segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Revolução afetiva




Revolução afetiva

É tempo de rever as relações e promover uma espécie de coleta seletiva no campo afetivo, selecionando o que pode ser reciclado e jogando fora todo o lixo relacional que não apresenta qualquer reciprocidade. Aproveito, então, a proximidade do ano de 2013 para firmar o meu compromisso comigo mesmo de fortalecer os laços vigentes e deixar esfalecer os vínculos fracos que muitas vezes ainda insisto em tentar remendar. É uma grande tolice achar que se pode dar vida a algo morto ou que uma relação qualquer pode ser mantida sozinho, de forma unilateral.

O amadurecimento hoje me permite enxergar o quão é inútil insistir numa relação que não apresenta comprometimento mútuo, é perda de tempo e energia. Por isso, usarei todo meu esforço pra estreitar laços saudáveis, fortalecer o que me faz bem, dar valor a quem me ama. E com quem não me dá a devida atenção serei duramente recíproco, entregando ao tempo toda e qualquer responsabilidade de apagar os resquícios do passado.

Cansei de dar murro em ponta de faca e perder tempo com pessoas que não merecem, vou ocupar-me apenas com quem me ama. É preciso saber a hora de se dar por vencido e reconhecer a própria derrota, afinal o fracasso muitas vezes é o ponto de partida para a próxima vitória. Diante disso, encerro aqui muitas de minhas expectativas e enterro bastantes pessoas debaixo de kilos e kilos de frustrações. Nesse terreno fértil eu planto as novas sementes que me trarão doces frutos na próxima colheita. Assim espero.

[Mente Hiperativa]

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

domingo, 16 de dezembro de 2012

Tenho uma deficiência, tenha pena de mim e me sustente



Tenho uma deficiência, tenha pena de mim e me sustente

Certo dia eu estava no ônibus voltando da universidade, cansado de um dia de trabalho e estudo, e um cidadão joga no meu colo um pequeno papel. Isso mesmo, ele joga, não oferece nem pede licença, simplesmente sacode o papel num gesto robotizado e segue adiante distribuindo papeizinhos no colo dos outros passageiros. No bilhete havia escrito: "sou surdo, por favor me ajude com 0,50R$, 1R$ ou 2R$ para eu terminar de construir minha casa." Não sei se é verdade ou mentira, mas de qualquer forma não lhe dei qualquer trocado e explico já o porquê.

Minha vontade imediata foi escrever no verso do papel: "Já pensou em trabalhar pra ganhar dinheiro?" Mas permaneci quieto até que ele veio recolher o papel e eu o entreguei de volta. Poucas pessoas lhe deram moedas e eu as compreendo. Sou uma pessoa generosa, tenho o coração imenso, mas não é por isso que saio distribuindo dinheiro a todos que me pedem. É preciso ser crítico e saber dizer não. Ajudo aqueles que trabalham a despeito das suas limitações, ajudo com comida, com uma palavra amiga, com remédio. Procuro não me deixar levar pelo sentimentalismo e apelos emocionais que muitas vezes as pessoas tentam nos despertar; alguns o fazem porque têm mau-caráter, outras por mera acomodação e não podemos ser vítimas de nenhum deles.

Ao saber disso, algumas pessoas me julgam insensível, dizem que eu não tenho pena de uma pessoa assim, que pede dinheiro por necessidade. Tenho pena sim, pena dele ser tão acomodado a ponto de achar que uma limitação o impede de levar uma vida normal, pois já vi muita gente com limitações iguais ou maiores que trabalham, casam, têm filhos, saem na rua, estudam e fazem todo tipo de coisa que uma pessoa sem deficiência pode fazer. Por outro lado, já vi inúmeros casos de pessoas que fingem necessidades especiais apenas pra ganhar dinheiro fácil, e pior, alguns usam o dinheiro que recebem pra cheirar cola, comprar crack ou bebidas alcoólicas.

