sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O apagão e o fim do mundo


O apagão e o fim do mundo

Era tarde da noite e eu estava na minha humilde residência navegando na internet quando de repente tudo ficou escuro, minha sala, o prédio, a vizinhança, o céu, tudo enegrecido e apenas as luzes dos carros passantes iluminando as ruas desertas. Carros que corriam desesperados em direção às suas casas, pessoas aflitas, vizinhos vagando perdidos com lanternas na mão, gritos intercalando o profundo silêncio da noite. Era um blecaute, ficamos todos sem luz e o pior de tudo, sem internet.

Nesse momento me senti aliviado por estar em casa, pensei em como estaria a situação lá fora, pessoas gritando, correndo, com medo, assaltos, acidentes, atropelamentos, praticamente o caos do fim do mundo. Lembrei de diversos filmes que assisti em que nessas as pessoas ficam transtornadas, parecem zumbis, passam por cima umas das outras e até matam sem saber porque, todos loucos pra chegar em casa ou qualquer outro lugar seguro.

Sendo assim a primeira coisa que fiz foi ligar para meus familiares mais próximos a fim me assegurar de que todos estavam seguros em casa, logo depois fui à janela observar o que aconteceria, queria ver algum espetáculo. Esperei naves alienígenas imensas, com luzes que piscam e mudam de cor, não sei se produziriam sons ou chegariam imponentes e silenciosas. Imaginei que logo o céu estaria repleto delas, clareando a escuridão como quem traz a esperança. Pensei que haveria uma revolução, que se abririam portais, que seriam selecionados os híbridos para dar continuidade à vida noutro planeta, como uma releitura da arca de Noé em pleno século XXI. Tive medo da outra possibilidade, mas também considerei que poderiam apenas dizimar toda a raça humana.

Esperei bastante e nada aconteceu, nenhuma nave sequer, nem um risco luminoso no céu, apenas poucas estrelas insistiam em brilhar a despeito da escuridão. Tive medo que houvesse uma chuva de meteoros e estes destruíssem a Terra como fizeram no tempo dos dinossauros, ou quem sabe uma chuva ácida derretendo tudo, vulcões brotando do chão como dragões que jorram fogo, enfim, algum acontecimento digno de uma superprodução Spielberguiana que justificasse a falta de energia elétrica. Queria algum motivo que não fosse um tolo erro humano ou defeito no circuito elétrico. A essa altura já estava sabendo que o blecaute havia atingido também outros estados e isso reforçou minha ideia de que algo estava errado, havia algum plano secreto sendo executado. Pensei que podia ter atingido todo o país, quiçá o todo o mundo. Achei que era o fim.

Porém, contrariando as minhas expectativas catastróficas e apocalípticas nada aconteceu e eu já estava ficando entediado com aquela eterna espera. Ainda fiquei mais alguns minutos na janela esperando algo surgir na escuridão, mas acabei convencido de que não antecipariam o fatídico 21 de dezembro de 2012 e até o presente momento os tudo indica que os Maias acertaram, pelo menos até o presente momento. Foi apenas um susto.

Então acendi uma vela e fui à cozinha, preparei um macarrão instantâneo, do tipo miojo, e jantei sozinho. Depois fui dormir, afinal era a coisa mais sensata a fazer, pois amanhã a rotina estaria de volta, faculdade, estudos, os mesmos problemas de sempre e todas as pendências a serem resolvidas. Dormi sem ver nenhum ET, nenhuma conspiração, nem meteoros ou bombas nucleares, ninguém me salvou da rotina e dessa vidinha mais ou menos, nem acabaram com meus problemas. Amanhã ninguém vai querer saber se faltou energia ou não, se dormi bem ou não, se fui atingido por um meteoro no juízo ou devorado por zumbis mortos-vivos. Houve apenas um apagão, e a vida prossegue ‘normalmente’.

