quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Autismo - Não espere, aja logo!


Autismo - Não espere, aja logo!
Resenha do livro de mesmo nome que fiz para o skoob.


Esse não é o primeiro nem será o último livro que leio sobre o autismo, porém sua abordagem diferencial sobre o assunto me entusiasmou bastante. Digo que é diferente pois a maioria dos livros sobre autismo (e saúde mental, de uma forma geral) são escritos por psiquiatras, neurologistas, psicólogos e outros estudiosos da área. Sendo assim, a linguagem geralmente é técnica e ainda que seja plenamente entendível aos leigos não deixa de guardar certo distanciamento profissional acerca do assunto que trata.

O livro "Autismo - não espere, aja logo!" foge dessa linha uma vez que é escrito pelo pai de uma criança autista, e isso muda tudo. Pelo fato dele descobrir a doença do filho e não ter qualquer conhecimento prévio a respeito dela, ele se torna um grande herói que busca estudar e compreender o mais rápido possível o que se passa na cabeça e no mundo de sua criança. Além disso, é impossível distanciar-se do autismo com profissionalismo, é o seu filho, como poderia não encher de emoção as páginas do livro e carregar de sentimento essa leitura?

Então o que há de mais fantástico no livro não são as informações sobre o espectro autístico, essas podem ser facilmente encontradas na internet ou em qualquer outro livro sobre autismo, porém neste elas são passadas com muita emoção. Somos sutilmente convidados a experimentar uma pequena parte do que sentiu o Paiva Júnior nessa longa viagem de descobertas, sentimos a sua tristeza, seu luto, sua força e garra de lutar, por fim nos enchemos de esperança e coragem de enfrentar o autismo ou qualquer outra dificuldade que nossas crianças venham a ter.

Acredito que a principal função do livro seja oferecer uma mão amiga aos pais e familiares que receberam o diagnóstico de autismo de sua criança. Mas o livro vai além, também se presta a despertar o altruísmo daqueles que não conhecem o autismo e assim julgam mal uma criança autista. Ele ajuda a entender o que se passa no mundo autista, como se sentem os pais dessa criança, e toda a luta que é travada no dia-a-dia. Infelizmente o preconceito persiste como o pior estigma das doenças mentais.

Links:
Resenha do Autismo - Não espere, aja logo!
Outras resenhas escritas por mim 
[Mente Hiperativa]

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

(Des)apego


(Des)apego 

Diz que não ama mais e quer gritar isso pra todo mundo ouvir, diz que não quer mais e se esforça o tempo todo pra se manter longe. Observe que dizer que não se importa já é se importar de alguma forma, de maneira velada, inconsciente. Isso prova que o amor ainda não morreu e ainda habita sua cabeça e coração.

Essa preocupação toda de mostrar que não se importa muitas vezes mascara um desejo recolhido, parece mais que quer convencer-se do que diz. Afinal quem já esqueceu não se lembra de dizer que esqueceu, simplesmente apagou da memória. Porém, aquele que lembra e quer esquecer precisa convencer-se constantemente disso. É um duelo interno, sem dúvida.

E diante disso o desapego surge como o grande desafio da vivência humana, como esquecer e romper laços? Como lutar contra o desejo que outrora era tão natural? Como deixar de amar de um dia para o outro?

Gritar aos quatro cantos que o amor morreu só reforça a ideia de que ainda está vivo pulsando e resistindo às suas tentativas de assassinato.

[Mente Hiperativa]

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Surpresas da vida


Surpresas da vida
Microconto.

Não quis fazer intercâmbio de seis meses para o Canadá,
não queria atrasar o curso universitário.
Mais tarde descobriu que tinha um tumor,
teve que trancar a faculdade por um ano pra se tratar.

[Mente Hiperativa]

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O que te prende?


O que te prende?

Já parou pra pensar o que te prende? O que te impede de alçar voo pra longe e abandonar tudo e todos? Pense naquilo que é importante na sua vida e que não te permite ir embora, aquilo que te faz bem, que você tem medo de perder ou viver sem.

Às vezes sinto vontade de deixar tudo, mas imediatamente algumas pessoas e situações me vem à mente e sou impedido de abandoná-los, é o amor. Não seria capaz de deixar meu mundo pois aqui tenho felicidade, sou amado, amo, sou feliz, me sinto seguro. Não é puramente comodismo, talvez seja um pouco, porém há outros fatores mais fortes que me seguram aqui.

O que te prende? Dinheiro, comodidade, sentimentos, medos, pessoas, situações? O que te impede de voar pra longe? Já pensou nisso? Pense agora.