Então, o que eu digo é que não fui sempre assim tão cético, à princípio eu me deixava levar pela conversa e sempre ajudava, depois fui enxergando que não há coitadinhos nem vítimas e que embora a vida possa nos empregar algumas dificuldades a forma como reagimos a elas muda tudo. O mesmo surdo que estava ali pedindo dinheiro e vivendo da esmola dos outros tem plena capacidade de estudar ou trabalhar e ganhar bem mais sem precisar depender da boa vontade alheia. É uma questão de atitude e se você me disser que não há oportunidades pra ele eu digo que as oportunidades não caem do céu, mas brotam no suor da testa de cada um. Se hoje ele não tem condições de encontrar um emprego certamente poderá encontrar um trabalho digno, pode vender algum produto, efetuar algum serviço, basta querer pois o mundo está cheio de oportunidades pra quem quer trabalhar. Pode faltar emprego, mas trabalho não falta.

Por essas e por outras que eu não alimento o coitadismo e me recuso a sustentar vagabundo que não quer trabalhar e não se esforça pra merecer cada centavo que lhe entrego. Admiro quem luta e não se entrega às dificuldades da vida, tenho repúdio aos que se escondem atrás de uma deficiência ou qualquer outra condição pra levar a vida na moleza. E se pareço duro demais é porque a vida não é mole pra mim, ela me ensinou que é preciso perseverar pra atingir seus objetivos e ser alguém na vida. Eu não espero que nada caia do céu, não desperto a pena dos outros pra que possa viver deles numa vida mansa, eu luto pra ter uma vida boa e tenho as minhas dificuldades e limitações como qualquer um tem. Por que, então, os outros não podem trabalhar e lutar ao invés de ficar aguardando esmolas?

[Mente Hiperativa]

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Adeus, Dezembro




Adeus, dezembro 

Todo vez é isso, é só chegar o fim do ano que a culpa e o remorso tomam conta da sociedade. Nessa época todos se tornam bonzinhos, mesmo que seja apenas aparência ou mera “obrigação social”. Natal é tempo de pagar os pecados, de arrepender-se do que fez, sobretudo do que não fez. E é nessa hora que todo mundo lembra de agir, mesmo que seja por pressão social, mesmo que seja fingimento, nessa hora todos fazem de conta que fazem e se engajam em confortar o próximo. Parece até que eles só precisam de apoio uma vez ao ano. E depois? Depois voltamos ao “normal” que é a triste realidade desumana, cruel e egoísta na maioria das vezes... Mas em Dezembro não, em Dezembro todo mundo é perfeito, solidário e amável.

No mês de Dezembro a pobre idosa que sempre fez as refeições abandonada na cozinha é chamada à mesa pra celebrar o natal com o resto da família, os mendigos de rua que são sempre esquecidos ganham um prato de comida, roupas e até brinquedos, o porteiro que é humilhado pelos moradores do prédio ganha uma cesta de natal, o menino Jesus que passa o ano inteiro sendo ignorado aparece o tempo todo na televisão. O mês de Dezembro é um mês estranho, pois apesar de não ser carnaval as pessoas usam fantasias e encarnam personagens, encenando papéis diante do público. Na época do natal a sociedade vive uma enorme farsa e é tudo tão previsível e forçado que causa asco lidar com esse tipo de pessoa. É nojento ouvir certas pessoas falando que compraram “X” cestas básicas e doaram pra instituição “Y”, falam isso como se quisessem dar uma satisfação, como se cumprissem a sua cota anual ou fizessem isso por obrigação. O que esperar de pessoas assim?

O mesmo ocorre na família, que é nossa micro sociedade, pessoas distantes física e emocionalmente se reencontram e fingem saudades, trocam presentes e no fim da noite se separam até o próximo encontro anual em comemoração ao nascimento do menino Jesus. E o amor novamente não passa de uma encenação teatral, o verdadeiro sentimento se perde em meio a tantos presentes, roupas caras, fofocas e comilança.

Por essas e por outras que espero ansiosamente que Dezembro acabe logo, conto os dias pra acabar esse teatro e eu posso ver as pessoas como elas realmente são. Prefiro uma verdade amarga a uma mentira doce, por pior que sejam é melhor que mostrem a cara. Janeiro, chegue logo e traga consigo a oportunidade de começarmos de novo, de fazermos tudo diferente, de sermos pessoas melhores. Dezembro engana, mas Janeiro nos dá a verdadeira oportunidade de melhorarmos enquanto pessoa e sociedade.

