que somos, da irrelevância de nossos pequenos “defeitos”. O carinho se torna tão ou mais abrangente que outrora, os beijos deixam de se concentrar nas bochechas e colonizam todo o corpo, que volta a ser novamente puro e limpo.

No sexo buscamos nos entregar a uma união íntima, física e emocional, com alguém que cuide e ame a nós independentemente de qualquer outra coisa. Essa pessoa vai rir de qualquer bobagem que fizermos, vai resgatar aquela sensação de amor pleno da infância e mostrar que tudo continua como antes, permitindo que sejamos tão felizes quanto num dia muito distante já fomos.


[Mente Hiperativa]

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Macacos me mordam


Macacos me mordam

Sonhei que macacos se atacavam na minha sala, se mordiam e se agrediam até tirarem sangue uns dos outros. Senti medo, mas os macacos não me viam, ou se me viam me ignoravam completamente. Passei pela sala e fui à cozinha, bebi água e voltei passando pela sala. E os macacos agora, feridos e sangrando, se acariciavam e catavam piolhos uns dos outros como se nada, absolutamente nada, tivesse acontecido. Pareciam se amar apesar de toda aquela agressão e violência.

Depois disso tudo eu acordei e quando passei pela sala vi as paredes meladas de sangue, pelos de macaco no chão, móveis e outros objetos quebrados. Além disso, os corpos dos macacos estavam estirados no chão, mortos.

A vida não é como os sonhos.

[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Revolução afetiva




Revolução afetiva

É tempo de rever as relações e promover uma espécie de coleta seletiva no campo afetivo, selecionando o que pode ser reciclado e jogando fora todo o lixo relacional que não apresenta qualquer reciprocidade. Aproveito, então, a proximidade do ano de 2013 para firmar o meu compromisso comigo mesmo de fortalecer os laços vigentes e deixar esfalecer os vínculos fracos que muitas vezes ainda insisto em tentar remendar. É uma grande tolice achar que se pode dar vida a algo morto ou que uma relação qualquer pode ser mantida sozinho, de forma unilateral.

O amadurecimento hoje me permite enxergar o quão é inútil insistir numa relação que não apresenta comprometimento mútuo, é perda de tempo e energia. Por isso, usarei todo meu esforço pra estreitar laços saudáveis, fortalecer o que me faz bem, dar valor a quem me ama. E com quem não me dá a devida atenção serei duramente recíproco, entregando ao tempo toda e qualquer responsabilidade de apagar os resquícios do passado.

Cansei de dar murro em ponta de faca e perder tempo com pessoas que não merecem, vou ocupar-me apenas com quem me ama. É preciso saber a hora de se dar por vencido e reconhecer a própria derrota, afinal o fracasso muitas vezes é o ponto de partida para a próxima vitória. Diante disso, encerro aqui muitas de minhas expectativas e enterro bastantes pessoas debaixo de kilos e kilos de frustrações. Nesse terreno fértil eu planto as novas sementes que me trarão doces frutos na próxima colheita. Assim espero.

[Mente Hiperativa]

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

domingo, 16 de dezembro de 2012

Tenho uma deficiência, tenha pena de mim e me sustente



Tenho uma deficiência, tenha pena de mim e me sustente

Certo dia eu estava no ônibus voltando da universidade, cansado de um dia de trabalho e estudo, e um cidadão joga no meu colo um pequeno papel. Isso mesmo, ele joga, não oferece nem pede licença, simplesmente sacode o papel num gesto robotizado e segue adiante distribuindo papeizinhos no colo dos outros passageiros. No bilhete havia escrito: "sou surdo, por favor me ajude com 0,50R$, 1R$ ou 2R$ para eu terminar de construir minha casa." Não sei se é verdade ou mentira, mas de qualquer forma não lhe dei qualquer trocado e explico já o porquê.

Minha vontade imediata foi escrever no verso do papel: "Já pensou em trabalhar pra ganhar dinheiro?" Mas permaneci quieto até que ele veio recolher o papel e eu o entreguei de volta. Poucas pessoas lhe deram moedas e eu as compreendo. Sou uma pessoa generosa, tenho o coração imenso, mas não é por isso que saio distribuindo dinheiro a todos que me pedem. É preciso ser crítico e saber dizer não. Ajudo aqueles que trabalham a despeito das suas limitações, ajudo com comida, com uma palavra amiga, com remédio. Procuro não me deixar levar pelo sentimentalismo e apelos emocionais que muitas vezes as pessoas tentam nos despertar; alguns o fazem porque têm mau-caráter, outras por mera acomodação e não podemos ser vítimas de nenhum deles.