[Mente Hiperativa]

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

AUTISMO - o impressionante caso de CARLY FLEISCHMANN


AUTISMO - o impressionante caso de CARLY FLEISCHMANN

Conheci a história de Carly Fleischmann ao ler o livro "Autismo - não espere, aja logo!" e fiquei completamente admirado, bestificado, sem palavras. Eu pude ver os olhos tristes dela ao dizer certas coisas, pude imaginar parte - e não me atrevo a dizer 'tudo' - que ela sente, a rejeição, a estranheza das pessoas, a carência, a vontade de ser como os outros.

Já é o sexto livro que leio sobre autismo e de todos eles esse foi o que mais me emocionou, pois diferente da maioria que é escrito por profissionais da área (psiquiatras, neurologistas, psicólogos...) esse foi escrito por um pai. O destaque que dou a esse livro não é por conter mais informações nem informações mais valiosas, mas pela maneira como o assunto é abordado, bem mais sentimental e menos profissional, o autor não escreve com termos técnicos nem linguagem 'fria' e científica, o autismo aqui não é um capítulo de psiquiatria, mas um capítulo de sua vida. O Paiva Júnior descobre que seu filho é autista, ele não estudou tal transtorno na faculdade, a vida lhe impôs tal estudo na prática. Além disso, a narração não é em terceira pessoa como se o indivíduo autista fosse o outro, ele fala como se fosse parte dele, e de fato é uma situação que ele vive todos os dias, todas as horas do dia, não é como um médico ou psicólogo que analisa um caso clínico com o devido distanciamento profissional e esse é o diferencial da obra.

Não quero com isso tirar o merecimento dos outros livros, inclusive acho que pra ler esse é preciso ter lido algum mais técnico antes pra se familiarizar com os sintomas, conhecer um pouco do tratamento e o caminho pelo qual o autismo se conduz. E então, quando souber alguma coisa sobre o assunto, leia esse livro, e não apenas dominará tecnicamente o transtorno como também sentirá um pouco do que sente alguém que tem um filho (ou parente) autista. É uma leitura emocionante.

Mas voltando à história de Carly Fleischmann -a quem dirijo a postagem - ela foi diagnosticada com autismo grave e retardo mental severo, mas acabou contrariando todas as expectativas médicas e intrigando a ciência ao mostrar uma evolução inesperada. Quero compartilhar a história dela pra mostrar que o conhecimento da ciência é ínfimo, não sabemos de NADA, tudo que conhecemos é pouquíssimo e que ainda temos MUITO a aprender sobre a mente e seu funcionamento.

Carly foi diagnosticada na infância com autismo severo e retardo mental grave, apresentou comprometimento motor com atraso de funções básicas como sentar e andar, manifestação de movimentos constantes e repetitivos, não desenvolveu a fala. Com um diagnóstico tão sombrio ninguém esperava uma que um dia Carly pudesse levar uma vida 'normal', os progressos eram mínimos e todos pareciam se conformar com a sua situação; seus pais, no entanto, nunca desistiram da filha e jamais perderam a esperança e a força necessária pra lutar pelo bem-estar da pequena Carly.

O tempo passou e aos 11 anos, sem nunca ter sido ensinada a ler ou escrever, muito menos a usar o computador Carly se aproximou dele e digitou as palavras DOR e AJUDA, em seguida correu para o banheiro e vomitou. Aquilo foi incrível, afinal até então ela era tida como deficiente mental, incapaz, desconectada do mundo, e de repente ela mostra que está plenamente ligada em tudo que se passa, que domina a linguagem, que sente da mesma forma que nós e sabe se expressar. Foi uma surpresa muito boa, tão boa que o pai de Carly colocou em xeque o diagnóstico de retardo mental severo; uma das terapeutas inclusive chegou a dizer que tal atitude sugeria que havia muito mais coisas se passando na cabeça de Carly além do que poderiam supor até então.

Depois disso os pais passaram a estimulá-la a escrever, mas ela resistiu a comunicar-se novamente, tentaram por meses, inclusive submetendo seus pedidos ao ato dela digitar no computador. Um dia, porém, ela resolveu desabafar seus sentimentos e acabou revelando uma enorme capacidade de articular ideias, mostrou que tem entendimento de sua condição, que sente o mundo ao seu redor, que sabe onde está, com quem e o que faz. Foi uma revelação e tanto. Segue alguns de seus dizeres:

"Sou autista, mas isso não me define. Conheça-me antes d eme julgar."

"Se eu não bater a cabeça parece que eu vou explodir, eu tento não fazê-lo mas não é como apertar um botão."

"Eu sei o que é certo e o que é errado, mas é como se eu lutasse contra o meu cérebro o tempo todo."

"Eu queria ir à escola como uma criança normal, mas não quero que fiquem com medo de mim quando eu bater na mesa ou gritar."

"As pessoas pensam que sou burra porque não sei falar."

Essa última frase foi a que mais me marcou, mostra um pouco do estigma que ela carrega e fica bastante claro o quanto ela sofre com a subestimação, com a indiferença, com o desprezo, com o preconceito e desinformação das pessoas que a rodeiam.

