[Mente Hiperativa]
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
quarta-feira, 5 de julho de 2017
Esconde-esconde
Esconde-esconde
A felicidade rondava minha casa, ensaiava bater à porta e de repente parecia desistir. À espreita na janela eu acompanhava seus movimentos, ansioso, até o dia em que resolvi parar de persegui-la. Assim acabei me acostumando a levar a vida de forma serena, sem esperar grandes rompantes de alegria. Tudo ia bem até o momento em que fui surpreendido pelo toque da campainha. Abri a porta e ela saiu correndo como um relâmpago, mas a essa altura eu nem me preocupava mais em tentar agarrá-la, pois já havia aprendido a me divertir com essas aparições inesperadas. Tranquilamente a vida seguia seu rumo, fechei a porta, as cortinas, não havia motivo algum pra desespero. Eu sabia que logo ela faria outra visita surpresa, ela sempre volta.
[Mente Hiperativa]
quarta-feira, 3 de agosto de 2016
Só mais uma
Só mais uma
Com seu talento notável conquistou várias partidas, mas como todo bom jogador nunca soube a hora de parar. Jogava compulsivamente e à cada aposta sentia prazer ao saber que era tudo ou nada, que poderia perder toda sua conquista, mas era justamente esse risco que alimentava-lhe a alma. A cada vitória era tomado pelo desejo de vivenciar novamente aquela sensação e à cada derrota a dor o fazia jurar que jogaria só mais uma.
E como um vício que jamais tem fim ele virava as noites nos cassinos da cidade colecionando prêmios cobiçados e perdendo tudo em seguida, sempre voltando à mesa pra vingar seu orgulho ferido. O ciclo de prazer e dor se mantinha vivo e o motivava nesse jogo de roleta, cartas e amor. Eram fichas e mais fichas, o coração ia a mil em apenas um segundo, quase saía pela boca, mas mantinha-se vivo por pura vontade de vencer, só mais uma.
[Mente Hiperativa]
domingo, 24 de julho de 2016
A morte: fatalidade ou escolha?
A morte: fatalidade ou escolha?
E se a morte não existisse e cada um determinasse o instante do seu fim? Em que momento você ia querer parar? Aliás, você ia querer parar? Teria que ter coragem ou motivo suficiente pra encerrar a vida, já que por conta própria ela jamais acabaria. Parece surreal, mas será que não é assim que ocorre?
A morte é o grande mistério da vida, será que temos o poder de determinar nossa causa mortis ainda que sem ter plena consciência disso? Através das nossas experiências, consumos, modo de vida, exposições e circunstâncias?
O tabagista que morre de câncer, o imprudente que morre no trânsito, o glutão que morre de infarto, o relapso que morre por descontrole de sua enfermidade, o irresponsável que morre no acidente de trânsito, o bandido que morre pelo crime.
Será que no fundo a vida não quer acabar e cada um de nós que a provoca e a deixa sem saída? No final das contas parece que o suicídio não é algo tão incomum, ao menos partindo do pressuposto de que ele pode ser longo e calmamente arquitetado durante toda uma existência. Não é preciso morrer rápido pra concluir que se matou, nos matamos no dia a dia, à cada cigarro tragado, à cada discussão de trânsito, à cada raiva guardada, matamos um pouco de nossa vida à cada traição, mentira ou extravagância alimentar.
A vida vai se acabando, se arrastando, e o último golpe será sempre considerado o culpado. Mas na verdade tivemos tempo suficiente de planejar o crime perfeito, muitas vezes o primeiro e último de toda uma vida.
[Mente Hiperativa]
domingo, 5 de junho de 2016
Aquele vazio não era fome
Aquele vazio não era fome
Você que nunca se jogou de olhos fechados no escuro desconhecido. Nunca se entregou na primeira vez como se já fosse a milésima.
Se você nunca arriscou pra petiscar, se nunca sentiu indigestão após se banquetear, você não sabe o que é passar fome de amor.