Ao saber disso, algumas pessoas me julgam insensível, dizem que eu não tenho pena de uma pessoa assim, que pede dinheiro por necessidade. Tenho pena sim, pena dele ser tão acomodado a ponto de achar que uma limitação o impede de levar uma vida normal, pois já vi muita gente com limitações iguais ou maiores que trabalham, casam, têm filhos, saem na rua, estudam e fazem todo tipo de coisa que uma pessoa sem deficiência pode fazer. Por outro lado, já vi inúmeros casos de pessoas que fingem necessidades especiais apenas pra ganhar dinheiro fácil, e pior, alguns usam o dinheiro que recebem pra cheirar cola, comprar crack ou bebidas alcoólicas.

Então, o que eu digo é que não fui sempre assim tão cético, à princípio eu me deixava levar pela conversa e sempre ajudava, depois fui enxergando que não há coitadinhos nem vítimas e que embora a vida possa nos empregar algumas dificuldades a forma como reagimos a elas muda tudo. O mesmo surdo que estava ali pedindo dinheiro e vivendo da esmola dos outros tem plena capacidade de estudar ou trabalhar e ganhar bem mais sem precisar depender da boa vontade alheia. É uma questão de atitude e se você me disser que não há oportunidades pra ele eu digo que as oportunidades não caem do céu, mas brotam no suor da testa de cada um. Se hoje ele não tem condições de encontrar um emprego certamente poderá encontrar um trabalho digno, pode vender algum produto, efetuar algum serviço, basta querer pois o mundo está cheio de oportunidades pra quem quer trabalhar. Pode faltar emprego, mas trabalho não falta.

Por essas e por outras que eu não alimento o coitadismo e me recuso a sustentar vagabundo que não quer trabalhar e não se esforça pra merecer cada centavo que lhe entrego. Admiro quem luta e não se entrega às dificuldades da vida, tenho repúdio aos que se escondem atrás de uma deficiência ou qualquer outra condição pra levar a vida na moleza. E se pareço duro demais é porque a vida não é mole pra mim, ela me ensinou que é preciso perseverar pra atingir seus objetivos e ser alguém na vida. Eu não espero que nada caia do céu, não desperto a pena dos outros pra que possa viver deles numa vida mansa, eu luto pra ter uma vida boa e tenho as minhas dificuldades e limitações como qualquer um tem. Por que, então, os outros não podem trabalhar e lutar ao invés de ficar aguardando esmolas?

[Mente Hiperativa]

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Adeus, Dezembro




Adeus, dezembro 

Todo vez é isso, é só chegar o fim do ano que a culpa e o remorso tomam conta da sociedade. Nessa época todos se tornam bonzinhos, mesmo que seja apenas aparência ou mera “obrigação social”. Natal é tempo de pagar os pecados, de arrepender-se do que fez, sobretudo do que não fez. E é nessa hora que todo mundo lembra de agir, mesmo que seja por pressão social, mesmo que seja fingimento, nessa hora todos fazem de conta que fazem e se engajam em confortar o próximo. Parece até que eles só precisam de apoio uma vez ao ano. E depois? Depois voltamos ao “normal” que é a triste realidade desumana, cruel e egoísta na maioria das vezes... Mas em Dezembro não, em Dezembro todo mundo é perfeito, solidário e amável.

No mês de Dezembro a pobre idosa que sempre fez as refeições abandonada na cozinha é chamada à mesa pra celebrar o natal com o resto da família, os mendigos de rua que são sempre esquecidos ganham um prato de comida, roupas e até brinquedos, o porteiro que é humilhado pelos moradores do prédio ganha uma cesta de natal, o menino Jesus que passa o ano inteiro sendo ignorado aparece o tempo todo na televisão. O mês de Dezembro é um mês estranho, pois apesar de não ser carnaval as pessoas usam fantasias e encarnam personagens, encenando papéis diante do público. Na época do natal a sociedade vive uma enorme farsa e é tudo tão previsível e forçado que causa asco lidar com esse tipo de pessoa. É nojento ouvir certas pessoas falando que compraram “X” cestas básicas e doaram pra instituição “Y”, falam isso como se quisessem dar uma satisfação, como se cumprissem a sua cota anual ou fizessem isso por obrigação. O que esperar de pessoas assim?

O mesmo ocorre na família, que é nossa micro sociedade, pessoas distantes física e emocionalmente se reencontram e fingem saudades, trocam presentes e no fim da noite se separam até o próximo encontro anual em comemoração ao nascimento do menino Jesus. E o amor novamente não passa de uma encenação teatral, o verdadeiro sentimento se perde em meio a tantos presentes, roupas caras, fofocas e comilança.

Por essas e por outras que espero ansiosamente que Dezembro acabe logo, conto os dias pra acabar esse teatro e eu posso ver as pessoas como elas realmente são. Prefiro uma verdade amarga a uma mentira doce, por pior que sejam é melhor que mostrem a cara. Janeiro, chegue logo e traga consigo a oportunidade de começarmos de novo, de fazermos tudo diferente, de sermos pessoas melhores. Dezembro engana, mas Janeiro nos dá a verdadeira oportunidade de melhorarmos enquanto pessoa e sociedade.

[Mente Hiperativa]