[Mente Hiperativa]

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Mundo singular - entenda o autismo


Mundo singular - entenda o autismo
Resenha do livro de mesmo nome.

Os livros da Ana Beatriz Barbosa como sempre são muito interessantes, começam com uma abordagem despretensiosa sobre o assunto e acabam abrangendo uma gama de vertentes sobre ele. No caso de “Mundo singular” não foi diferente e ao terminar a obra, que é uma parceria da autora com Mayra Bonifacio Gaiato e Leandro Thadeu Reveles, me senti enriquecido com tanto conhecimento.

A maioria dos livros sobre o autismo se limita a falar sobre os sintomas e diagnóstico, o que pode ser bom pra começar, mas quem quer ou precisa saber mais sobre o assunto “Mundo singular” representa um aprofundamento fantástico. Nele encontramos desde os tópicos iniciais - como introdução ao transtorno autístico, espectro autístico, histórico, sintomas e diagnóstico do autismo - até a legislação que envolve o tema, o papel da escola, as possibilidades de tratamento, o funcionamento do cérebro autístico, suas peculiaridades, os relacionamentos, a vida profissional, dentre outros.

Outra característica interessante do livro é a análise detalhada de cada sintoma e suas diversas nuances, o que reforça a ideia de espectro do trantorno autístico (ETA). Ou seja, ao invés de apenas nomear os sintomas ou enumerá-los, os autores discorrem sobre cada um deles e abordam suas variações, permitindo que vejamos a enorme diversidade de autismos que podem ocorrer. Isso é importante para que abandonemos a ideia ultrajada de que todo autista não olha nos olhos, não fala, não interage, não tem sentimentos e apenas fica repetindo movimentos e grunhindo sons incompreensíveis. Eles são muito mais do que isso e os autores buscam combater o preconceito a partir da informação.

Um ponto que me chamou a atenção na obra foi a divisão do autismo em pelo menos quatro grupos: os indivíduos que têm traços autísticos, síndrome de Asperger, autismo de alto funcionamento e autismo clássico. O autismo clássico é facilmente diagnosticado e muitas vezes corresponde à ideia estereotipada que a maioria da sociedade tem sobre os autistas; a síndrome de Asperger e o autismo de alto funcionamento são bastante semelhantes; e os traços autísticos são o grande desafio da clínica, uma vez que os indivíduos podem passar a vida inteira sem saberem que são autistas e às vezes apenas descobrem na vida adulta, depois de uma coleção de pequenos sofrimentos.

O autismo é um assunto relativamente novo na sociedade, ainda se tem pouco estudo e pouquíssimas certezas, o tratamento precoce vem apresentando ótimos resultados, embora ainda não tenha a capacidade de cura. Acho interessante que se leia e se discuta sobre o assunto, nossa sociedade precisa se abrir cada vez mais para os ‘diferentes’ e aprender a lidar com eles, pois eles têm muito a nos ensinar.

[Mente Hiperativa]

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Um martelo que quebre paradigmas


Um martelo que quebre paradigmas

Quero um martelo moderno para quebrar antigos paradigmas, com gosto vou destruir cada telha de vidro que compõe seu telhado, deixar cair por terra todas as suas verdades, irei chutar cada pau que sustenta o seu bom e velho barraco. Eu quero ver seu mundo cair, vou conseguir fazer você ficar assim e não vou ter pena não.

As verdades precisam ser mudadas, pois eterna é apenas a ignorância. Hoje o espírito da destruição toma conta de mim, mas não é por mal, não é pra machucar embora eu saiba que vai doer um pouco. Sempre dói  amadurecer e expandir o próprio universo, mas depois tudo se acalma e cada ideia passa a ocupar o seu devido espaço.

Então vamos seguir com a evolução, pois quem fica pra trás come poeira e poeira tem gosto de passado. Andemos pra frente, pensando sempre, repensando, jogando fora e reciclando. Se me pergunta porque ando com o martelo da crítica e do questionamento é porque não quero ficar ultrajado, preso num velho mundo de certezas estáticas.