Diante disso tudo, os médicos reconsideraram o diagnóstico de retardo mental severo. E eu me atrevo a mais, eu questiono o esteriótipo que é colocado aos autistas, dizem que são desconectados, aluados, incapazes, deficientes, antissociais, lerdos, loucos e tantas outras coisas. Será mesmo que são isso tudo? De fato eles têm um funcionamento cerebral atípico, mas isso não os torna inferiores. O autista tem muito a nos ensinar, basta querermos aprender, podemos nos envolver e conhecer o seu mundo ao invés de apenas querer trazê-lo ao nosso. Burro são os que não conseguem enxergar isso como uma oportunidade de aprendizado e aceitação das diferenças.

A história completa de Carly Fleischmann: http://www.vocesabia.net/saude/autismo-o-caso-impressionante-de-carly-fleischmann/

[Mente Hiperativa]

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Escuridão


Escuridão

Descobri um novo mundo, apaguei a luz e multipliquei o valor de cada toque, ampliei a sensibilidade da minha pele, meus dedos passaram a ser a chave para sentir nessa nova dimensão. O seco, o molhado, o quente, o úmido, cada toque projeta um calafrio, um alisado, uma mordida, a saliva que pinta o corpo com cores  que não posso ver. Sinto agora coisas que antes não eram possíveis, percebo com mais astúcia o que meu olhar precocemente revelava, de olhos fechados posso explorar mais profundamente a realidade que me cerca. No escuro existe um novo mundo, mais rico, mais interessante e bem mais extenso do que minha visão pode proporcionar. Assim me debruço nas novas possibilidades que a negritude oferece, me aproveito disso tudo e me sinto um turista perdido na escuridão. E como é bom perder-me.

[Mente Hiperativa]

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Adeus, filho perfeito


Adeus, filho perfeito

Saiu do consultório médico decepcionado com o diagnóstico que recebera do filho. E agora, o que diria aos amigos? Como aceitar que o filho não era Perfeito como sempre sonhou? Por tanto tempo alimentou expectativas de que poderia levar o filho ao treino de futebol, queria ensiná-lo a surfar, comprar bateria e guitarra para que ele pudesse formar uma banda com os amigos, quem sabe até ensaiar na garagem de casa a despeito das reclamações da vizinhança. Amigos? Será que o filho seria capaz de fazê-los depois dessa notícia? Não tinha mais certeza de nada, e seus sonhos caíram por terra.

Sentiu-se perdido, perdido e triste, como poderia concretizar tantos sonhos diante de um diagnóstico severo como esse? Autista??? Esse médico não devia saber o que estava falando... Na hora pensou até em processá-lo, depois desistiu e pegou o carro, saiu sem rumo, queria espairecer, esquecer que esse dia aconteceu e acreditar que tudo não passava de loucura da cabeça do médico. No dia seguinte, mais calmo, tomou uma importante decisão: procuraria outro médico, e outro, e outro, até que algum deles atestasse a normalidade do filho. Foi uma verdadeira peregrinação, mas as respostas eram sempre as mesmas e nenhum falou aquilo que ele queria ouvir.

Ele não aceitou fácil, mas o filho era sim diferente; nem melhor, nem pior, apenas diferente. Bastava observar aquele pequeno por alguns instantes pra notar que interagia com o mundo de uma forma toda peculiar. Mas ainda assim ele transmitia vida nos seus olhos, pois ao contrário do que muitos ainda pensam o autista não é morto por dentro, não tem um olhar vago e movimentos vazios e repetitivos, ele vive, sorri, cria laços e afeto.

Mesmo diante disso tudo o pobre pai apenas pensava numa maneira de levar adiante todos aqueles sonhos que construiu em torno do filho Perfeito. Entretanto eu lhe pergunto, porque não levar adiante os tais sonhos? O fato de ser uma criança diferente não o torna incapaz, porém o preconceito poderá sim torná-lo um inútil, inclusive pode privá-lo de ser feliz. Se a criança é diferente ele poderá te oferecer uma nova forma de enxergar o mundo, ele tem talentos que podem ser diferentes dos talentos da maioria e certamente te deixarão surpreso.

O pai demorou a aceitar, mas passado o primeiro momento de susto ele procurou se informar sobre o autismo e descobriu que não é o fim do mundo. Depois disso, alimentado pela esperança de ver o filho bem, ele prosseguiu pela enorme caminhada que o espera pela frente, árdua e recompensadora, que lhe trará como troféu um filho atleta, músico, surfista, sociável, com boas notas e o mais importante de tudo, Feliz. 

Nenhum filho nasce perfeito, assim como ninguém é super-herói antes de ser pai. Esses conceitos são construídos com luta e merecimento; então será melhor desistir dos sonhos ou continuar a percorrê-los?

[Mente Hiperativa]