[Mente Hiperativa]
sexta-feira, 3 de junho de 2016
Tempo de pipa
Tempo de pipa
Em céus de pipa não voam mais crianças como antigamente. O sol brilha como sempre, mas agora os papagaios não procuram mais as crianças pra brincar. As bolas de gude rolam para dentro de formigueiros em busca de diversão. Peões rodam e rodam, tontos, em busca do que é belo e vulgar. Vivemos o tempo da preguiça.
O sol, o algodão doce e as bolhas de sabão desfilam no céu, mas as pipas não se encontram mais com as crianças. Um dia quem sabe as coisas voltem a fazer sentido, talvez as pipas voltem a puxar as crianças pelo cordão e então o mundo volte ao normal. Um dia, quem sabe...
[Mente Hiperativa]
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
Se(nti)r humano
Se(nti)r humano
Saudade é o desejo de iludir-se,
de sentir novamente que tem
mesmo sem jamais ter tido.
[Mente Hiperativa]
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
O suficiente
O suficiente
simplesmente
o suficiente.
Basta a mim o que tenho
Não preciso de mais.
É demais!
Pra que tanto,
se o suficiente
é tão eficiente?
Às vezes me pergunto
(e não me respondo)
porque eu quero tanto?
[Mente Hiperativa]
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
Hora do recreio
Hora do recreio
Fui criança que corre descalço no chão de cimento, que caça lagartixa, pega lagarta com o graveto, faz armadilha pra passarinho, depois solta o prisioneiro. Consertei chinelo havaiana com prego, brinquei de caminhão, de carrinho, de bola de gude, peguei girino da rua que alagava quando chovia bastante. Mainha sempre descobria e jogava fora meus sapinhos recém formados. Empinei pipa, joguei peão, brinquei de cavaleiro com um cabo de vassoura, corri pelo quintal e fiz dele o meu reino.
Fiz cabana, acampei na sala, me escondi num túnel imaginário que ficava atrás da cadeira de balanço da minha vó. Dava susto nas galinhas, perseguia o peru, que de tanto medo se obrava todo. Fugi do cachorro brabo que na verdade só queria brincar, colei chiclete debaixo da mesa, dei muito susto nas babás que cuidavam de mim, me pendurei na janela, pulei da escada, fui alquimista, botânico, veterinário, biólogo, sempre tive essa alma de cientista. Passei trote pelo telefone, escapei de castigo, toquei a campainha da minha própria casa fingindo pedir esmola, subi em árvore, fui capitão, astronauta, viajei pra outros planetas numa nave espacial que era o balanço da minha bisavó no quintal de casa.
Andei de patins, adorava ir ao zoológico, construí castelos de areia na praia, brinquei nos parques e fiz muitas bolhas de sabão. Desenhei tudo que via no meu mundo, pintei tudo bem colorido, fiz chapéu de dobradura, barquinho, tomei banho em piscina de plástico que mal comportava os primos, mas sempre tinha espaço pra algum adulto que havia esquecido de crescer. Tomei banho de torneira também, e de bica, e de chuva. Dei muito tiro de pistola d'água, assustei minha vó com animais peçonhentos de plástico, me passei pelo meu irmão ao telefone, criei hamster escondido, pedi biscoito à vizinha através do muro usando um bicho de pelúcia como interlocutor, joguei pedra nas galinhas da vizinha, raspei a panela do bolo, 'roubei' o lanche da cozinha e saí correndo escondido, mas também já fui pego em flagrante em muitas das minhas traquinagens.
Fui criança, aproveitei bastante, me diverti nos momentos em que me foi permitido, corri pro quintal pra fugir da realidade, no meu mundo de fantasia. Fui feliz, na hora do recreio. Agora preciso ir, pois já tocou a sirene, o intervalo acabou. Voltemos à aula da vida.