[Mente Hiperativa] 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Indiferença que mata



Indiferença que mata

Espero sinceramente que você nunca me procure pra cobrar alguma atenção, ou pior ainda, que venha reclamar pelo meu tratamento indiferente. Não te ofereço indiferença alguma, na verdade nunca ofereci, apenas devolvo a indiferença que recebo de você e não é de hoje. Talvez um dia você perceba que sempre partiu de você esse sentimento, talvez nunca entenda isso e ainda assim viva bem. Definitivamente eu não sei o que se passa na sua cabeça; na minha eu comecei a entender faz pouco tempo.

A princípio eu sentia tua indiferença e aguentava calado, eu sofria, mas tentava contornar a situação da melhor maneira possível. Depois me iludi achando que poderia cultivar a relação sozinho, mas aprendi que toda relação necessariamente é bilateral. Senti medo, senti culpa, mantive a paciência, fiz de tudo pra amenizar os atritos, tentei compensar as ausências, errei por sustentar sozinho tanto tempo as duas pontas, a minha e a sua. Chegou uma hora que não suportei mais, então parei de me dedicar a nós e passei a cuidar de mim, apenas de mim. No começo eu sofria em ter que fazer assim, mas hoje compartilho do seu sentimento, estou indiferente quanto a isso.

No fim das contas o tempo não foi perdido, ao menos tenho a consciência tranquila de que fiz tudo o que estava ao meu alcance, me empenhei ao máximo, mas a sua parte eu não poderia fazer ainda que fosse a minha vontade, é impossível. Hoje eu parei, cansei de aguardar alguma retribuição, cooperação, ou qualquer tipo de solução vinda de você; entrego ao tempo, ele que resolva.

Não me importo mais com o 'nós', ainda que isso me cause uma pequena dor peito. E saiba que dói cada vez menos. Desisti de segurar o peso da nossa relação sozinho, soltei-a e deixei que se espatifasse no chão. Não me preocupo mais. Não me culpo mais. Se um dia você resolver arregaçar as mangas pra tentar fazer dar certo então me convença de que eu devo também tentar; por ora acho que não tem mais jeito e me recuso a dar um pouco mais do meu empenho, já o gastei demais. Ou então deixe nossa relação quebrada em mil pedaços no chão, partida, acabada. Morta. Acho que é isso que você vai fazer mesmo.

Espero que um dia se dê conta de que pôs tudo a perder, que destruiu uma coisa tão bonita. Talvez não dê tempo de recuperar o passado; quem sabe ainda dê tempo de não perder mais tempo adiante. Mas o que passou já foi perdido, estamos perdendo um pouco a cada dia. Será que você não nota?

[Mente Hiperativa]

domingo, 25 de novembro de 2012

Meu medo de (a)mar


Meu medo de (a)mar 

Lembro como se fosse ontem a primeira vez que me deparei com a imensidão do oceano, sou capaz de descrever as sensações que me acometeram em tal ocasião. Primeiro me senti amedrontado diante do seu tamanho, tive medo de ser engolido pelas suas águas imponentes, medo de me perder naquele infinito azul que mais parecia emendar com o céu. Por alguns segundos ainda me desafiei a fechar os olhos para me sentir tomado por ele, eis que fui dominado por uma terrível sensação de afogamento. Faltou-me o ar, me senti sufocado, e então abri os olhos rapidamente pra me certificar de que estava sob a proteção da terra firme e que aquilo tudo não passava de um devaneio da minha cabeça. Depois disso foi difícil entrar novamente no mar.

Passado o susto, me dei conta de que a despeito do medo sentia também um enorme fascínio pelo oceano, ele conseguia de alguma forma me encantar e me seduzir. Sinto-me convidado a invadi-lo, ao mesmo tempo em que tenho receio de suas águas. É mesmo contraditório falar sobre ele e mesmo depois de tanto tempo do nosso primeiro encontro ainda hoje ele me deixa bastante confuso. Quando me encontro com oceano sinto uma tensão que toma conta de mim e me divide entre o desejo e o medo. Não tenho coragem de pular de cabeça em suas águas, mas queria que fossem calmas o suficiente para que eu pudesse mergulhar devagar.

