sexta-feira, 13 de julho de 2012

O verdadeiro EU



O verdadeiro EU


Hoje eu vou a uma audiência, pego meu paletó, minha postura madura, um ar destemido, e saio coberto de seriedade. Quando vou a um casamento eu coloco um sorriso de 'desejo toda felicidade a vocês', mesmo que eu não acredite na instituição do matrimônio. No trabalho eu me visto de médico, e isso vai além de uma bata e um estetoscópio, embora somente isso que importe para muitos pacientes; eu coloco também meu empenho em jogo, minha atenção, minha competência. Pra ficar em casa eu deixo a cara mal lavada, seca, ácida, ou rude, pode estar feliz, mas quase sempre tranquila, visto uma roupa larga, velha, mas que tem um valor sentimental. Para ir comprar pão ou correr na praia uso um temperamento cotidiano, sujeito a sorrisos fora de hora, um ar reflexivo, temperamento paciente. São tantos que visto, tantas caras, roupas, fantasias sociais. E quando estou só, quem sou eu? Sou maduro, competente, rude ou cotidiano? Todos? Nenhum? O verdadeiro eu é o que está comigo quando estou só ou o que uso no mundo lá fora? Quem é o verdadeiro? Será que algum deles é o verdadeiro? Será que há algum falso?

[Mente Hiperativa]

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Impotência


Impotência

Existem situações em que não há o que fazer, não há o que dizer, nem há o que remediar. Tudo que for dito não poderá confortar, não trará de volta pessoas ou situações e, portanto, será em vão. São palavras gastas, tentativas de conforto que até irritam - apesar da boa intenção - e não atingem seu nobre objetivo. Não há o que fazer.

E nessas horas somente o choro parece aliviar, sofrer deve ser a solução, e tentar fugir dessa dor é pura enganação. Nos momentos em que me sinto impotente diante do mundo eu me entrego a essa sensação, eu sinto que ninguém pode me ajudar, por isso prefiro ficar só, sofrer só, e depois algum choro e uma noite de sono tudo passa.

[Mente Hiperativa]

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Mariposas e loucos


Mariposas e loucos

Mariposas são seres fantásticos que voam cegamente em direção a qualquer foco de luz acreditando que esse seja a lua, perseguem seu objetivo até a exaustão e frequentemente morrem por isso. Assim são os loucos, ou 'lunáticos', que acreditam na própria loucura e acabam pagando um elevado preço por isso.

[Mente Hiperativa]

terça-feira, 10 de julho de 2012

Quando a pedra no caminho é o próprio pódio


Quando a pedra no caminho é o próprio pódio

No meio da pedra tinha um caminho, e das dúvidas surgiram certezas, traiçoeiras, que ofereceram um caminho, no meio da pedra. Dos problemas despontaram soluções, aparentes, calmantes, talvez até platônicas, mas vieram do problema, da dor, da tristeza, da incerteza, do sofrimento. E da dor, fez-se a paz, que inundou o coração que antes sofria agonizado, agora se sente tranquilo, olha pra trás, e chora. Mas chora com alegria, com orgulho, vê o caminho que passou, as pedras, e as dificuldades, e enxerga mais do que pedras e problemas, enxerga desafios, e sobretudo vitórias. O chão de pedras, antes difícil de transpor, hoje é seu troféu na estante. A foto da montanha não passa de uma lembrança na parede, mas traz à mente inúmeras vitórias e conquistas, recheadas de dor, mas uma dor que não incomoda mais, é até motivo de orgulho.

[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O encontro na praia


O encontro na praia

Hoje eu marquei um encontro na praia, era tarde da noite e somente a lua e meia dúzia de postes iluminavam o céu escuro da cidade. Poucas estrelas foram testemunhas desse diálogo silencioso e tão agradável que ocorreu na areia branca.

Chegando na praia eu tratei de tirar os sapatos, não me preocupei em ficar mal-apanhado para o encontro, ao contrário, dessa forma ficaria mais a vontade. Assim pude sentir a areia da praia penetrando por entre os dedos dos meus pés. Senti também a brisa fria da noite... Tal brisa marinha carregou meus problemas, transformando-os numa nuvem de esquecimento. Fechei os olhos e senti aquele instante, tão único em minha vida. Eu pensei em ir até o mar, arregaçar a barra da calça e molhar os pés, mas estava tão confortável sentado ali na areia, e o vento tão frio. Diferente das outras vezes que fui à praia a noite eu não quis pensar na vida, quis apenas esvaziar a mente. Foi um ótimo encontro, eu e eu mesmo, um encontro silencioso, sem nada a dizer, sem nada a pensar, só ouvi o som do vento varrendo minha cabeça.

[Mente Hiperativa]

domingo, 8 de julho de 2012

Minha dor


Minha dor

Minha dor vai muito além da carne, ultrapassa o sentido físico da palavra, da substância, independe de qualquer condução nervosa, e não envolve o entra-e-sai de mediadores químicos, impulsos elétricos ou comunicação celular.