[Mente Hiperativa]
sábado, 25 de outubro de 2014
A salvo da loucura
A salvo da loucura
Andava sempre atenta, olhando para os lados discretamente, parava num café e depois entrava numa loja, sem jamais repetir os lugares visitados. Procurava ser discreta nas atitudes e comentários, não queria chamar atenção, tampouco causar lembranças às pessoas. Reservava os óculos escuros apenas para os ambientes externos, pois aprendeu com o tempo que eles chamam atenção ao invés de cumprir seu propósito de disfarce.
Vivia perseguida pela sombra do medo, aterrorizada com a possibilidade de ser encontrada a qualquer instante. Colhia dados o tempo todo e os anotava pra criar sua nova história, retalhos de vivências alheias que via e ouvia pelo mundo a fora, precisava de uma identidade, de um passado ainda que fictício para usar nos diálogos essenciais e estritamente inevitáveis.
Em casa evitava olhar-se no espelho, não queria lembrar quem era de fato. A TV era sua companhia constante, até quando saía a mantinha ligada na opção mute. Silenciava o passado, construía lentamente um novo presente e não tinha qualquer certeza acerca do futuro.
Habitava a penumbra, andando cuidadosamente, pois qualquer pisada em falso poderia lhe custar a vida. Temia ser encontrada, caso o fosse teria que ajustar as contas com seu sórdido passado, aquele que evitava visitar até em pensamento.
Um belo dia foi dormir tarde da noite, exausta e pra sua surpresa e pânico acordou num hospício. Foi então que se deu conta de que seus últimos anos se passaram numa fuga de si mesma, presa numa clínica a enganar-se o tempo todo com artifícios torpes, disfarces tão loucos quanto a própria imagem de si mesma.
Descobriu de imediato, como quem encontra uma caixa antiga de fotos e se reconhece, que estava vivendo um incrível conto de fadas, com personagens, lugares e histórias que se repetiam diariamente, porém com outros nomes dados por ela. A lucidez, ainda que tardiamente, caiu em seu colo como uma bomba prestes a explodir.
E agora, o que faria da vida? Sem família, sem casa, sem trabalho, sem renda e COM lucidez? De que adiantava situar-se na realidade se nem ao menos poderia usufruir desse mundo feito apenas para os outros? Foi então que logo após melhorar da loucura entrou numa profunda depressão. E seus personagens, disfarces, fugas e fantasias caíram todos por terra, tornando-a uma pessoa apática, sedimentada numa cama como o velho leito de um rio.
Passou a não mais pronunciar as loucuras de antes, deixou de lado as perucas e lenços, os batons e óculos escuros. A vida trocou a fantasia pela morbidez de uma triste realidade, agora jaz numa cama olhando infinitamente para o teto branco e mofado daquele quarto nos fundos da clínica psiquiátrica. Sente saudade do tempo em que a loucura coloria sua vida com alguma esperança e, porque não dizer, felicidade. Mas não comenta isso com ninguém, não quer parecer uma louca.
[Mente Hiperativa]
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Isso de amar ainda vai acabar ferindo alguém
Isso de amar ainda vai acabar ferindo alguém
Inventou-se que a felicidade só existe a dois e assim acabaram com meu doce culto à melancolia e solidão. Fui arrancado do hábito da leitura e convocado a buscar esse tal amor sob a promessa de que ele me conduziria à eterna felicidade.
Em seguida, me disseram que não poderia ficar parado esperando o amor cair do céu, teria que sair de casa e ir à caça, ainda por cima me arranjaram esse trabalho. Bem que podia ser mais simples, mas aceitei e fui comprar pão. Com sorte poderia encontrá-lo na fila do caixa ou na prateleira de produtos em promoção.
Segui a risca o que me foi dito, corri atrás e depois de meia maratona acabei encontrando pelo caminho diversos sentimentos, desilusões, vivi relacionamentos, simbioses e até mentiras, colecionei troféus e derrotas. Por fim, vencido pelas circunstâncias, acabei voltando para a segurança dos livros.