Ainda assim visito o mar, gosto de admirá-lo sentado na areia. De longe ele me parece tão calmo, aprazível, que se eu não tivesse um dia entrado em suas águas até acreditaria ser isso verdade, mas o conheço de perto e sei dos seus perigos, da sua correnteza e profundidade assustadora. Por isso prefiro me guardar a certa distância, embora às vezes me arrisque a chegar perto e permitir que ele me molhe os pés. Tento me manter afastado, mas uma hora ou outra acabo cedendo aos seus chamados, hesito, me entrego, mas sempre volto em direção à areia, pois sei que boia alguma será capaz de me salvar desse mar infinito.

Em algumas dessas aventuras acabo adentrando demais nas suas águas, além do que acho que deveria, e quando me dou conta a água já cobre meu pescoço. É tarde demais. Momentaneamente me sinto seguro, mas logo uma onda forte me abate, sinto o gosto salgado na boca, não sei se é do mar ou de minhas lágrimas, e por mais que eu bata os pés e mãos acabo me afogando, penso que não vou suportar e quando acordo estou na beira da praia. Ao recuperar a consciência prometo a mim mesmo jamais me aventurar pelo mar de novo, mas quando dou por mim estou só com os pés na água, devagar e cheio de medo, mas estou lá.

[Mente Hiperativa]

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Patinho feio


Patinho feio

Sempre fui uma criança tímida e extremamente calada, daquelas que não sorri e só se aproxima de alguém em troca de um doce, nunca por um abraço ou beijo. Com o tempo fui aprendendo a lidar com as pessoas, porém apenas no meu ambiente familiar conseguia me sentir plenamente confortável, ainda assim com certa ressalva. E fora daquele lugar me sentia completamente vulnerável, deslocado, e exposto a todo tipo de situação incômoda. Por isso sempre tive medo das pessoas, elas me pareciam estranhas, falavam e agiam de uma forma que eu não era capaz de entender.

Depois, na adolescência, a situação ficou ainda pior por que tive a confirmação de que eu era realmente diferente de todos aqueles que me rodeavam; não era só impressão minha ou coisa da minha cabeça, a cada dia eu recebia provas concretas disso. Sei que cada um carrega uma essência única, mas há certos valores e comportamentos que são intrínsecos aos grupos sociais e eu não compartilhava da maioria deles. Sendo assim, não me sentia encaixado em canto algum desse mundo, me isolava e sofria retaliação por ser dessa forma tão estranha, por sentir e pensar diferente da maioria deles.

Hoje sou adulto e só agora começo a entender que de fato não sou igual aos outros e quais as repercussões atreladas à essa singularidade. Algumas pessoas pensam que sou bobo e tentam me usar, outras se esquivam do contato comigo por julgarem que não tenho juízo adequado. Quanto à essas pessoas não posso forçá-las a lidarem comigo de uma forma saudável, mas tenho tantas outras que mesmo não sendo iguais a mim tentam me entender e isso já me conforta bastante. Não quero acreditar que minha 'esquisitice' me torne inferior a eles, por mais que tentem me fazer pensar assim, também não quero que ela seja empecilho pra lidar com os outros.

Diante de tantos atritos com a vida e tantas angústias aparentemente sem sentido, acabei aprendendo que não adianta lutar contra ela ou contra todos; é perda de tempo e sofrimento em vão. Não há sentido fugir de sua própria missão, se estou nesse lugar diferente e rodeado de pessoas diferentes é por que tenho algo a fazer aqui. Agora eu tenho consciência de que vim aqui pra aprender com eles, e quem sabe ensiná-los alguma coisa também. É possível que a minha forma 'estranha' de enxergar o mundo sirva de motivo para nos intrigar e nos aproximar, gerando discussões proveitosas e troca de experiências com enriquecimento mútuo.

[Mente Hiperativa]