A minha dor é mental, espiritual, talvez seja um karma, contra o qual eu luto, duelo, ele tenta me derrubar, e eu não me deixo cair. Ela não cala com analgésicos, ela não cessa com terapias alternativas. E se eu digo que minhas articulações doem, minha cabeça dói, ou todo o meu corpo dói, é só uma forma de expressar o extravasamento dessa dor tão íntima, espiritual, que transcende o plano orgânico e passa a conviver comigo nesse mundo material.

[Mente Hiperativa]

sábado, 7 de julho de 2012

Me leve de volta ao meu tempo

 

Me leve de volta ao meu tempo

Sinto falta do tempo em que a tecnologia não possuía cadeira cativa na nossa casa, quando ela era apenas uma projeção do futuro distante, impalpável, talvez até inatingível. Hoje ela invade a nossa casa, atrapalha o nosso momento em família -ou privado- e se planta no meio da sala como uma imponente palmeira imperial. E não sai mais de lá. Chega a ser incômodo, a tecnologia é um hóspede indesejável, como aquela vizinha que não para de falar e não se manca de ir embora. Me perdoem os antenados, mas eu tenho saudade da tranquilidade dos tempos em que a tecnologia não estava presente no centro de nossas vidas.


O que eu faço com tanto progresso INdesejável? Como sair desse mundo se esse é O mundo atual? Às vezes dá vontade de mudar de planeta, ou ser um ET nesse planeta em que as pessoas enlouquecem no meio de máquinas e informações online. ONLINE, odeio esse nome, sinto angústia apenas em pronunciá-lo. 


Maldito mundo moderno!


Queria voltar no tempo, viver a época em que os casais se correspondiam por cartas escritas à bico de pena, tempo em que a moça aguardava ansiosamente o 'garoto de recado' lhe levar um bilhetinho do seu amado avisando que estaria presente logo mais para o almoço. Imagine a sensação de prazer que ela sentia, porém a ansiedade saudável de outrora hoje virou uma angústia paranóica em meio a constantes (e bombardeantes) torpedos SMS. Antes podíamos esperar e enquanto isso aproveitávamos o tempo para admirar o mundo ao nosso redor; hoje quem tem tempo pra alguma coisa? Hoje precisamos estar conectados o tempo todo. E isso é muito incoerente.


Era tão bom o tempo em que não havia telefone celular, em que as ligações não nos incomodavam a todo instante, e ninguém nos regulava à cada hora. O celular criou a falsa necessidade de ser localizado o tempo todo, as pessoas pensam que se não conseguirem falar com alguém o mundo vai acabar, e ligam 30 vezes seguidas. Além disso, ele trouxe consigo a falsa impressão de aproximar as pessoas, e assim tirou todo o prazer da espera, tornando-a algo extremamente frustrante. Queria viver num mundo em que não existissem telefones celulares. Alguém conhece algum?


Bom mesmo devia ser no tempo em que as informações eram veiculadas pelo boca-a-boca, devagar, mas com entusiasmo, no ritmo de nossas mentes, e o melhor: com filtro. A mim não agrada ter um volume imenso de notícias se nem 2% são utilizáveis ou do meu interesse, não me sinto bem ao saber que tenho que filtrar milhões de informações, e assimilar outro milhão delas. E apesar disso ainda acabo me sentindo um 'nada' por não saber um décimo do que ocorre no âmbito global, meio ambiente, atualidades, vida das celebridades, fora o imenso arsenal de crimes e novidades da ciência. A tecnologia angustia qualquer um.


Quero voltar ao tempo em que as redes sociais eram reais, e não virtuais, quando as pessoas se encontravam na praça pra trocar ideias, ou numa mesa de bar, quando fortaleciam seus laços com olhares e apertos de mão, ao invés de curtidas e compartilhamentos. Quero de volta poder olhar nos olhos das pessoas, com sinceridade, quero poder tocá-las, sentir seu sorriso. Estou farto de smiles que dissimulam lágrimas, de mensagens belas que não são colocadas em prática, de belas fotos photoshopadas que parecem mais com uma barbie do que com um ser humano. Eu quero gente de verdade, e não pessoas que fingem uma vida perfeita nas redes virtuais.

Preciso de uma vida de verdade, resgatar o poder do sentir que anda tão disperso nessa sociedade essencialmente tecnológica. De tanta superficialidade ao meu redor acabo me contaminando, e sofro sem saber porque. Não me sinto adequado nesse mundo de hoje, talvez eu seja muito visceral, não tenho microcircuitos no meu cérebro, nem raios laser nos meus olhos, não sou high-tech, sou daquele tempo em que as pessoas se olhavam nos olhos, em que não havia avatares nem second life, em que os dedos habiam feitos para tocar e não digitar. Eu sou daqueles que precisa sentir, e atrás de uma tela, sem poder sentir, eu me sinto mal, vazio, e sem saber a razão, eu adoeço.


[Mente Hiperativa]