No fim das contas sempre soube que essa história de amor acabaria me ferindo. De volta à solidão literária, agora repouso na cômoda posição de quem não precisa lidar com o mundo lá fora. Quanto à eterna felicidade, deixo aos que encontraram o amor; estes que embora feridos, sentem-se completos.
[Mente Hiperativa]
segunda-feira, 21 de julho de 2014
Prisão
Prisão
Toda vez que quero saber como você está eu te alcanço naquela caixa de ossos lá no alto, te desembrulho com cuidado e te acaricio. Sei que é mórbido, sei que é absurdo, mas conforta-me o fato de você estar ali, morto.
Às vezes sinto vontade de abrir a caixa e te ver voando pra bem longe, carregando contigo esse meu prazer doentio e me libertando dessa penitência diária. Mas você não passa de um passarinho morto, tão morto que nem pode voar.
Por isso, estaremos eternamente presos um ao outro.
[Mente Hiperativa]
sexta-feira, 4 de julho de 2014
Pedido de ajuda
Pedido de ajuda
Nesse ciclo vicioso o ser vai afundando em uma lástima de vida, sem luz, sem cores, jogando-se nos braços da derrota e assimilando toda a negatividade que o cerca. Sem amor o triunfo lhe parece um calvário inglório, sem ajuda a luta torna-se um desafio insustentável. E é nesse momento que um olhar sensível e treinado é capaz de provocar uma verdadeira mudança interior.
Por isso, preste atenção à miséria humana mascarada de apatia, ouça os gritos ao seu redor, reconheça o desamparo e a dor ocultos nas aparências ou mesmo escancarados aos olhos de quem quiser ver. Quem se entrega à dor pode não estar enxergando oportunidade de sair dela, muitas vezes não se trata de uma escolha. Estenda sua mão poderosa ao invés de julgar, lembre-se: você também erra...
[Mente Hiperativa]
domingo, 11 de maio de 2014
Pequeno dicionário do amor
Pequeno dicionário do amor
saudade que sufoca
mas sossega
com um sorriso teu.
Angústia que consome,
e se esconde
por trás da fumaça.
E logo passa ao te ver.
No meu pequeno dicionário
o amor não tem palavras
pra traduzir o que quero dizer.
Pois qualquer um que nos olha
consegue facilmente perceber:
o amor sou eu e você.
[Mente Hiperativa]
domingo, 27 de abril de 2014
Sonho de (a)mar
Sonho de (a)mar
As melhores noites de sono são aquelas em que o tempo está frio; os melhores sonhos são os que se passam como uma experiência real.
Naquela noite fechei os olhos e logo adormeci, o som dos grilos parecia cada vez mais distante, cedendo lugar à voz suave da emoção que progressivamente inundava meus ouvidos. Ela falava coisas bonitas e tentava me convencer a fazer um passeio de barco cujo caminho era bastante assustador. Pegando gentilmente em minhas mãos, ela foi me conduzindo pelo oceano de incertezas ao mesmo tempo em que me encorajava a superar qualquer dificuldade que surgisse pelo caminho. E assim me deixei levar pela correnteza de suas águas.
Diversos foram os percalços, mas a emoção me deu a força suficiente pra seguir adiante com firmeza. Tudo parecia tranquilo, olhei ao redor e o horizonte se perdia de vista, o azul do (a)mar emendava com o azul infinito do céu e então senti-me todo água, comungando daquela imensa massa líquida. Nesse exato momento o azul começou a escurecer, o tempo fechou e o céu desabou na minha cabeça como uma tempestade negra e traiçoeira. De repente me vi ao relento em um barco abandonado em meio ao mar-aberto, pronto pra ser engolido por suas águas enfurecidas. Não sei ao certo o que despertou essa ira, mas tive muito medo, me encolhi e esperei que algo me salvasse daquela situação angustiante.