[Mente Hiperativa]

domingo, 21 de outubro de 2012

Novos termos que carregam novas ideias



Novos termos que carregam novas ideias

Ser normal é enquadrar-se no grupo da maioria, é estar contido nas estatísticas mais abrangentes, é compartilhar dos costumes e aparências mais comumente observáveis. Em se tratando de saúde mental percebo que hoje em dia cada vez mais se usa o termo ‘típico’ e ‘atípico’ em substituição a ‘normal’ e ‘anormal’, mas não é só esse campo que opera mudanças, muitos outros também se valem de novas denominações para provocar a REleitura de velhos conceitos.

À primeira vista pode parecer que nada mudou, porém a análise dos termos permite notarmos que o caráter das colocações muda completamente na medida em que abandonam o teor qualitativo pelo quantitativo. Assim, ser normal ou anormal implica necessariamente num julgamento, estes nomes classificam implicitamente o indivíduo em bom ou ruim. Já o típico e atípico se referem à frequência em que são vistos, sem trazerem arraigados a si qualquer tipo de hierarquia ou valor.

A todo instante as nomenclaturas utilizadas pela sociedade mudam e não é por acaso, poucos se dão o trabalho de interpretar o que falam, apenas perpetuam a mudança sem observar a inovação semântica. Alguns, inclusive, nem se dão ao trabalho de mudar, permanecem engessados nos termos antiquados e carregados de valores inadequados.

Fico feliz, muito feliz, a cada leitura que faço e leio sobre o desenvolvimento atípico na infância, sobre o comportamento atípico nos portadores de determinado transtorno. Em seguimento a esses textos quase sempre se discute as formas de tratamento com relação a essas pessoas, as maneiras de tratá-las e garantir-lhes qualidade de vida. E isso não se fazia no tempo em que eram classificados em normais e anormais, a discussão se encerrava nesse ponto como se por acaso os anormais não tivessem chance de progredir. A anormalidade era um decreto, o desenvolvimento atípico é um novo caminho, diferente.

Então por meio dessa análise eu tento abrir os olhos de quem ainda pensa que a mudança de uma palavra por outra não carrega profundas transformações no entendimento do comportamento humano. Pra você que acha que deficiente e aleijado são a mesma coisa, que caduco e idoso são sinônimos, diria que precisa prestar atenção ao sentido implícito em cada palavra que diz. Atente para o que fala, pois as mudanças não ocorrem em vão e quem não as compreende é porque não lê a respeito nem participa das mudanças ideológicas por trás de uma ‘simples’ mudança de termo.

[Mente Hiperativa]

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Sede de amor


Sede de amor 

Houve um tempo em que minha sede era do tamanho do mundo inteiro, eu bebia tudo num gole só e depois de cada overdose sempre passava mal. Isso pode parecer bastante óbvio, mas levei algum tempo para estabelecer tal relação de causa e conseqüência; no fim das contas cheguei à conclusão de que assim jamais saciaria satisfatoriamente as minhas demandas.

Depois de criar essa consciência - o que não foi fácil - embarquei num longo processo de reeducação emocional. Desde então aprendi a me controlar, busquei disciplina e, sobretudo, passei a exercitar a minha paciência, tão escassa. Às vezes é difícil manter a ordem sobre as próprias emoções, parece que um cachorro te puxa pela coleira e você precisa ser mais forte e segurá-lo firme. Com o tempo espero que esse cachorro, tão exigente que é, me obedeça pela minha ordem e não pela minha força bruta.

Ainda estou no meio do processo de aprendizagem e receio que esse não acabe tão cedo, porém diante dos discretos progressos que percebo já sou capaz de me sentir mais calmo. Hoje eu procuro a dose certa de cada coisa, nem mais, nem menos, não tenho mais a sede do mundo inteiro, mas sim da minha vida inteira.