Uma pontada dolorosa na cabeça me fez despertar do sonho, era a mão pesada da razão que me trazia de volta sem a sutileza daquela que me encorajou ao passeio. Eu estava completamente suado, molhado com as águas do (a)mar e custei a acreditar que era um sonho, pois a sensação era bastante clara: eu estava mesmo me afogando num poço de insegurança. Ainda assustado, sentei na cama e pude contemplar novamente o som dos grilos. Lá fora a chuva forte alagava a cidade com sua dor, aqui dentro do meu peito o silêncio tentava sufocar qualquer resquício de emoção do (a)mar.
[Mente Hiperativa]
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
No carnaval a vida se perde. Ou se encontra.
No carnaval a vida se perde. Ou se encontra.
Estava em casa, ainda vestido com meu pijama xadrez melado de pasta de dente, quando ouvi o som de orquestra lá fora. Ela carregava um entusiasmo e uma animação dignos do meu reconhecimento, o volume parecia aumentar gradativamente como se viesse ao meu encontro. E vinha. Guiado pelo barulho, me aproximei da janela pra ver o bloco passar, era carnaval, época em que costumo ficar em casa assistindo filmes, comendo e dormindo bastante, pois pular no meio de gente suada e embriagada nunca me pareceu divertido.
Nesse dia, porém, fui surpreendido com um fato que jamais me passou pela cabeça, enquanto contemplava o som e observava as pessoas em meio às serpentinas e confetes, vi minha vida passar. Esfreguei os olhos que ainda estavam um pouco inebriados com resquícios de sono acumulado e constatei que era ela sim, saltitando no meio daquele povo ao som do melhor frevo Recifense.
A adrenalina tomou conta do meu corpo instantaneamente, me belisquei, me sacudi, me olhei no espelho e não encontrei em mim sinal algum de vida. Senti-me perdido, desnorteado, sem enxergar outra solução senão correr atrás daquela desajuizada que havia abandonado meu corpo sem qualquer aviso. Encarei-a da janela pela última vez, fiz cara de raiva e ela acenou pra mim, soltou um beijo e mergulhou no meio do bloco.
Nesse instante, fui tomado pelo impulso e corri até o elevador, não me passou pela cabeça que eu estava todo descabelado, sem lenço, sem documento. Nem mesmo a porta de casa lembrei de fechar. Apertei o botão do elevador e nada, apertei de novo, e de novo, nove vezes seguidas. Decidi usar as escadas, pois minha vida estava escorrendo pelos meus dedos e eu não podia demorar a resgatá-la. Desci os oito andares em um instante, mais parecia um foguete.
Lá embaixo encontrei um mar de gente. Fiquei aflito sem saber como encontraria minha vida no meio de tantas pessoas. Meus olhos caçavam em todas as direções, mas havia muitas cores e sons, vultos e fantasias, fiquei um pouco confuso no começo, até me situar no processo e tomar coragem de me enfiar no meio daquela bagunça chamada 'Carnaval'.
Deparei-me com inúmeras odaliscas, bruxas, batmans, hippies, bode gaiato, chapolim, mulher-gato, Obama e uma turma que mais parecia a família Adams. Não era fantasia, devia ser feiura mesmo. Também vi mulher-melancia, mulher-melão, mulher-caju, mulher-salada-de-fruta, mulher vestida de homem e homem vestido de mulher. Tinha de tudo. Não sei como minha vida foi se meter no meio dessa "babilônia em chamas", queria apenas encontrá-la e voltar pra casa, comer, dormir e assistir filmes.
Procurei-a exaustivamente, o calor estava demais, a combinação de sol e aglomerado humano ainda aumentava a sensação térmica. Parei pra comprar água, só tinha cerveja, mas de qualquer forma eu estava sem carteira e sem dinheiro. Recebi elogios pela fantasia de pijama. Fantasia??? A essa altura eu nem ligava mais, estava desanimado com meu fracasso, quase aceitando que minha vida havia sido perdida de vez.
No meio daquele empurra-empurra senti algumas apalpadas, percebi muitos olhares e logo estava cedendo às conversas. A sede era grande e tomei uma cerveja, não recordo quem me ofereceu. Logo tomei a segunda e a terceira. Procurei minha vida e nada de encontrá-la. Tomei a quarta e depois parei de contar... Quando dei por mim estava no clima da festa, frevando até o último acorde, mesmo sem nunca antes ter frevado.
Daí em diante desisti de procurar pela vida, joguei-me nos braços da folia e foi assim que acabei esbarrando, sem querer, com a dita cuja em plena folia. Juntos, nos divertimos demais e no fim da tarde voltamos pra casa, eu e ela. Estava tão exausto que nem comi, tampouco quis assistir qualquer filme, só pensava em tomar um banho e dormir. Às vezes fico pensando sem compreender como pude ficar tanto tempo debruçado na janela esperando a vida passar.
[Mente Hiperativa]
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
À espera de uma melancia
À espera de uma melancia
Sendo assim, foi ao médico procurar saber o que estava acontecendo. Uma melancia! Estava grávida de uma melancia, podia ver no ultrassom suas ranhuras entrecortando o corpo daquele fruto longitudinalmente. Foi tamanha emoção que não se aguentou, chorou em prantos deitada na maca.
Chegou em casa e logo providenciou uma enorme fruteira para recepcionar seu concepto. Ela era vermelha da cor de sangue com bordas esverdeadas e entrecortadas, formando mosaicos bastante interessantes.
No enxoval comprou um conjunto de pratos de porcelana, todos pintados delicadamente à mão com o tema variado de flores campestres, orquídeas, violetas, tulipas, gerânios, girassóis e outros. Cada prato era representado por uma flor distinta. Guardanapos de pano complementavam o arranjo.
Os talheres de prata ela ganhou de sua mãe, estavam na família a três gerações e ficavam guardados numa caixa de couro revestida internamente com veludo verde, reservados apenas para ocasiões extremamente especiais. Eis que logo chegaria mais uma delas.
Ainda faltavam seis meses e ela precisava se preparar, pois a barriga ainda cresceria bastante. E os pés também. Todas as manhãs ela tomava um banho de sol vestida de verde para que pudesse absorver determinada faixa de luz que certamente seria importante para o desenvolvimento de seu concepto.
Aos sete meses de gestação o médico afirmou que sua melancia já era dotada de inúmeros caroços ainda imaturos, ela se emocionou muito e quase inundou o consultório de seiva. Não aguentava esperar tanto pra ver os primeiros ramos de sua melancia. Será que nasceria com alguma folhinha? Ou apenas surgiria depois? A ansiedade lhe consumia por dentro.
Os beija-flores já circundavam a casa constantemente, guiados pelo aroma de jasmim que exalava da boca da gestante, sinal de que estava se aproximando o momento do fruto nascer. Todos os dias eles voavam pelo quarto dela como anjos mensageiros e protetores, batendo suas asas rapidamente e seguindo adiante após conferir que ainda não havia ocorrido a expulsão do fruto.
O nono mês chegou com muita emoção, os pais da moça aguardavam tal acontecimento com muita felicidade, era a primeira melancia a nascer na família e estavam todos muito orgulhosos. No dia em que ela sentiu a respiração ofegante e a dor típica de quem vai parir uma melancia (ela não conhecia até então, mas de imediato soube identificar), foi encaminhada à feira mais próxima.
Com o facão a postos e rodeado de beija-flores o feirante iniciou a retirada daquele enorme fruto, sete kilos, cheia de saúde, casca íntegra, sem fungos ou lacerações. Perfeita. A mãe foi fechada e logo as mulheres todas se sentaram à mesa para desfrutar de tamanha alegria.
Cada qual pegou seu prato de porcelana florísticamente ornamentado e tratou de fazer uma fila. A mãe, orgulhosa fatiava sua cria expondo sua carne vermelha e suculenta para que todas vissem como era boa ‘parideira’. Cada uma provou um pedaço e todas se deliciaram com aquele sabor extremamente doce e rico em vitaminas. Depois, cada uma aguardava secretamente que alguma semente tivesse êxito em seu organismo. Será que alguma seria beneficiada com o prazer de gerar uma melancia dentro do próprio ventre?