[Mente Hiperativa]

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Diga-me o certo que te direi o errado


Diga-me o certo que te direi o errado 

Eu não sei do certo, pois acredito que o certo não exista. E como poderei ser certo se nem nele acredito? Pois se não sou certo, sou errado então, será? Que seja. Ao menos estou certo em ser errado, pois mesmo sendo errado pra você eu faço o que acho certo pra mim. Assim fico tranqüilo comigo mesmo, ainda que ninguém entenda minha opinião. E quer saber, sempre desconfiei mesmo que não deveria me preocupar demais com o que acham de mim, se me julgam certo ou errado. Quero mais é que fiquem com o seu certo, que é na verdade errado, e eu fico com meu errado que acaba sendo o certo pra mim.

Mas se o certo não existe – e o errado seria o oposto dele – concluo que o errado não existe também. Logo, não sou errado como pensávamos. Agora complicou, pois se antes eu me achava errado, agora sei que o errado não existe e por isso eu não sou errado. Não sou certo nem errado, sou o que então? Sou eu apenas. E você pensa que é certo, me julga como errado, mas você também não é um nem outro. Você é você, que comete erros e acertos pensando que detém poder sobre eles.

Eu já tenho consciência de que o certo e o errado não passam de criações de nossa cabeça, extensões dos nossos saberes viciados e limitados. O certo de agora pode se tornar o errado daqui a cinco minutos, ou daqui a uma descoberta científica. Ou simplesmente quando você decidir pra si mesmo que quer mudar de certo e errado. São conceitos plenamente mutáveis, e como podem mudar assumem diversas aparências dependendo da boca que vos fala, da mente que os estabelece.

Sendo assim, vamos acabar com essa história de certo e errado, engulam suas opiniões, seus conceitos, suas verdades e dogmas. O dono do certo e do errado é cada um de nós, cada qual com suas verdades. E quem sou eu pra dizer que está errado pensar diferente? Se por acaso você pensa que sabe o certo e o errado do mundo, é sua opinião, não posso nem lhe dizer que está errado pois estaria me contradizendo. Apenas posso aguardar que um dia se dê conta do quão viciado e sistematizado está sua linha de raciocínio e perceba como é pequeno seu mundo. O meu não para de crescer.

[Mente Hiperativa]

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Algo nos une



Algo nos une

Algo nos une, seja a descendência gaúcha, o gosto por queijo cheddar, a ausência de um time de coração, a profissão, a dificuldade de amar, o apreço pela solidão, o grito sufocado na garganta, a admiração pela arte, a fila do banco ou da padaria, o prazer de ler e escrever, a cinefilia, a admiração pelo pôr-do-sol, o excesso de sono, a eventual falta dele, a genética boa que não deixa engordar, a hipocondria, os bons valores de família, os olhos sempre atentos, a vontade de ajudar o outro, o medo de sofrer, o hábito de silenciar diante dos conflitos, a sede de viver, o desapego à tecnologia, a compaixão pelos animais, a descrença nas religiões, a crença na divindade, a necessidade de falar, a satisfação em ouvir, o olhar enigmático, a impaciência com tagarelices, o mau-humor matinal, o perfeccionismo seletivo, a dedicação aos projetos pessoais, a mania de criar tabelas e listas, a serenidade cotidiana, a cólera episódica, a oscilação de humor, os estranhos desejos, a incompreensão a certas pessoas/atitudes, a tentativa de abraçar o mundo, o deleite ao comer chocolate, a volúpia diante do sexo, o desprezo pelo telefone celular, a noção de que somos todos um, o gosto pelo anonimato, o descontentamento com (parte da) humanidade, o sorriso largo e os dentes generosos.

Dentre essas e tantas outras características como você pode dizer que não tem nada a ver comigo? Estamos todos conectados; algo nos une.

[Mente Hiperativa]