Os meses passariam e a torcida seria grande para que alguma conseguisse repetir a façanha. A mãe procedeu com o ritual de eliminação da casca de seu fruto, encarregando-se de enterrá-lo devidamente. O médico sentia-se orgulhoso de ter cuidado desde cedo de uma melancia tão promissora que modificou profundamente a rotina daquela pobre vila. Os meses passaram e muitas eram as vindas ao consultório, queixas mais diversas surgiam, o ultrassom nunca revelava nada atípico, apenas o de sempre, peras, maçãs, morangos e jabuticabas.
[Mente Hiperativa]
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Do reduto de um casulo
Do reduto de um casulo
Foge da própria sombra,
tem medo de si mesmo.
Vive tão cheio de lombra,
atirando sua vida a esmo.
Sofre calado, tristonho,
tamanha dor não lhe cabe.
Vive um temor medonho,
Sempre fugindo do embate.
É na escuridão que encontra,
sua grande chance de fuga.
Não há sombra, nem afronta,
é assim a paz que procura.
[Mente Hiperativa]
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Perseguição
Perseguição
acabar destrói.
E quem não lida com a dor,
é mesmo um terror!
Na minha estante,
livros inacabados.
Dali em diante,
Vários iniciados.
Não acabo o namoro,
Não largo o emprego;
Sinto-me o tempo todo,
perseguido pelo medo.
Assim a vida vai passando,
e permaneço inacabado.
Enquanto ela estiver me caçando,
quedarei desanimado!
[Mente Hiperativa]
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Fechando a ferida
Fechando a ferida
Logo, logo, tudo isso vai acabar. Fecho os olhos e sinto o sangue quente corando meu rosto, percorrendo rapidamente meus vasos; enxergo ora vermelho-intenso, ora vermelho-suave, conforme o ritmo acelerado do meu coração. Nesse instante, sinto a raiva me consumindo e percorrendo todo meu corpo, ela cerra meus punhos e me causa um impulso destrutivo que luto pra conter. Procuro me acalmar, afinal sei que tudo vai passar.
Concentro-me na areia que escorre lentamente pela ampulheta e percebo que a maioria dela já atingiu a porção inferior, não nos resta muito tempo. Aos poucos minha raiva vai passando e cedendo lugar à tristeza, abro os olhos e eles estão completamente úmidos. Sinto vontade de chorar, mas me seguro pra não te dar esse prazer. Já basta sua incrível habilidade em me machucar com palavras e cutucar aquela ferida que resguardo num lugar onde apenas nós dois temos acesso.
Você faz da guerra uma arte e eu tento transformar em arte o meu sofrimento, mas não sou tão habilidoso quanto você. Respiro fundo, prendo as lágrimas e dirijo minha atenção à ampulheta: o tempo está passando e o que estamos construindo? Vejo entre nós dois um rio de mágoas no qual costumo me afogar. Da minha parte me empenho em construir uma nave enquanto você seleciona as pedras mais afiadas para me atingir. Depois que agride me aluga os ouvidos com discursos vazios que não me iludem mais, tampouco me enchem de esperança.
Sei que vou voar, logo, logo, vou voar. Sofro enquanto você senta na poltrona e lê o jornal como se nada estivesse acontecendo. Fecho os olhos e vejo que tudo está acabando. Sei que quando abri-los novamente tudo será diferente, cada qual terá o que cativou e de nós dois restará apenas o dito pelo não-dito, as dores bem guardadas e resolvidas por cada um a seu gosto. Quando enfim o dia chegar, irei embora aliviado levando na lembrança somente o pouco que te pedi - bem pouco - e deixarei contigo as angústias que não resolvemos. Faça delas o que você achar melhor.
[Mente Hiperativa]
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